Nas primeiras 72 horas de vida, o leitão não enfrenta apenas limitações físicas. Ele ainda está aprendendo a interpretar os sinais emitidos pela própria mãe. Antes de se deitar ou mudar de posição, a matriz pode vocalizar; diante de uma situação de perigo, o leitão também emite chamados. Quando essa comunicação não funciona adequadamente, o risco de esmagamento aumenta.
Por isso, tratar a ocorrência simplesmente como uma falha da porca deixa de fora parte importante do problema. Instalação, tamanho da leitegada, condição física e emocional da matriz, ambiente, comportamento dos leitões e capacidade de intervenção da equipe também entram nessa equação.
“É importante ressaltar que o esmagamento não é unicamente uma falha da matriz”, afirma Lais Silva Mariscal Baba, zootecnista, especialista em Agronegócios e doutoranda no Programa de Epidemiologia e Bem-Estar Único da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ/USP).
Lais também é uma das autoras do manual “Alojamento de Suínos em fase de Maternidade”, publicado pela USP em maio de 2026, que aborda aspectos de alojamento, comportamento e bem-estar de matrizes e leitões.
RISCO É MAIOR NAS PRIMEIRAS 72 HORAS
Grande parte das situações de risco ocorre quando a matriz se levanta, deita ou altera sua posição e o leitão permanece próximo ao seu corpo. Nos primeiros dias, escapar rapidamente ainda é um desafio.
“O período de maior vulnerabilidade é dentro de 72 horas após o parto, quando os leitões vão aprimorando a capacidade de entender e reagir às vocalizações maternas, além de ficarem mais fortes fisicamente”, explica Lais.
Segundo a pesquisadora, quanto mais próximo do nascimento, menos consolidada está a conexão entre a matriz e sua leitegada. Ao longo dos primeiros dias, os animais começam a estabelecer padrões de comunicação e os leitões ganham vigor e capacidade de resposta.
A condição da porca também interfere. Partos longos e dolorosos, dor persistente e estresse podem dificultar a expressão do comportamento materno. Claudicação, por exemplo, além de comprometer o bem-estar, pode modificar a maneira como a matriz se movimenta e aumentar a ocorrência de movimentos bruscos.
O histórico do animal é outra informação útil. De acordo com Lais, matrizes com episódios anteriores de esmagamento merecem acompanhamento mais próximo, assim como fêmeas de elevada paridade.
O tamanho da leitegada acrescenta outra camada ao problema. Leitegadas numerosas tendem a apresentar maior proporção de leitões menores e menos vigorosos, que podem buscar mais contato corporal com a matriz para obter calor e permanecer, consequentemente, em uma zona de maior risco.
“Apesar de a hiperprolificidade ser muitas vezes incentivada, partos muito numerosos são um dos principais preditores de mortalidade na maternidade”, pontua.
Para a pesquisadora, a discussão produtiva precisa ir além do número de nascidos. “Encontrar um ponto de equilíbrio produtivo, com animais com maior viabilidade, partos mais favoráveis e menores índices de mortalidade é indispensável.”
VOCALIZAÇÕES FUNCIONAM COMO SINAIS DE ALERTA
A maternidade também precisa ser ouvida. A comunicação sonora exerce papel importante na relação entre a porca e seus leitões, principalmente nos primeiros dias.

“Os suínos têm um sistema de comunicação vocal muito eficiente. Em um cenário ideal, a fêmea vocaliza antes de mudar sua postura e atende aos pedidos de socorro de sua leitegada”, explica Lais.
O leitão, por sua vez, precisa reconhecer o sinal e reagir. Em uma situação de esmagamento, suas vocalizações também podem desencadear uma reação materna para liberar o animal.
Essa interação ajuda a explicar por que o ambiente acústico merece atenção. Barulho constante, equipamentos ruidosos ou outros sons capazes de mascarar os chamados podem dificultar essa troca.
“Embora a ciência ainda esteja aprofundando o entendimento sobre o impacto exato do ambiente acústico na maternidade, do ponto de vista prático, o fundamental é garantir, na medida do possível, um ambiente tranquilo, sem muita poluição sonora ou ruídos que mascarem esses sinais de comunicação”, afirma.
Até a música utilizada nas instalações precisa de critério. Embora possa ser empregada como forma de enriquecimento ambiental, volume, tipo de som e tempo de exposição devem ser considerados.
“A música pode com muita facilidade se tornar um importante estressor quando não prestamos atenção no volume, tipo e quantidade de horas ao dia”, alerta Lais. “Vale lembrar que o suíno, em seu comportamento natural, busca isolamento e tranquilidade para o momento do parto e pós-parto imediato.”
TECNOLOGIA PODE AJUDAR A OUVIR A MATERNIDADE
A mesma vocalização que pode alertar a matriz começa a ser explorada como fonte de informação para sistemas de produção. Ferramentas de zootecnia de precisão, sensores bioacústicos e modelos de inteligência artificial têm potencial para reconhecer padrões sonoros associados a situações de estresse. A ideia é que, no futuro, esses recursos auxiliem na detecção rápida de ocorrências e direcionem a atenção da equipe para animais que precisam de intervenção.
“Hoje temos a possibilidade de utilizar a tecnologia como aliada, com ferramentas de zootecnia de precisão, como sensores bioacústicos e inteligência artificial treinada para reconhecer frequências de som associadas a um estressor agudo”, explica a pesquisadora.
A tecnologia, entretanto, deve ser entendida como complemento. A observação dos animais e a capacidade de resposta das pessoas continuam centrais no manejo da maternidade. “Apesar de não eliminar ainda o componente humano, a zootecnia de precisão pode auxiliar na sua otimização”, acrescenta.
MAIS LIBERDADE EXIGE MANEJO E INSTALAÇÃO ADEQUADOS
A prevenção do esmagamento historicamente esteve entre as justificativas para a adoção das celas de parição. Ao restringir a movimentação da matriz e criar espaços de proteção para a leitegada, o sistema busca diminuir situações em que a porca se deita sobre os leitões.
A restrição, entretanto, limita a possibilidade de a fêmea se virar e expressar comportamentos naturais. É justamente nesse ponto que surge um dos principais debates da maternidade moderna: como proteger o leitão sem comprometer o bem-estar da matriz?
“Implementar o bem-estar animal não precisa acarretar perda produtiva”, defende Lais. “Quando implementado de forma técnica, o bem-estar positivo amplia a eficiência produtiva, afinal, animais livres de estresse crônico expressam melhor o seu potencial biológico.”
A literatura científica mostra que não existe uma resposta baseada apenas em “prender” ou “soltar” a matriz. Os resultados também dependem do desenho das baias, área disponível, proteção oferecida aos leitões, genética, tamanho da leitegada, experiência das fêmeas e qualidade do manejo.

