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Calor e umidade ampliam riscos sanitários e produtivos na avicultura

Estresse térmico afeta bem-estar, desempenho, imunidade e qualidade da produção, exigindo ajustes no manejo ambiental e nutricional das granjas

O aumento das temperaturas tem tornado o estresse térmico um dos principais desafios da produção avícola. A condição ocorre quando as aves não conseguem manter a temperatura corporal dentro de uma faixa adequada, o que compromete o bem-estar, reduz o desempenho produtivo e pode elevar a mortalidade nos plantéis.

Nas aves de criação, a zona termoneutra fica entre 18°C e 22°C, faixa em que os animais conseguem manter o equilíbrio térmico sem gasto energético adicional. Acima desse intervalo, a termorregulação se torna mais difícil, principalmente porque as aves não possuem glândulas sudoríparas e dependem da respiração ofegante para dissipar calor.

Umidade intensifica o desconforto térmico

Além da temperatura elevada, a umidade relativa do ar também interfere diretamente na sensação térmica das aves. Em condições de calor e umidade alta, a perda de calor pelo organismo se torna menos eficiente, aumentando o risco de desidratação, desequilíbrio eletrolítico, esforço cardiovascular, estresse oxidativo e inflamações internas.

Um princípio utilizado no acompanhamento térmico indica que, para cada aumento de 10% na umidade, a percepção de calor pelas aves pode subir cerca de 2°C. Em um ambiente de 34°C com 40% de umidade, por exemplo, a temperatura percebida pode ficar próxima de 35°C. Se a umidade avançar para 65%, o índice de termossensibilidade pode chegar a 44°C, elevando o risco de perdas produtivas e mortalidade.

Efeitos aparecem antes dos sinais visíveis

O estresse térmico afeta a fisiologia das aves antes mesmo do aparecimento de sintomas evidentes. Quando a temperatura ambiente ultrapassa a zona de conforto, os animais aumentam a respiração ofegante e direcionam mais sangue para a periferia do corpo, em uma tentativa de dissipar calor. Esse processo pode levar à alcalose respiratória, ao desequilíbrio eletrolítico e ao maior gasto de energia com resfriamento corporal.

Com mais energia sendo usada para sobrevivência, sobra menos recurso metabólico para crescimento, produção de ovos e manutenção da imunidade. Em frangos de corte modernos, o problema pode ser ainda mais intenso, já que o crescimento rápido e o maior peso corporal dificultam a perda de calor, aumentando a vulnerabilidade ao estresse térmico.

Aves em galpão de produção apresentam sinais de desconforto térmico, condição que pode afetar bem-estar, imunidade e desempenho produtivo. Crédito: Inteligência Artificial

Intestino e imunidade são afetados

Outro impacto relevante ocorre no trato intestinal. O estresse oxidativo pode danificar células intestinais, reduzir a área de absorção de nutrientes e comprometer a integridade da barreira intestinal. Esse quadro favorece maior permeabilidade intestinal, desequilíbrio da microbiota e risco de inflamação sistêmica.

A imunidade também pode ser prejudicada. A ativação prolongada de mecanismos hormonais de estresse eleva os níveis de corticosterona, o que pode reduzir o consumo de ração, afetar a síntese proteica e enfraquecer a resposta imunológica. Com isso, as aves ficam mais suscetíveis a infecções, doenças entéricas e perdas de desempenho.

Entre os principais sinais observados em granjas estão aumento da respiração ofegante, abertura das asas para dissipar calor, busca por áreas sombreadas ou ventiladas, cristas e barbelas mais avermelhadas, redução da atividade, queda no consumo de ração e aumento da ingestão de água. Esses indicadores exigem atenção rápida da equipe de manejo.

Impactos variam conforme a categoria

Em frangos de corte, o estresse térmico reduz o consumo de ração, prejudica o ganho de peso, piora a conversão alimentar e pode comprometer a qualidade da carcaça. Também pode haver maior incidência de alterações na carne, como aspecto pálido, mole e exsudativo, além de perdas no processamento.

Nas poedeiras, o calor excessivo pode provocar queda na produção de ovos e piora na qualidade da casca. A respiração ofegante intensa interfere no equilíbrio ácido-base do organismo e prejudica a transferência de cálcio e carbonato para a formação da casca, resultando em ovos mais frágeis. Já em plantéis de reprodutores, os efeitos podem atingir fertilidade, viabilidade espermática e taxa de eclosão.

A mitigação do problema depende de uma abordagem integrada. Entre as medidas recomendadas estão melhoria da ventilação, redução da densidade de alojamento, uso de sistemas de resfriamento, fornecimento contínuo de água limpa e fresca, isolamento de tubulações expostas ao calor, ajustes nos horários de alimentação e formulação de dietas com maior digestibilidade e densidade nutricional. Com temperaturas mais elevadas e maior frequência de eventos climáticos extremos, o manejo preventivo passa a ser decisivo para preservar a saúde das aves e a eficiência da produção.

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