O pescado, tradicional fonte de renda para comunidades pesqueiras, tem ampliado sua presença na alimentação escolar brasileira por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Um levantamento recente, realizado com 2.330 profissionais entre nutricionistas e merendeiras, mostra que o alimento já faz parte da rotina de muitas escolas, mas ainda enfrenta desafios para se consolidar nos cardápios.
A pesquisa, conduzida entre novembro de 2025 por órgãos federais ligados à educação e à pesca, analisou como o peixe chega às cozinhas escolares, sua aceitação pelos estudantes e os principais entraves para ampliar sua oferta em diferentes regiões do país.
Espaço para crescimento nos cardápios
Os dados indicam que ainda há margem significativa para expansão do pescado nas escolas públicas. Entre nutricionistas responsáveis técnicos, 64% afirmaram que o alimento ainda não é servido nas unidades sob sua gestão. Já entre merendeiras, esse percentual foi de 46%, evidenciando diferenças na percepção e possíveis lacunas na implementação.
O cenário reforça o potencial de crescimento da inclusão do pescado no PNAE, especialmente como estratégia para diversificar a alimentação e fortalecer cadeias produtivas locais.
Desafios vão além da oferta
Entre os principais obstáculos apontados, o cuidado com espinhas aparece como o fator mais citado pelas merendeiras, mencionado por 54% das entrevistadas. Para nutricionistas, o custo do produto e a presença de espinhas dividem a liderança, ambos com 50% das respostas.
Outros fatores também influenciam a inclusão do pescado, como a falta de hábito alimentar dos estudantes, a disponibilidade de fornecedores locais e a necessidade de equipamentos adequados para preparo nas cozinhas escolares.

Apoio técnico e estrutura ainda variam
O estudo também revelou diferenças na percepção sobre o suporte institucional. Enquanto 38% das merendeiras afirmaram receber apoio técnico suficiente, entre os nutricionistas esse índice foi de 24%, indicando desafios estruturais mais amplos na gestão do programa.
Essas diferenças refletem o papel distinto de cada profissional dentro da cadeia de alimentação escolar, desde o planejamento até a execução dos cardápios.
Tilápia lidera consumo nas escolas
Entre as espécies mais utilizadas, a tilápia se destaca como principal opção nos cardápios escolares, seguida por sardinha, atum e cação. O formato mais comum de preparo é o filé assado, considerado mais adequado para o ambiente escolar e para a aceitação dos estudantes.
Por outro lado, preparações alternativas, como hambúrgueres e almôndegas de peixe, ainda são pouco exploradas, o que aponta para a necessidade de capacitação e desenvolvimento de receitas adaptadas à realidade das escolas.
Diferenças regionais influenciam oferta
A presença do pescado varia significativamente entre as regiões do país. Estados da Região Norte, como Acre e Rondônia, apresentam maior frequência de oferta, impulsionada pela tradição ribeirinha e pela disponibilidade local.
Já estados sem litoral ou com menor tradição pesqueira, como Minas Gerais, registram menor participação do alimento nos cardápios escolares. Em regiões intermediárias, como São Paulo e Ceará, fatores logísticos e culturais influenciam a regularidade da oferta.
Integração entre políticas públicas e produção local
A ampliação do uso do pescado na alimentação escolar está alinhada a políticas públicas voltadas ao fortalecimento da pesca artesanal e à promoção da segurança alimentar. A integração entre produção local e compras públicas é vista como caminho para estimular a economia regional e melhorar a qualidade nutricional das refeições escolares.
Nesse contexto, o avanço do pescado no PNAE depende da superação de desafios logísticos, culturais e estruturais, além do fortalecimento da articulação entre produtores, gestores e equipes escolares.




