Com uma combinação de conteúdo técnico, análises de mercado e experiências internacionais, o Feedlot Summit Brazil 2026 ofereceu nesta quinta-feira (17), em Goiânia (GO) em seu segundo dia, subsídios para o produtor enfrentar um ambiente de negócios cada vez mais dinâmico e competitivo, no qual planejamento e gestão tendem a ser tão importantes quanto a produtividade dentro da porteira.
Na área de nutrição, a programação abordou temas como atualização sobre macro e microminerais, dietas de alto grão, estratégias para mitigação da acidose ruminal e alternativas para o uso de aditivos diante das mudanças regulatórias. Já os painéis de gestão apresentaram foco em formação de custos, mercado futuro, contratos, intensificação dos sistemas produtivos e aumento da eficiência técnica e econômica das propriedades.
Pastagem limpa, produtividade máxima: o uso estratégico de herbicidas para aumentar a rentabilidade da pecuária
A qualidade da pastagem está diretamente relacionada ao desempenho dos animais e à eficiência econômica dos sistemas de produção de bovinos de corte. O controle adequado de plantas daninhas, por meio do uso estratégico de herbicidas, pode reduzir a competição por água, luz e nutrientes e ampliar a disponibilidade de forragem de qualidade. Mais do que uma questão de manejo, a manutenção de pastagens produtivas representa uma ferramenta para elevar a taxa de lotação e o ganho de peso dos animais, contribuindo para uma produção de carne mais eficiente por área.
Para Thiago de Menezes, zootecnista e representante técnico da Corteva, o uso de herbicidas deve estar inserido em um planejamento integrado da propriedade, considerando as características da pastagem, o nível de infestação e o momento adequado para intervenção. “A adoção de tecnologias de manejo pode contribuir para recuperar o potencial produtivo das áreas e melhorar o aproveitamento dos recursos disponíveis. Em um cenário de busca permanente por redução de custos e aumento da produtividade, investir na qualidade da pastagem pode ser decisivo para ampliar a rentabilidade da pecuária”, explicou. “O manejo correto de invasoras representa uma decisão financeira estratégica ao eliminar a competição por nutrientes e permitir o pleno desenvolvimento da forragem.

O processo viabiliza maior taxa de lotação por hectare e exige um diagnóstico preciso do nível de infestação e do estágio das plantas para garantir o retorno do investimento”, disse. “Pastagem limpa não é apenas uma questão visual. É estratégia para produzir mais e melhorar o resultado da fazenda. A presença de plantas daninhas compete por recursos, compromete o potencial produtivo das pastagens e pode impactar diretamente a eficiência da pecuária. “Nosso objetivo é entender como o manejo estratégico das pastagens e o uso adequado de herbicidas podem contribuir para maior produtividade por hectare, eficiência do sistema e rentabilidade da operação”, afirmou.
Como intensificar a fazenda e os lucros na cria e recria/engorda?
A intensificação dos sistemas de produção de bovinos de corte tem ganhado espaço como estratégia para aumentar a produtividade sem depender exclusivamente da expansão da área utilizada. Na cria, recria e engorda, o desafio está em combinar manejo de pastagens, genética, nutrição, sanidade e gestão para elevar a produção de arrobas por hectare e melhorar o aproveitamento dos recursos disponíveis. A decisão de intensificar, entretanto, exige planejamento e conhecimento dos custos, já que o aumento do investimento precisa resultar em retorno econômico compatível com o risco assumido.
Segundo Adilson de Paula Almeida Aguiar, da Consupec, a intensificação deve ser conduzida de acordo com as características e os objetivos de cada propriedade. “O foco não está simplesmente em produzir mais, mas em produzir mais carne de forma eficiente e rentável, utilizando corretamente os fatores de produção. Nesse processo, indicadores zootécnicos e econômicos tornam-se fundamentais para avaliar os resultados das estratégias adotadas e identificar quais tecnologias efetivamente contribuem para aumentar a margem do negócio”, pontuou. “Intensificar não é simplesmente produzir mais.

