Produtividade, sustentabilidade, rastreabilidade e acesso a mercados não podem mais ser tratados como temas isolados na pecuária brasileira. A capacidade de integrar essas frentes, respeitando a diversidade dos sistemas produtivos do país, passou a influenciar diretamente a competitividade e a geração de valor na cadeia.
Essa foi uma das principais conclusões do 6º Fórum da Pecuária Sustentável, realizado nos dias 2 e 3 de julho de 2026, em Mato Grosso do Sul. Com o tema “Da prática ao debate: caminhos para uma pecuária mais sustentável”, o encontro reuniu produtores, empresas, instituições financeiras, pesquisadores, organizações da sociedade civil e representantes do poder público.
Em artigo publicado na edição 232 da revista Feed&Food, Ana Doralina Menezes, presidente da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável, avalia que os desafios do setor exigem soluções construídas coletivamente. O produtor ocupa posição central nessa transformação, mas precisa de assistência técnica, políticas públicas, crédito, inovação e segurança jurídica para ampliar boas práticas em diferentes regiões e escalas de produção.
Gestão aproxima eficiência e sustentabilidade
O primeiro dia do Fórum foi realizado na Fazenda Gabinete, em Sidrolândia (MS). A programação aproximou os participantes da rotina da produção e apresentou experiências relacionadas a manejo, nutrição animal, preservação, gestão da propriedade e rastreabilidade.
Segundo Menezes, os exemplos demonstraram que a eficiência produtiva não depende exclusivamente da incorporação de novas tecnologias. Planejamento, organização dos processos e uso estratégico das ferramentas disponíveis também podem melhorar o aproveitamento das áreas, apoiar a recuperação de pastagens e criar condições para a intensificação sustentável.
A assistência técnica é parte decisiva desse processo. A adoção de uma prática precisa considerar as características da propriedade, a capacidade de investimento e o acompanhamento dos resultados. Sem orientação contínua e acesso a recursos, soluções tecnicamente viáveis podem permanecer distantes de uma parcela dos produtores.
Inclusão amplia alcance das boas práticas
O segundo dia ocorreu durante a Pantanal Tech MS, em Aquidauana (MS), com debates sobre transição verde e políticas públicas, qualificação e reinserção de produtores e rastreabilidade e mercado.
Para Menezes, fortalecer a pecuária também passa por criar caminhos para que mais produtores participem dos mercados formais. Regularização e reinserção produtiva, porém, precisam estar apoiadas em orientação técnica, recursos, acompanhamento e segurança jurídica. A abordagem procura criar condições para que produtores com potencial de adequação avancem sem abrir mão da conformidade.
Nesse contexto, a inclusão produtiva não representa apenas uma agenda social. Ela pode ampliar a base de fornecedores regulares, melhorar a gestão das propriedades e gerar benefícios econômicos e ambientais para toda a cadeia.
Rastreabilidade precisa gerar valor
A rastreabilidade foi outro eixo central do encontro. Além de responder a exigências comerciais, o acompanhamento da origem e da movimentação dos animais pode organizar informações, apoiar a gestão e aumentar a transparência entre produtores, frigoríficos, varejo e consumidores.
Quando os dados coletados retornam à propriedade e apoiam decisões, a rastreabilidade deixa de funcionar somente como obrigação documental. Ela passa a contribuir para o controle dos processos, a comprovação da origem da produção e o acesso a mercados que valorizam informações verificáveis.
O avanço dessa agenda também depende de métricas ajustadas à pecuária tropical. De acordo com Menezes, dados e evidências científicas são necessários para demonstrar os resultados das práticas adotadas no campo e ampliar o reconhecimento da produção brasileira nos mercados nacional e internacional.
A principal mensagem do Fórum é que nenhuma dessas medidas produz todo o seu potencial de maneira isolada. Recuperação de pastagens, assistência técnica, inclusão produtiva, rastreabilidade, financiamento e gestão fazem parte de uma mesma transformação. A continuidade do diálogo entre os elos da cadeia será determinante para converter essas agendas em produtividade, segurança e novas oportunidades para a pecuária brasileira.
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