Celebrado nesta quarta-feira, 15 de julho, o Dia Nacional do Pecuarista reconhece o trabalho dos produtores responsáveis por conduzir uma atividade marcada pela necessidade permanente de adaptação. Instituída pela Lei nº 11.716/2008, a data destaca a contribuição da pecuária para a produção de alimentos, a geração de renda e o desenvolvimento do país.
Nesta matéria especial, a Feed&Food aborda a comemoração a partir das transformações vividas pela bovinocultura de corte. Nas últimas décadas, a incorporação de tecnologias, conhecimento técnico, gestão e novas práticas de manejo mudou a rotina nas propriedades e ampliou a capacidade produtiva da atividade.
Os resultados ajudam a dimensionar essa evolução. Em 2025, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou o abate de 42,94 milhões de bovinos, alta de 8,2% e maior resultado da série histórica. No mesmo ano, as exportações brasileiras de carne bovina alcançaram o recorde de 3,5 milhões de toneladas, com receita de US$ 18,03 bilhões e presença em mais de 170 mercados.
Para Michelle Borges, gerente executiva da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável, os avanços refletem uma mudança ampla na forma de produzir.
“A pecuária brasileira passou por uma transformação significativa nas últimas décadas. O setor tem incorporado cada vez mais tecnologia, gestão, inovação e conhecimento técnico, permitindo produzir mais com maior eficiência e menor impacto”, afirma.
Segundo ela, essa evolução também envolve melhorias em genética, nutrição, sanidade, manejo, recuperação de pastagens, bem-estar animal, integração entre atividades, monitoramento e rastreabilidade.
Luciano da Silva Cabral, presidente da Sociedade Brasileira de Zootecnia (SBZ) e professor da Faculdade de Agronomia e Zootecnia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), atribui os ganhos de eficiência à adoção de soluções desenvolvidas e adaptadas às condições tropicais. As instituições confirmam sua atuação na presidência da entidade e no corpo docente da universidade.
“Isso se deve à adoção de tecnologias pelos produtores, condição necessária para que a pecuária de corte consiga se manter lucrativa e competitiva”, destaca Cabral.
Tecnologia transforma a rotina nas propriedades
O avanço tecnológico não se restringe a equipamentos sofisticados ou ferramentas digitais. Ele também aparece no planejamento dos manejos, na capacitação das equipes, no acompanhamento dos indicadores produtivos e nas decisões tomadas diariamente dentro das fazendas.
“A tecnologia tem transformado a pecuária em diferentes níveis. Ela está presente tanto em soluções digitais, como softwares de gestão, identificação individual dos animais, monitoramento e ferramentas de apoio à tomada de decisão, quanto na adoção de práticas que aprimoram o manejo no dia a dia da propriedade, promovendo bem-estar animal e consequentemente a melhora na produção”, explica Michelle.
A gerente executiva observa que medidas aparentemente simples podem gerar impactos relevantes, como melhorar a nutrição e a sanidade, investir em instalações adequadas, planejar as operações e acompanhar os resultados produtivos.

“Quando conhecimento, gestão e inovação caminham juntos, o produtor consegue tomar decisões mais assertivas, aumentar a produtividade, fortalecer a resiliência da propriedade e atender às crescentes demandas por transparência, qualidade e sustentabilidade”, ressalta. Na avaliação de Cabral, a pesquisa pública teve papel decisivo na transformação da atividade.
“O avanço em produção e produtividade da pecuária de corte nacional foi possível graças ao extraordinário trabalho das universidades públicas (federais e estaduais) e da EMBRAPA, na adaptação/geração de tecnologias, desenvolvidas e avaliadas nas pesquisas, na área de melhoramento genético, sanidade, reprodução, manejo e nutrição, que quando adotadas pelos pecuaristas, impulsionaram a pecuária nacional”, afirma.
Entre os avanços citados pelo professor estão novas cultivares e híbridos de gramíneas tropicais, estratégias de manejo do pasto, suplementação nas fases de cria, recria e engorda e utilização de aditivos voltados à eficiência nutricional.
Assistência técnica ainda não chega a todos
Embora a modernização tenha avançado, o acesso às tecnologias permanece desigual. Pequenos e médios produtores, especialmente os menos capitalizados, ainda enfrentam dificuldades para contratar assistência técnica, obter crédito e incorporar novas soluções.
