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Perda de moradores no interior de SC pressiona sucessão rural e reforça papel das cooperativas

Enquanto Santa Catarina cresce, pequenos municípios encolhem; continuidade das propriedades depende de renda, formação, serviços e perspectiva para as novas gerações

Santa Catarina ganhou população nos últimos anos, mas o avanço não ocorre da mesma forma em todo o território. O Censo de 2022 registrou 7,61 milhões de habitantes no Estado, enquanto a estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para 2025 chegou a 8,18 milhões. Em parte dos pequenos municípios do interior, porém, o movimento foi inverso e coloca em discussão quem permanecerá para produzir, trabalhar e dar continuidade aos negócios rurais nas próximas décadas.

Coronel Martins, por exemplo, tinha 2.065 habitantes no Censo de 2022 e aparece com população estimada em 1.993 pessoas em 2025. Xavantina passou de 3.653 para 3.583 habitantes. Romelândia, por sua vez, tinha 4.684 moradores na estimativa mais recente. Os casos não significam que todo o interior catarinense esteja encolhendo, mas revelam uma perda populacional localizada que ganha outra dimensão em regiões dependentes da agropecuária.

No agro, menos moradores podem representar também menos trabalhadores, empreendedores e sucessores disponíveis para manter propriedades familiares e atividades econômicas locais. Em um Estado marcado pela presença de cadeias como leite, aves, suínos, bovinos e grãos, a renovação das gerações deixa de ser apenas um problema de uma família rural e passa a interessar também a cooperativas, agroindústrias e comunidades inteiras.

Quando a população diminui, o impacto chega à produção

Para Vanir Zanatta, presidente do Sistema OCESC, a discussão não deve ser reduzida à quantidade de habitantes. Em artigo sobre a redução populacional do interior catarinense, o dirigente chama atenção para os efeitos econômicos e sociais que acompanham a perda de moradores.

“Não se trata apenas de estatística demográfica”, escreve Zanatta. Segundo ele, municípios que perdem população também podem perder consumidores, trabalhadores, alunos e empreendedores. Entre os pontos de maior preocupação está a saída das novas gerações, capaz de comprometer a sucessão das propriedades rurais e das empresas familiares.

O problema, na avaliação apresentada pelo presidente da OCESC, não está no deslocamento das pessoas em si. “O problema não está na liberdade de migrar, mas na falta de condições para permanecer no interior”, afirma no artigo.

Isso envolve mais do que renda. Emprego, educação, saúde, conectividade, habitação e perspectivas profissionais também pesam na decisão de construir o futuro em uma pequena cidade ou buscar oportunidades em centros maiores.

É nesse contexto que Zanatta coloca as cooperativas como parte da estrutura capaz de sustentar atividade econômica fora dos grandes polos. “Em muitas comunidades catarinenses, as cooperativas constituem uma verdadeira infraestrutura econômica de permanência”, escreve.

Na agropecuária, essa presença aparece na assistência técnica, comercialização da produção, acesso a tecnologias, organização de escala e ligação entre propriedades e mercados. Cooperativas de crédito e infraestrutura acrescentam serviços financeiros, energia e investimentos que ajudam a manter propriedades e pequenos negócios em funcionamento.

Zanatta, no entanto, não atribui ao cooperativismo a capacidade de resolver sozinho um fenômeno complexo. Para ele, conter a perda de vitalidade das pequenas cidades exige também políticas públicas e serviços. “Preservar o interior significa criar condições para que pequenas cidades continuem vivas, produtivas e capazes de oferecer futuro”, defende.

Vanir Zanatta, presidente do Sistema OCESC, defende que a permanência das famílias no interior depende da geração de oportunidades, renda, serviços e perspectivas para as novas gerações. Crédito: Reprodução.

Sucessão exige perspectiva para o jovem

Na prática, a permanência das novas gerações passa por transformar a propriedade em uma alternativa profissional viável. Em 2025, a Epagri capacitou 303 participantes por meio da Ação Jovem Rural e do Mar, programa voltado à gestão, empreendedorismo e preparação para a sucessão familiar.

