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Do queijo artesanal à assistência técnica: a trajetória de uma zootecnista no avanço das mulheres no campo

Mulheres já comandam 31% das decisões no agro brasileiro.

Ainda criança, Giovana Albuquerque acompanhava o avô na pequena produção de leite da família. Entre tachos, coalhadas e fios de muçarela recém-preparada, participava do processo artesanal que transformava o leite em queijo. O que na época fazia parte apenas da rotina familiar acabou definindo o caminho profissional que seguiria anos depois.

Hoje zootecnista, mestre em Ciência Animal pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e técnica do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), Giovana atua diretamente com produtores rurais e com o registro da raça Girolando base genética responsável por cerca de 80% de todo o leite produzido no Brasil.

A trajetória dela acompanha um movimento cada vez mais presente no agronegócio brasileiro: o crescimento da participação feminina no campo. Atualmente, 31% das decisões estratégicas dentro das propriedades rurais são tomadas por mulheres, que também respondem por 42,4% da renda gerada no meio rural, segundo estudos sobre o perfil da gestão no agro.

Em Mato Grosso do Sul, essa presença também é expressiva. As mulheres representam cerca de 47% da população rural do estado e vêm ocupando posições de liderança em diferentes áreas do setor. Um exemplo recente foi a nomeação de Mariana de Aragão Pereira como a primeira mulher a assumir a chefia-geral da Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande.

Para Giovana, a escolha pela Zootecnia surgiu de forma natural, resultado da convivência com o ambiente rural desde a infância.

Giovana Albuquerque: “Sou filha e neta de pecuaristas e cresci acompanhando a rotina da fazenda. O leite sempre teve um valor muito especial para mim”. Foto: Divulgação.

Ela lembra que o interesse pela atividade começou ainda na infância, ao lado do avô. “Meu avô, o Seu Jango, tinha uma pequena produção e fazia queijo e muçarela de forma artesanal. Eu ajudava a filar a massa, colocar na salmoura e provar o queijo recém-feito. Essas memórias criaram um carinho muito grande pela pecuária leiteira”, recorda.

Durante a graduação em Zootecnia, o interesse pelo setor se intensificou. Segundo ela, a chegada de uma professora que trouxe uma abordagem mais focada na pecuária leiteira despertou ainda mais seu envolvimento com a área.

“A partir daí desenvolvi meu trabalho de conclusão de curso e também meu estágio com o Núcleo Girolando de Mato Grosso do Sul. Foi quando me conectei definitivamente com a atividade”, afirma.

A força da raça Girolando

Resultado do cruzamento entre as raças Gir e Holandês, o Girolando reúne duas características consideradas essenciais para a pecuária leiteira em regiões tropicais: produtividade e adaptação ao clima.

Segundo Giovana, essa versatilidade genética explica o sucesso da raça em diferentes regiões do país.

“O Girolando permite trabalhar com diferentes graus de sangue, o que possibilita adaptar os animais a vários sistemas de produção. Dependendo do sistema, é possível trabalhar com animais mais adaptados ao calor ou com maior potencial produtivo”, explica.

Essa flexibilidade faz com que a raça esteja presente tanto em propriedades mais simples quanto em sistemas altamente tecnificados.

Além da produção de leite, o Girolando apresenta características importantes para a sustentabilidade da atividade. Entre elas estão boa fertilidade, facilidade de parto e maior resistência ao estresse térmico.

Outro ponto destacado pela zootecnista é a longevidade produtiva dos animais.

“Vacas que permanecem mais tempo no rebanho ajudam a reduzir os custos de reposição e aumentam a eficiência econômica da propriedade”, afirma.

Desafios e gestão na pecuária leiteira

Na rotina profissional, Giovana mantém contato direto com propriedades de diferentes perfis produtivos. O trabalho inclui assistência a pequenos, médios e grandes produtores da região, com foco na organização e melhoria da gestão da atividade leiteira.

“No dia a dia trabalhamos com nutrição do rebanho, escrituração zootécnica, planejamento de acasalamentos, controle leiteiro e análise de custos de produção”, explica.

Segundo ela, muitas vezes o principal desafio está na organização das informações dentro da propriedade.

“Precisamos organizar dados e mostrar quais pontos podem ser ajustados para melhorar a eficiência do sistema. Isso exige não apenas conhecimento técnico, mas também sensibilidade para entender a realidade de cada produtor”, afirma.

A atenção aos detalhes, característica essencial na pecuária leiteira, pode fazer grande diferença nos resultados da atividade. E, na visão da zootecnista, a participação feminina nesse processo tem se mostrado um diferencial dentro da gestão das propriedades.

“Controle de dados, observação dos animais e organização das informações fazem muita diferença no resultado da atividade. Muitas vezes percebemos que, quando a mulher do produtor participa da gestão das anotações e dos dados da propriedade, o controle do sistema melhora muito”, conclui.

Fonte: Genética Girolando, adaptado pela equipe Feed&Food.

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