Uma entrada sem o fluxo sanitário completo, um equipamento compartilhado sem higienização, um veículo que atravessa uma barreira sem o procedimento previsto ou uma carcaça retirada de forma inadequada. Na avicultura, o problema pode começar em pequenas exceções que, quando repetidas, deixam de ser exceções e passam a integrar a rotina. Para especialistas ouvidos pela Feed&Food, o desafio da biosseguridade está justamente em impedir que protocolos existentes percam eficiência na execução diária.
A dimensão da cadeia ajuda a mostrar por que essas barreiras ultrapassam os limites de uma única propriedade. Em 2025, o Brasil produziu 15,289 milhões de toneladas de carne de frango e exportou 5,324 milhões de toneladas para 153 países, com 34,82% da produção destinada ao mercado externo. Entre janeiro e agosto de 2026, os embarques já alcançaram 3,921 milhões de toneladas, crescimento de 15,5% sobre igual período do ano anterior, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
Quando pequenas exceções viram rotina
Ariel Antonio Mendes, diretor-presidente da Fundação de Apoio à Ciência e Tecnologia Animal (FACTA), aponta que falhas aparentemente simples estão entre as principais brechas observadas na rotina das propriedades. A entidade atua na difusão de conhecimento técnico e científico aplicado à avicultura.
“Muitas vezes, as falhas acontecem justamente em procedimentos considerados simples. Podemos citar a entrada e a circulação de pessoas, veículos e equipamentos sem a correta higienização e desinfecção; o controle inadequado de roedores, insetos e aves silvestres; problemas relacionados à qualidade da água; e falhas na retirada e na destinação das aves mortas”, afirma Mendes.
Na avaliação do diretor-presidente, esses pontos não devem ser tratados isoladamente. Pessoas, veículos e equipamentos podem funcionar como vias de entrada e disseminação de agentes infecciosos, enquanto água, pragas, animais silvestres e manejo da mortalidade exigem acompanhamento constante. Os pontos críticos também variam conforme as características de cada propriedade e precisam ser identificados pelo produtor em conjunto com a equipe técnica.
“Em biosseguridade, é muito mais eficiente impedir que o agente entre na granja do que tentar controlar as consequências depois que ele já está presente”, destaca. Por isso, segundo Mendes, protocolos de acesso, higienização, desinfecção, qualidade da água, controle de pragas, manejo das aves mortas e monitoramento sanitário precisam funcionar como barreiras permanentes, e não apenas em períodos de maior alerta sanitário.

Protocolo precisa produzir resultado
A existência de regras, porém, não comprova que a propriedade esteja protegida. Mendes defende auditorias, acompanhamento de indicadores zootécnicos e sanitários, análises de água, monitoramento microbiológico e avaliações periódicas dos procedimentos para identificar desvios antes que eles se transformem em perdas produtivas ou sanitárias.
“Não basta ter um checklist preenchido. É preciso verificar se os procedimentos estão sendo realmente executados da maneira correta e, principalmente, se estão produzindo os resultados esperados”, afirma. Para ele, transformar a rotina em informação mensurável permite localizar vulnerabilidades e direcionar a tomada de decisão com maior rapidez.
Essa lógica também muda o papel da assistência técnica junto aos integrados. “A biosseguridade precisa ser encarada como uma responsabilidade compartilhada entre produtor, colaboradores, equipe técnica e agroindústria”, diz Mendes. Segundo ele, pequenas falhas repetidas podem aparecer no aumento da mortalidade, piora dos índices zootécnicos, maior necessidade de intervenções sanitárias e elevação dos custos de produção; em situações mais graves, também podem comprometer a continuidade da atividade e o acesso a mercados.
A orientação, portanto, não deve se limitar à cobrança de procedimentos. O técnico precisa explicar por que determinada barreira existe e qual risco ela pretende controlar, de forma que produtores e colaboradores incorporem as medidas à rotina. “Mais do que um conjunto de regras, biosseguridade é uma cultura. E essa cultura precisa estar presente em todos os níveis da cadeia produtiva, desde as decisões estratégicas até o procedimento mais simples realizado diariamente dentro da granja”, ressalta Mendes.
Consistência separa o protocolo do sistema
Mariane Pfeifer, diretora técnica da Agrifirm, também identifica a execução cotidiana como ponto decisivo. Para ela, o problema frequentemente não está na inexistência dos procedimentos, mas na flexibilização gradual de barreiras que já haviam sido estabelecidas.

