O aproveitamento de coprodutos da cadeia agropecuária passa por uma transformação. Se antes a destinação desses materiais era tratada principalmente como uma questão operacional, a indústria de ingredientes vem ampliando o foco para o desenvolvimento de soluções de maior valor agregado, capazes de atender demandas específicas de diferentes segmentos.
Com exclusividade à Feed & Food, Sidnei Rotta, Head da MBRF Ingredients, destaca que essa mudança está diretamente relacionada à evolução tecnológica, ao maior conhecimento sobre as propriedades dos coprodutos e à crescente exigência dos mercados por eficiência, rastreabilidade, segurança e regularidade de fornecimento.
Os números da indústria de reciclagem animal ajudam a dimensionar esse movimento. Segundo o Anuário 2025 da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (ABRA), o setor coleta cerca de 99% dos subprodutos gerados pela cadeia da carne no Brasil e processa 100% do material recolhido.
A produção resultante desse processo abastece diferentes setores da economia. Em 2025, 44% dos produtos da reciclagem animal foram destinados à produção animal, 16% ao mercado de pet food, 14% ao biodiesel, 10% à indústria de saboaria e 15% a outras aplicações.
Na avaliação de Rotta, os dados mostram que a indústria deixou de atuar apenas sob uma lógica de aproveitamento de materiais e passou a desenvolver soluções com aplicações técnicas e comerciais cada vez mais específicas. “Em um contexto de exigência por eficiência, rastreabilidade e melhor utilização dos recursos, o valor já não está apenas na disponibilidade da matéria-prima. Ele está no conhecimento aplicado a ela, na capacidade de processamento e no desenvolvimento de soluções com padrões consistentes de qualidade e segurança”, afirma.

Maior especialização
A evolução do setor também ampliou o número de aplicações possíveis para os coprodutos da indústria de proteína animal. De acordo com Rotta, materiais tradicionalmente associados ao aproveitamento industrial podem dar origem a ingredientes destinados à nutrição animal, saúde humana, agricultura e diferentes processos produtivos.
O avanço, segundo ele, está relacionado à combinação entre pesquisa, tecnologia, controle de processos e conhecimento das necessidades de cada mercado.
“Nos últimos dez anos, acompanhamos uma mudança importante no setor. Os clientes passaram a demandar não apenas ingredientes, mas soluções com regularidade de fornecimento, desempenho técnico, rastreabilidade e capacidade de adaptação”, destaca.
Esse movimento também elevou o nível de exigência sobre toda a cadeia de produção. A capacidade de oferecer ingredientes com características consistentes passou a ser um diferencial para empresas que atuam em mercados nacionais e internacionais.
Uma década de expansão
A trajetória da MBRF Ingredients acompanha parte dessa transformação. Em dez anos, a empresa alcançou uma estrutura de 30 unidades produtoras no Brasil, mais de 450 colaboradores, processamento superior a 1,5 milhão de toneladas de coprodutos por ano e presença em mais de 20 países.
Para Rotta, a evolução da operação evidencia o espaço que o mercado de ingredientes conquistou dentro da indústria de proteína animal e a dimensão das oportunidades relacionadas ao aproveitamento de coprodutos. “O setor de ingredientes deixou de ser visto apenas como uma etapa complementar da produção e passou a ocupar uma posição estratégica dentro da cadeia”, avalia.
Próximos desafios
Para os próximos anos, a tendência é de avanço na especialização dos ingredientes, com soluções cada vez mais direcionadas às necessidades de diferentes espécies, categorias e sistemas de produção.
Nesse cenário, além do desempenho técnico, fatores como segurança, rastreabilidade, previsibilidade de fornecimento e eficiência deverão ganhar ainda mais relevância.
Na visão de Rotta, o futuro da indústria estará menos relacionado apenas ao volume de recursos disponíveis e cada vez mais à capacidade de transformar esses recursos em soluções de maior valor. “Depois de dez anos acompanhando essa evolução, acredito que o futuro do setor dependerá menos da quantidade de recursos que temos à disposição e mais da inteligência que aplicamos para transformá-los. Os coprodutos já deixaram de ser apenas um resultado da produção para se tornarem parte estratégica do abastecimento de diferentes mercados ao redor do mundo”, conclui.



Nenhuma discussão ainda. Seja o primeiro a comentar.