No Oeste catarinense, onde cadeias de proteína animal têm forte presença, um dado da empresa mostra o potencial desse trabalho. Entre 285 jovens já capacitados na região, 90% permaneceram nas propriedades rurais, segundo levantamento divulgado pela Epagri em 2026.

Para Dirceu Leite, presidente da Epagri, a renovação precisa ser tratada como parte do futuro produtivo do Estado. “Nós precisamos de uma agricultura para os próximos anos e essa agricultura passa necessariamente pela sucessão familiar”, afirma.

A permanência também depende de preparar o sucessor para administrar a propriedade, e não apenas executar atividades produtivas. Cursos e projetos desenvolvidos no Estado trabalham planejamento, custos, inovação, tomada de decisão, empreendedorismo e liderança justamente para que as novas gerações assumam negócios capazes de gerar renda no longo prazo.

A produtora rural Elisiane Soster resume essa mudança de visão a partir da própria experiência. “Os cursos me ajudaram a enxergar a sucessão não como algo automático, mas como um processo que precisa de diálogo, planejamento e visão de longo prazo”, relata.

O ponto é relevante para cadeias altamente integradas. Quando uma propriedade deixa de produzir por falta de sucessor, o efeito não termina dentro da porteira: pode reduzir a base de fornecedores, movimentação econômica, demanda por serviços e a capacidade produtiva de uma região.

Cooperativismo mantém estruturas no território

O tamanho do sistema cooperativo catarinense ajuda a explicar por que ele aparece nessa discussão. Em 2024, Santa Catarina contabilizava 250 cooperativas e aproximadamente 101,1 mil empregados vinculados ao sistema, distribuídos por atividades que incluem agropecuária, crédito e infraestrutura.

Nas cadeias agropecuárias, a cooperativa pode reduzir uma das dificuldades de permanecer em municípios menores: o isolamento econômico. Ao concentrar produção, assistência, compras, comercialização e acesso a mercados, o modelo permite que propriedades familiares participem de cadeias que exigem escala, tecnologia e regularidade.

Esse papel também aparece no crédito. No Brasil, as cooperativas de crédito já estavam presentes em 59% dos municípios ao final de 2025 e reuniam 21,2 milhões de cooperados, segundo o Banco Central. O segmento também ampliou sua atuação no financiamento de pequenas e médias empresas e do setor agroindustrial.

Em cidades onde serviços bancários convencionais são mais limitados, manter uma estrutura financeira próxima pode significar acesso a recursos para modernizar uma granja, comprar equipamentos, ampliar uma pequena agroindústria ou viabilizar o projeto de um sucessor.

O cooperativismo, portanto, não impede sozinho a redução populacional. Mas pode ajudar a construir uma condição fundamental para enfrentar o problema: manter atividade econômica, renda e serviços perto de onde a produção acontece.

Sustentabilidade também depende de quem fica

A discussão amplia o significado de sustentabilidade no agro. Redução de emissões, eficiência energética, conservação do solo, água e bem-estar animal continuam essenciais, mas a continuidade das cadeias produtivas também depende da existência de pessoas interessadas e preparadas para mantê-las funcionando.

Se uma região produz de forma eficiente hoje, mas perde sucessores, trabalhadores, serviços e perspectiva econômica, a sustentabilidade dessa produção no longo prazo também fica sob pressão.

Por isso, o desafio do interior catarinense não está em impedir que jovens deixem suas cidades. Está em oferecer condições para que permanecer também seja uma escolha possível: propriedade rentável, acesso a tecnologia e crédito, formação, conectividade, saúde, educação e qualidade de vida.

Em um Estado onde pequenas propriedades, cooperativas e agroindústrias estão profundamente conectadas, a perda de moradores em municípios produtores deixa de ser apenas uma questão demográfica. Ela passa a colocar uma pergunta diretamente ligada ao futuro do agro: quem continuará produzindo quando a atual geração deixar a atividade?

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