Nas últimas décadas, nas cadeias brasileiras de aves, suínos e bovinos, a sustentabilidade passou a orientar investimentos voltados à redução do uso de recursos naturais, ao controle de impactos e ao aumento da competitividade. O movimento responde às exigências de compradores e regulações, além dos custos associados a sistemas produtivos pouco eficientes.
Tecnologia e circularidade
Para Ariel Antonio Mendes, presidente da Fundação de Apoio à Ciência e Tecnologia Animal (FACTA), essa transformação reúne avanços em genética, nutrição, sanidade, ambiência e gestão. “Na avicultura de corte, os ganhos de produtividade reduziram significativamente a necessidade de insumos por quilo de carne produzida”, afirma.
Na produção de ovos, melhorias em manejo, biosseguridade e bem-estar elevaram a eficiência e a qualidade, segundo Mendes. Na suinocultura, o aproveitamento de dejetos para gerar biogás e biofertilizantes exemplifica a conversão de um passivo ambiental em energia e insumo agrícola.
O especialista acrescenta que monitoramento, automação, rastreabilidade e análise de dados ampliam a precisão das decisões. Essas ferramentas permitem acompanhar consumo de recursos, desempenho dos animais e condições de produção, aproximando resultados econômicos e ambientais.
Indicadores ganham espaço
Jean Carlos Porto Vilas Boas Souza, chefe adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Suínos e Aves, explica que o debate incorpora conceitos como economia circular e o tripé da sustentabilidade, baseado no equilíbrio entre as dimensões econômica, social e ambiental.
Na prática, Souza destaca quatro frentes: conversão de passivos em bioenergia, transição energética e eficiência hídrica, rastreabilidade da cadeia de grãos e nutrição de precisão associada ao bem-estar animal. “Para que a sustentabilidade saia cada vez mais do campo da subjetividade e se baseie em fatos e dados, é indispensável o uso crescente de indicadores e métricas reconhecidos internacionalmente”, defende.
Pressões sobre a pecuária
Na bovinocultura, o modelo historicamente apoiado na expansão territorial enfrenta novas condições. Guilherme Cunha Malafaia, pesquisador da Embrapa Gado de Corte e coordenador do Centro de Inteligência da Carne Bovina (CiCarne), relaciona a mudança às regulações internacionais, à pressão de compradores e ao custo da degradação produtiva.
“O resultado é uma transformação sem precedentes: o imperativo ambiental tornou-se, simultaneamente, o maior desafio e a maior oportunidade estrutural que a pecuária brasileira já enfrentou”, avalia Malafaia. Nesse cenário, produzir de maneira sustentável passa a envolver eficiência econômica, responsabilidade social, desempenho ambiental e capacidade de comprovar resultados.
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