A competitividade da proteína animal brasileira deixou de depender apenas da produtividade no campo e da eficiência das indústrias. Em um ambiente marcado pela volatilidade dos insumos, pela transformação tecnológica e por eventos climáticos mais severos, o desempenho do setor também passa pela articulação entre os diferentes elos da cadeia, pelo aproveitamento eficiente dos recursos e pela capacidade de antecipar riscos.
Três análises publicadas na edição 232 da revista Feed&Food ajudam a dimensionar essa mudança. A evolução do Salão Internacional de Proteína Animal (SIAVS), os resultados econômicos da reciclagem animal e os possíveis efeitos do El Niño sobre a alimentação e a produção animal mostram que inovação, sustentabilidade e planejamento estão cada vez mais interligados.
SIAVS amplia papel estratégico
Em artigo assinado pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o SIAVS é apresentado como um evento que deixou de funcionar somente como feira de negócios e congresso técnico para se consolidar como plataforma de desenvolvimento setorial. O movimento acompanha a ampliação da própria cadeia, reunindo aves, suínos, ovos, bovinos, leite e pescados, além de fornecedores, agroindústrias, pesquisadores, entidades, autoridades e compradores internacionais.
A dimensão alcançada pelo encontro reforça essa avaliação. Realizado de 4 a 6 de agosto, no Distrito Anhembi, em São Paulo (SP), o SIAVS 2026 recebeu mais de 35 mil visitantes e reuniu mais de 400 expositores. A programação ocupou 45 mil metros quadrados e contou com participantes de mais de 60 países, segundo o balanço oficial do evento.
Essa integração reduz a distância entre pesquisa e aplicação prática. Tecnologias apresentadas por fornecedores podem chegar mais rapidamente às agroindústrias, enquanto discussões regulatórias aproximam o setor produtivo do poder público. Temas como inteligência artificial, automação, biosseguridade, bem-estar animal, segurança dos alimentos, transição energética, rastreabilidade e gestão de riscos passam a ser discutidos no mesmo ambiente em que negócios e parcerias são construídos.
Reciclagem transforma subprodutos em valor
Se a integração cria condições para a inovação, a reciclagem animal mostra como sustentabilidade e eficiência econômica podem avançar juntas. Segundo dados apresentados por Pedro Bittar, presidente do Conselho Diretivo da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (ABRA), a indústria brasileira processa anualmente cerca de 13,6 milhões de toneladas de subprodutos de origem animal e os transforma em aproximadamente 5,8 milhões de toneladas de farinhas e gorduras.
Além de evitar o desperdício, esse processo reinsere proteína, energia, aminoácidos e minerais, como cálcio e fósforo, na cadeia produtiva. Os ingredientes podem reduzir a dependência de matérias-primas sujeitas à volatilidade internacional e ampliar as alternativas disponíveis para a formulação das dietas.
Os efeitos também aparecem nos custos. De acordo com Bittar, a inclusão de 3% a 8% de farinhas e gorduras de origem animal nas rações de frangos de corte pode gerar economia de até 6%. Para poedeiras e suínos, inclusões entre 2,5% e 5% podem reduzir os custos em até 5%, sem comprometer o desempenho produtivo ou o valor nutricional das dietas.
Na aquicultura, a participação desses ingredientes pode variar de 5% a 50%, conforme a espécie e a formulação. No mercado pet, pode alcançar 40%, contribuindo para a palatabilidade dos alimentos. Os resultados dependem da composição da matéria-prima, do balanceamento nutricional e dos controles sanitários, de qualidade e rastreabilidade.
El Niño exige planejamento permanente
O terceiro eixo é a gestão climática. Em artigo publicado na mesma edição, Ariovaldo Zani, médico-veterinário e CEO do Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal (Sindirações), alerta que os efeitos do El Niño podem atravessar toda a cadeia: começam nas alterações de temperatura e de chuvas e alcançam a oferta e a qualidade dos insumos, o desempenho dos animais, a logística, o consumo de energia e os custos industriais.
O alerta ganhou urgência com as atualizações climáticas de agosto. O Climate Prediction Center, ligado à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), informou que o El Niño está se fortalecendo e estimou probabilidade superior a 90% de um evento muito forte no fim de 2026 e início de 2027. O Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/Inpe) também indica a manutenção do fenômeno pelo menos até o primeiro trimestre de 2027. A intensidade do evento, contudo, não determina automaticamente a dimensão dos impactos em cada região.
Chuvas irregulares podem alterar o calendário agrícola e reduzir a produtividade de milho, soja, sorgo, trigo e outras matérias-primas. O excesso de umidade pode atrasar a colheita, aumentar a necessidade de secagem e favorecer fungos e micotoxinas. Já a estiagem compromete a disponibilidade de água, as pastagens e o potencial produtivo das lavouras.
Na produção animal, o calor excessivo tende a reduzir o consumo de alimento por aves, suínos e bovinos leiteiros, com reflexos sobre ganho de peso, conversão alimentar, produção e reprodução. Na aquicultura, temperaturas mais altas e menor oxigênio dissolvido podem prejudicar o crescimento e a saúde dos peixes. Ao mesmo tempo, danos em rodovias, interrupções de acesso, alterações nos níveis dos rios e maior demanda energética podem pressionar o transporte e a fabricação de rações, suplementos e concentrados.
Diante desse cenário, Zani defende que a variabilidade climática seja incorporada ao planejamento permanente. Diversificação regional de fornecedores, antecipação das compras, contratos de médio e longo prazo, estoques de segurança, proteção contra oscilações de commodities e câmbio e maior flexibilidade nas formulações estão entre as estratégias apontadas.
Os três temas convergem para a mesma conclusão: a competitividade será construída cada vez mais fora dos limites de uma única propriedade ou indústria. Integração setorial, circularidade e gestão de riscos formam uma agenda comum para preservar produtividade, abastecimento e capacidade de resposta em uma cadeia exposta simultaneamente às mudanças do mercado, da tecnologia e do clima.
Leia na íntegra
Esta matéria reúne destaques de três conteúdos publicados na edição 232 da revista Feed&Food. Acesse as versões completas:



Nenhuma discussão ainda. Seja o primeiro a comentar.