Sistemas totalmente livres oferecem maior possibilidade de movimentação e expressão comportamental, mas aumentam a importância do projeto da instalação e da supervisão. Já as gaiolas convencionais oferecem maior controle sobre os movimentos da porca, ao custo de maior restrição comportamental.
Entre as alternativas estão os sistemas de confinamento temporário. Neles, a movimentação é limitada durante um período considerado crítico e posteriormente o equipamento é aberto, permitindo que a matriz tenha maior liberdade durante o restante da lactação.
“Este tipo de sistema é intermediário entre o bem-estar e a prevenção ao esmagamento, porém tem um custo de instalação que deve ser considerado, além de um estudo sobre as adaptações de manejo necessárias”, explica Lais.
A mudança de sistema, portanto, não se resume à troca de equipamento. “Qualquer alteração de sistema de alojamento deve ser acompanhada de perto, principalmente durante o período de transição. A equipe deve estar apta a atender às demandas de cada sistema.”
O BÁSICO QUE REDUZ PERDAS
Nem toda redução do esmagamento depende de construir uma nova maternidade. Nas primeiras horas, secar os leitões, assegurar acesso ao colostro e oferecer conforto térmico ajudam a preservar o vigor neonatal. Um leitão debilitado ou submetido ao frio tende a apresentar menor capacidade de reação e pode buscar mais contato com a matriz.
O escamoteador e outras fontes de aquecimento exercem, assim, dupla função: ajudam a atender às necessidades térmicas dos recém-nascidos e favorecem sua permanência em uma área protegida, afastada da zona de movimentação da porca.
A supervisão também pode ser direcionada conforme o risco. Fêmeas com partos difíceis, elevada paridade, problemas locomotores ou histórico de esmagamentos e leitegadas muito numerosas devem receber atenção diferenciada.
“Pensando em práticas para mitigação de risco de esmagamento, o ideal é dispor de uma equipe treinada e apta a identificar e intervir rapidamente”, afirma Lais.
Procedimentos capazes de provocar dor também merecem planejamento. Na avaliação da pesquisadora, quando tecnicamente possível e respeitando os protocolos veterinários e sanitários, intervenções invasivas devem evitar justamente o período de maior vulnerabilidade da leitegada, porque dor e sensibilidade podem interferir na mamada e no comportamento dos leitões.
No caso específico dos dentes, a Instrução Normativa nº 113 do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) estabelece que o desbaste não deve ser uma prática rotineira: é permitido quando houver lesão grave no aparelho mamário da matriz ou na face dos leitões, e o corte dos dentes é proibido.
TRANSIÇÃO PRECISA SER PLANEJADA
No Brasil, a IN nº 113/2020 estabelece boas práticas de manejo e bem-estar para granjas comerciais de suínos. A norma determina a transição para alojamento coletivo das fêmeas durante a gestação, com prazos de adequação, mas ainda tolera o uso de gaiolas na maternidade, desde que sejam atendidas as exigências previstas para o conforto dos animais.
Isso significa que a discussão sobre alternativas para a maternidade não deve ser apresentada como uma proibição já determinada pela legislação brasileira. Ela faz parte de um movimento mais amplo que envolve pesquisa, bem-estar animal, protocolos produtivos e exigências de diferentes mercados.
Para Lais, entretanto, o produtor deve acompanhar essa transformação e evitar mudanças feitas às pressas. “O produtor que se antecipar, testando adaptações progressivas no seu sistema, garantirá uma transição estruturada, sustentável e muito menos onerosa”, avalia.
Enquanto mudanças estruturais não chegam, há espaço para melhorar resultados olhando para aquilo que já está dentro da granja: saúde da matriz, temperatura, leitegada, ruído, qualidade do parto, treinamento e presença da equipe. “O mais importante não são alterações drásticas de manejo e instalação, e sim um refinamento das práticas já reconhecidas, o clássico do ‘básico que funciona’”, resume Lais.
Na maternidade, esse básico ganha peso sobretudo nas primeiras 72 horas. Quanto melhor a equipe conhece a matriz, a leitegada e os sinais que os animais trocam entre si, maior a possibilidade de agir antes que uma situação de risco termine em perda.



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