“Na prática, o maior desafio da biosseguridade não está necessariamente na ausência de protocolos, mas na perda de consistência na execução. Muitas granjas possuem procedimentos bem definidos, porém pequenas flexibilizações vão sendo incorporadas à rotina: uma entrada sem o fluxo sanitário completo, um equipamento compartilhado sem higienização adequada, falhas no controle de veículos, ou pontos de acesso que deixam de ser monitorados”, explica.
O risco se torna maior quando essas exceções passam a se repetir. “O problema é que, em biosseguridade, o risco é cumulativo. Uma pequena falha isolada pode parecer pouco relevante, mas, quando se torna recorrente, aumenta significativamente as oportunidades de introdução e disseminação de agentes infecciosos”, afirma Mariane.
Entre os pontos que exigem maior atenção, a diretora técnica destaca tudo o que circula entre ambientes — pessoas, veículos, equipamentos e materiais. A água também ocupa posição crítica por ser consumida continuamente por todo o lote, enquanto o manejo da mortalidade precisa seguir um fluxo definido para evitar que carcaças permaneçam desnecessariamente no ambiente produtivo ou que sua retirada abra novas possibilidades de contaminação.
“Por isso, gosto de reforçar que biosseguridade não é um procedimento isolado; é uma cadeia de barreiras. E a eficiência do sistema é determinada também pelos seus pontos mais frágeis”, afirma.
Indicadores revelam quando a barreira perde eficiência
Mariane diferencia a existência formal de procedimentos da capacidade de demonstrar que eles realmente funcionam. “Existe uma diferença importante entre ter um protocolo de biosseguridade e ter um sistema de biosseguridade funcionando”, destaca.
Na prática, isso começa pela definição das zonas de risco e dos fluxos da propriedade: quem entra, por onde entra, como ocorre o acesso e o que pode atravessar as barreiras sanitárias. Controle de acesso, troca de roupas e calçados, higienização de mãos, veículos, equipamentos e materiais, controle de pragas, manejo da mortalidade, limpeza, desinfecção, vazio sanitário e qualidade da água integram esse conjunto.
A etapa seguinte é medir a eficácia. Registros de acesso, auditorias, monitoramento da água, avaliação da limpeza e desinfecção, acompanhamento de pragas, mortalidade, consumo de água e alimento e desempenho zootécnico ajudam a mostrar se as medidas entregam o resultado esperado. A análise de tendências também permite observar alterações progressivas nesses indicadores, que podem sinalizar perda de eficiência de uma barreira antes de um problema sanitário maior.
Assistência técnica precisa transformar regra em comportamento
Para Mariane, orientar o integrado significa avançar além da explicação sobre o que deve ser feito. O produtor precisa compreender qual risco cada procedimento controla, enquanto a assistência técnica deve observar a rotina real da propriedade, identificar pontos vulneráveis, discutir indicadores, construir planos de ação e acompanhar se os desvios foram efetivamente corrigidos.
“Também precisamos evitar que a biosseguridade seja lembrada apenas em momentos de crise sanitária. Ela precisa fazer parte da gestão da produção, assim como conversão alimentar, ganho de peso, mortalidade e custo de produção”, afirma. Segundo a diretora, falhas repetidas podem aumentar a pressão de infecção, favorecer desafios entéricos e respiratórios, elevar a mortalidade e comprometer a uniformidade e o desempenho do lote.
É nesse acompanhamento cotidiano que protocolo, produção e sanidade passam a fazer parte da mesma gestão. “Na minha visão, a biosseguridade mais eficiente não é aquela que aparece no papel. É aquela que se transforma em comportamento todos os dias, em todas as pessoas e em cada ponto crítico da operação”, conclui Mariane.



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