A transição para uma agropecuária de baixo carbono não depende de uma única tecnologia. Robôs capazes de reconhecer plantas, sensores que acompanham lavouras, plataformas que orientam o uso de fertilizantes e sistemas que reúnem agricultura, pecuária e árvores começam a formar uma mesma rede de decisões mais precisas.
Essa convergência marcou o segundo dia do 11º Congresso Brasileiro de Agricultura de Precisão e Digital (ConBAP) e da 17ª International Conference on Precision Agriculture (ICPA), realizados no Centro de Eventos da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre. A edição também é histórica por ser a primeira vez que a conferência internacional ocorre fora da América do Norte.
Mais do que substituir atividades manuais, as pesquisas apresentadas indicam que a tecnologia pode contribuir para diminuir a exposição dos trabalhadores a produtos químicos, direcionar melhor os insumos e ampliar o conhecimento sobre as diferenças existentes dentro de uma mesma propriedade.

Robôs avançam, mas custo ainda limita adoção
Filho de agricultores do interior da China, Wen-Hao Su, pesquisador da Universidade Agrícola da China, apresentou estudos relacionados ao desenvolvimento de robôs agrícolas com movimentos, percepção e capacidade de decisão cada vez mais próximos dos humanos.
Ao recordar o trabalho manual realizado por sua família no controle de plantas daninhas, com contato direto com herbicidas e outros produtos, o pesquisador relacionou o avanço da robótica à melhoria das condições de trabalho no campo.
“Eu tenho um sonho: mudar a vida das pessoas da minha família e de todos que trabalham lá. Quero que as lavouras sejam as mais tecnológicas possíveis. É a minha jornada”, afirmou.
Entre as aplicações demonstradas estão drones e sistemas de visão computacional capazes de identificar o estágio de maturação de frutas, localizar problemas nas lavouras e auxiliar operações de manejo e colheita. A meta dos pesquisadores é desenvolver equipamentos capazes de integrar percepção, análise e execução. “Queremos desenvolver a capacidade de percepção, tomada de decisão e controle”, explicou Wen-Hao.
Na prática, a contribuição ambiental depende da qualidade das informações e da precisão das operações. Quando combinadas a sensores, inteligência artificial e dados georreferenciados, automação e robótica podem direcionar aplicações, reduzir desperdícios de insumos e melhorar o uso de água, fertilizantes e defensivos. A Embrapa aponta que a aplicação localizada e variável é uma das principais contribuições da agricultura de precisão para diminuir impactos ambientais e aumentar a eficiência econômica.
O alto custo dos equipamentos, entretanto, permanece como obstáculo. Para Wen-Hao, até mesmo tecnologias já disponíveis podem encarecer os sistemas produtivos. O desafio será transformar avanços de laboratório em soluções acessíveis a propriedades de diferentes portes, evitando que a modernização fique restrita aos produtores mais capitalizados.

Integração amplia produtividade e captura de carbono
A digitalização também pode fortalecer sistemas nos quais lavouras, animais e árvores ocupam a mesma área de maneira planejada. Alberto Carlos de Campos Bernardi, pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste, abordou o uso de dados para acompanhar a produtividade, medir emissões e gerenciar sistemas integrados de produção.
“O gado se alimenta no pasto, enquanto as árvores dão sombra e madeira, e o solo absorve mais nutrientes”, exemplificou.
A combinação permite diversificar a produção, melhorar o aproveitamento da área, oferecer conforto térmico aos animais e aumentar a presença de matéria orgânica no solo. Contudo, esses resultados dependem do planejamento do sistema, da escolha das espécies e do acompanhamento de indicadores agronômicos, ambientais e econômicos.
Os sistemas de integração são reconhecidos pelo Plano ABC+ como práticas voltadas à mitigação de emissões e à adaptação da agropecuária às mudanças climáticas. De acordo com o Ministério da Agricultura e Pecuária, a integração lavoura-pecuária-floresta pode elevar a produtividade por meio da intensificação sustentável e ampliar a resiliência sem exigir a abertura de novas áreas.
Nesse contexto, ferramentas digitais não substituem o conhecimento agronômico. Elas ajudam a transformar medições de solo, clima, plantas e animais em decisões sobre correção, adubação, manejo das pastagens e momento de entrada ou retirada dos rebanhos.

Dados buscam tornar fertilização mais eficiente
O uso racional de fertilizantes foi outro eixo do congresso. Luciano Gatiboni, professor da Universidade Estadual da Carolina do Norte, apresentou a Fertilizer Recommendation Support Tool (FRST), plataforma desenvolvida para reunir resultados de experimentos conduzidos em diferentes regiões dos Estados Unidos.
A iniciativa busca reduzir divergências entre recomendações e oferecer critérios mais transparentes para a interpretação das análises de solo. A ferramenta permite filtrar informações por cultura, região, tipo de solo e método de análise, apoiando decisões relacionadas principalmente ao fósforo e ao potássio. O objetivo é melhorar o retorno dos investimentos e reduzir perdas excessivas de nutrientes para o ambiente.
A experiência mostra que armazenar grandes volumes de dados não é suficiente. É necessário padronizar informações, conhecer as limitações dos estudos e garantir que a recomendação considere as condições específicas de cada área.
Solo não pode permanecer como “caixa-preta”
Raul Roberto Poppiel, professor do Departamento de Ciência do Solo da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), chamou atenção para a distância entre o volume de informações disponível e seu aproveitamento nas propriedades.
O Brasil reúne bibliotecas espectrais, perfis de solo, mapas, imagens de satélite e modelos de aprendizado de máquina. Mesmo assim, grande parte das decisões ainda parte de amostragens em grades fixas e recomendações uniformes para áreas que podem apresentar diferenças relevantes.
“Grande parte das informações disponíveis deixa de ser utilizada, e o solo ainda é tratado como uma ‘caixa-preta’, sem considerar adequadamente as diferenças existentes ao longo do perfil”, observou.
Para Poppiel, a sustentabilidade começa antes da análise laboratorial: depende da definição do objetivo da coleta e de um plano de amostragem coerente com a decisão que será tomada. “A amostra de solo mais cara é aquela coletada sem um propósito ou planejamento claro”, alertou.
A pedometria, área dedicada à medição, caracterização e representação quantitativa dos solos, pode ajudar a preencher essa lacuna ao integrar sensores de campo, análises laboratoriais, dados geoespaciais, imagens de satélite, modelos estatísticos e redes neurais.
A mensagem deixada pelos debates é que o agro de baixo carbono não será construído apenas com equipamentos mais modernos. O avanço dependerá da integração entre ciência, tecnologia e manejo: robôs precisam de dados confiáveis; recomendações de fertilizantes precisam conhecer o solo; e sistemas integrados exigem acompanhamento contínuo.
Quando essas peças atuam juntas, a digitalização deixa de ser apenas uma vitrine de inovação e passa a contribuir para produzir com maior eficiência, reduzir desperdícios e aumentar a capacidade de adaptação diante das mudanças climáticas.