“Embora as tecnologias disponíveis ainda não tenham chegado a todos os pecuaristas, especialmente os pequenos e pouco capitalizados, a sua adoção é inquestionável para que ocorra a intensificação de forma sustentável”, avalia Cabral. O professor considera a assistência técnica um dos principais gargalos para a continuidade do processo de intensificação.
“Considerando que a evolução/intensificação da pecuária de corte depende do uso de tecnologias, deve ser salientado que ainda há milhares de pecuaristas que não têm tido acesso à assistência técnica, seja ela oferecida pelo estado ou contratada, o que é um tema de grande preocupação, especialmente no que se refere à questão de sustentabilidade”, afirma.
Michelle também inclui entre os desafios as mudanças climáticas, as oscilações de mercado e a adaptação às novas exigências de sustentabilidade, rastreabilidade e transparência.
“Isso significa criar condições para que sistemas produtivos sejam capazes de enfrentar eventos climáticos, oscilações de mercado e novas exigências regulatórias, mantendo sua competitividade ao longo do tempo”, explica.
Para ela, a evolução da atividade depende da construção conjunta entre produtores, empresas, indústria, academia, organizações da sociedade civil, instituições financeiras e poder público. Essa articulação deve buscar soluções tecnicamente aplicáveis, economicamente viáveis e acessíveis a diferentes perfis de produtores.
Produzir mais com eficiência e responsabilidade
O aumento da produtividade sustentável passa pelo melhor aproveitamento das áreas já ocupadas, pela recuperação de pastagens, pelo manejo adequado e pela redução do tempo necessário para produzir cada animal.
Segundo Michelle, recuperação de pastagens, melhoria da nutrição e da sanidade, bem-estar animal, integração agropecuária, gestão e capacitação estão entre os instrumentos capazes de elevar a eficiência.

“O desafio não é apenas produzir mais, mas escalar boas práticas, tornando soluções sustentáveis acessíveis a produtores de diferentes perfis e regiões”, afirma.
Cabral destaca que o manejo das pastagens, os sistemas integrados e a formulação de dietas mais eficientes podem contribuir para aumentar a produção e reduzir as emissões por unidade de carne produzida.
“A maior produção de carne em menor área, de forma mais eficiente e competitiva, faz com que haja menor demanda por novas áreas, desta forma, a intensificação da pecuária de corte brasileira tem sido citada por apresentar um efeito ‘poupa terra’”, explica. O professor também aponta a redução do ciclo de produção como uma das consequências da intensificação.
“Mais recentemente, a adoção da recria intensiva a pasto (RIP), da terminação intensiva a pasto (TIP), do novo semi-confinamento e do confinamento são estratégias de recria/engorda que reduzem o tempo de abate, reduzindo com isso a emissão de metano”, afirma.
Para Michelle, a sustentabilidade precisa ser compreendida como um processo permanente de aprimoramento, e não como uma condição alcançada de forma definitiva.
“Para a Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável, a sustentabilidade não deve ser vista como um destino, mas como um processo contínuo de evolução da pecuária brasileira, construído por meio da colaboração entre produtores, indústria, empresas, instituições financeiras, academia, organizações da sociedade civil e poder público”, reforça.
Atividade gera renda dentro e fora das fazendas
A importância da pecuária não se encerra na porteira. A cadeia movimenta cooperativas, frigoríficos, transportadoras, empresas de nutrição e saúde animal, comércio, pesquisa, tecnologia, serviços e instituições financeiras.
“A pecuária é uma atividade estratégica para o Brasil. Responsável por uma parcela significativa do PIB nacional e pela geração de milhões de empregos diretos e indiretos, ela contribui para a segurança alimentar, o abastecimento dos mercados interno e internacional e o desenvolvimento de milhares de municípios brasileiros”, afirma Michelle.
Segundo ela, o fortalecimento da sustentabilidade também pode ampliar o acesso a mercados, estimular a inovação e aumentar a competitividade da cadeia no longo prazo.
“Seu impacto vai muito além da produção dentro da fazenda, gerando emprego, renda e desenvolvimento em milhares de municípios brasileiros”, completa.
Mais do que uma homenagem, o Dia Nacional do Pecuarista evidencia o papel dos produtores na transformação da bovinocultura brasileira. Diante de eventos climáticos mais frequentes, custos elevados, novas exigências comerciais e necessidade de produzir com eficiência, a capacidade de adotar tecnologias, aprimorar a gestão e incorporar boas práticas continuará determinante para o futuro da atividade.




