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Exportações de carne suína crescem, mas oferta precisa acompanhar demanda, diz Luiz Rua

Em reunião da APCS, especialista destaca diversificação dos destinos, sanidade e agregação de valor como caminhos para sustentar o avanço da suinocultura brasileira

O Brasil caminha para mais um ano de crescimento nas exportações de carne suína, mas o avanço do mercado internacional não elimina a necessidade de equilibrar produção e demanda. O alerta foi feito por Luiz Rua, ex-secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), durante reunião da Associação Paulista de Criadores de Suínos (APCS), realizada nesta quinta-feira (17).

Entre janeiro e agosto, o País exportou 1,057 milhão de toneladas de carne suína, alta de 8,9% sobre o mesmo período de 2025, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). No ano passado, a produção brasileira chegou a 5,592 milhões de toneladas, enquanto os embarques somaram 1,510 milhão. Os números mostram o peso crescente das vendas externas, mas também deixam claro que a maior parte da produção continua destinada ao mercado doméstico.

Exportação não significa demanda infinita

Rua destacou que a expansão internacional não deve ser interpretada como garantia para aumentos contínuos da produção. Depois de apresentar a evolução das exportações brasileiras, o especialista advertiu que isso não significa “mercado infinito” nem que “a gente pode produzir porco infinito”. Para ele, o atual momento da cadeia reforça uma regra básica: oferta e demanda precisam caminhar juntas.

O mercado interno, portanto, continua decisivo. Em 2025, o consumo de carne suína chegou a 19,1 quilos por habitante, segundo a ABPA. Para Rua, o crescimento das exportações deve funcionar como uma frente adicional de escoamento e geração de valor, não como justificativa para uma expansão desconectada da capacidade de consumo. Ao falar diretamente aos produtores, ele também lembrou que decisões tomadas hoje repercutem mais adiante: “Oferta e demanda andam juntas” e “o que a gente está plantando hoje, daqui a dois anos, colhe”, afirmou ao tratar do ciclo da atividade.

Mais destinos reduzem dependência

Ao mesmo tempo, Rua avalia que a diversificação dos compradores tornou a posição brasileira mais sólida. A carne suína nacional já passou por períodos de forte concentração das vendas na Rússia e, posteriormente, na China. Hoje, as Filipinas lideram os embarques, mas dividem espaço com uma base maior de destinos. Em agosto, por exemplo, Japão, China, Vietnã, Chile e Singapura também figuraram entre os principais compradores.

Segundo Rua, mais de 30 mercados foram abertos para a carne suína brasileira nos últimos cinco anos, além de ampliações de acesso e habilitações em destinos já atendidos. O especialista, porém, ressalta que uma negociação sanitária concluída não se transforma automaticamente em venda. “A exportação não é um processo simples. A gente às vezes romantiza a exportação, mas ela não é simples”, afirma. Depois da abertura, ainda há etapas como habilitação, registro de produtos e embalagens, estrutura comercial e construção de relacionamento com compradores.

É um processo que exige presença contínua. “É tentativa e erro, nem sempre dá certo, mas no médio e longo prazo, como eu digo, tende a dar certo”, diz Rua. Na visão do especialista, empresas interessadas no mercado externo precisam ocupar feiras, eventos e canais comerciais para transformar o acesso sanitário em fluxo efetivo de negócios.

Brasil exportou 1,057 milhão de toneladas de carne suína entre janeiro e agosto de 2026, alta de 8,9% no período. Crédito: Reprodução.

Sanidade é o ‘visto’ para exportar

Todo esse avanço, entretanto, depende da manutenção do status sanitário brasileiro. Rua tratou a biosseguridade como uma condição para preservar mercados construídos ao longo de anos. “Sanidade não é passaporte, sanidade é visto”, resume.

Durante o debate com os produtores, ele reforçou o tamanho do risco. “Para abrir um mercado, às vezes a gente leva 10, 15, 20 anos. Para fechar, é um dia.” O especialista lembrou que uma ocorrência sanitária pode provocar suspensões imediatas de compradores e exigir meses de negociação para recuperar acessos. Por isso, medidas de biosseguridade dentro e fora das granjas não aparecem apenas como questão produtiva, mas também como parte da estratégia comercial da carne suína brasileira.

Novas frentes exigem adequação

Entre as próximas frentes de expansão, Rua cita Reino Unido e União Europeia, além de mercados asiáticos como Japão e Coreia do Sul. No caso europeu, o acesso exige adequações específicas da cadeia, inclusive controles relacionados à ractopamina. O acordo entre Mercosul e União Europeia prevê para a carne suína uma cota de 25 mil toneladas, com tarifa intracota de € 83 por tonelada e crescimento gradual do volume, mas o aproveitamento comercial depende também do atendimento às exigências sanitárias do bloco.

Na Ásia, o Japão já ocupa posição relevante entre os destinos da carne suína brasileira, enquanto o País busca ampliar o acesso à Coreia do Sul. Em fevereiro, o Mapa informou avanços nas negociações sanitárias relacionadas à carne suína com os sul-coreanos. Para Rua, o caminho não passa apenas por abrir novos destinos, mas por consolidar os mercados já conquistados e ampliar o número de empresas e regiões capazes de atendê-los.

São Paulo e o desafio de agregar valor

A discussão ganha um peso particular para São Paulo, onde, segundo Rua, grande parte da produção suína está voltada ao consumidor doméstico. Nesse mercado, o especialista vê espaço para crescer menos pela simples colocação de volume e mais pela agregação de valor. Cortes específicos, porções menores, conveniência, apresentação do produto, rastreabilidade e comunicação sobre atributos de saudabilidade estão entre os caminhos apontados.

“A pessoa não quer mais só comprar uma carne”, afirma. Para Rua, o setor avançou na forma de apresentar a proteína suína, mas ainda pode comunicar melhor os atributos do produto e explorar os diferentes cortes. O desafio é fazer com que o crescimento do consumo gere valor para toda a cadeia, em vez de depender apenas de maior oferta ou de preços menores.

A leitura apresentada na APCS coloca exportação e mercado interno como partes de uma mesma estratégia. Novos compradores aumentam as possibilidades de escoamento e reduzem a dependência de destinos individuais; a sanidade mantém essas portas abertas; e a agregação de valor amplia as oportunidades dentro do País. Mas, para Rua, nenhum desses movimentos elimina a necessidade de planejamento. Em uma cadeia que já produz e exporta em volumes históricos, o próximo avanço passa também por decidir quanto produzir, para quem vender e como capturar mais valor em cada mercado.

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