É produzir melhor, com estratégia, eficiência e resultado. Avaliamos hoje uma questão fundamental para quem busca aumentar a produtividade e, principalmente, a rentabilidade da propriedade que é como intensificar minha fazenda e meus lucros na cria e recria/engorda”, destacou. “É preciso entender como utilizar melhor os recursos disponíveis, aumentar a eficiência do sistema produtivo e transformar intensificação em mais resultado por hectare e mais lucro para o negócio”, disse.
Como a aplicação crescente de tecnologias aumentou o lucro operacional no ciclo completo?
A incorporação de tecnologias vem transformando a forma como as fazendas de ciclo completo conduzem seus sistemas produtivos. Ferramentas de monitoramento, melhoria genética, manejo nutricional, controle sanitário e gestão de dados permitem acompanhar com maior precisão o desempenho dos animais e das diferentes etapas da produção.
Segundo Paulo Prohmann, médico-veterinário da Fazenda Mater, quando utilizadas de forma integrada, essas tecnologias podem reduzir desperdícios, melhorar a eficiência dos processos e aumentar a capacidade de produção de carne por área.“A experiência da Fazenda Mater mostra como a aplicação crescente de soluções tecnológicas pode estar associada à evolução dos indicadores produtivos e econômicos do ciclo completo”, disse.
Para Rafaela Sutiro Angelieri Auder, zootecnista e gestora da Fazenda Mater, o desafio está em transformar tecnologia em resultado concreto dentro da porteira. “A análise dos dados e a avaliação do retorno sobre os investimentos permitem direcionar recursos para as estratégias que efetivamente contribuem para elevar o lucro operacional e a competitividade da atividade”, afirmou.

Segundos os especialistas, tecnologia na pecuária precisa ter propósito: aumentar a eficiência e transformar investimento em resultado. Paulo Prohmann e Rafaela Angelieri Auder mostraram, na prática, como a evolução tecnológica pode impactar diretamente a rentabilidade da operação. “É preciso entender como a adoção estratégica de tecnologias, aliada à gestão e à análise de resultados, pode gerar ganhos de eficiência ao longo de todo o ciclo produtivo e contribuir para mais lucro operacional na fazenda”, destacou Rafaela.
Avanços na adequação do uso de fibra para bovinos confinados de alto desempenho
Em sistemas de confinamento de alto desempenho, a busca por maiores ganhos de peso e eficiência alimentar exige atenção cada vez maior ao equilíbrio das dietas. Nesse contexto, a fibra exerce papel fundamental na manutenção do ambiente ruminal e no funcionamento adequado do sistema digestivo, mesmo em dietas com elevada participação de concentrados. A definição da quantidade e da qualidade da fibra pode influenciar o consumo, a digestibilidade, a saúde ruminal e, consequentemente, o desempenho e o custo da arroba produzida.
De acordo com Rodrigo Goulart, médico-veterinário e professor do Departamento de Zootecnia da FZEA/USP, os avanços no conhecimento sobre a utilização de fibra permitem aperfeiçoar as formulações e ajustar as dietas às necessidades dos animais de alto desempenho. “O desafio está em encontrar o equilíbrio entre maximizar a densidade energética da dieta e preservar as condições necessárias para a saúde e a eficiência do rúmen. Na prática, um manejo nutricional mais preciso pode contribuir para reduzir perdas, melhorar a conversão alimentar e aumentar a rentabilidade do confinamento”, detalhou.

Na recria e engorda, a margem começa a ser definida antes mesmo do animal entrar na fazenda, avaliou o especialista. “A reposição é uma das decisões mais estratégicas da operação e pode determinar boa parte da competitividade e do resultado financeiro do sistema. O produtor precisa ficar cada vez mais atento a como a reposição pode impactar a competitividade e a margem de lucro da recria e engorda e entender melhor os impactos da compra, do preço e da estratégia de reposição sobre o resultado final da operação”, afirmou.
Carne de qualidade, tipificação de carcaça e as novas tendências mercadológicas
A evolução do mercado de carne bovina tem ampliado a importância da qualidade e da padronização das carcaças. Características como acabamento de gordura, rendimento, conformação e uniformidade passam a ter peso crescente na remuneração e na relação entre produtores, frigoríficos e consumidores. Nesse cenário, a tipificação de carcaças funciona como uma ferramenta para diferenciar produtos e alinhar a produção às demandas específicas dos diferentes segmentos do mercado de proteína animal.
Para Roberto Barcellos, zootecnista e diretor da Beef & Veal Consultoria, compreender as tendências de consumo e os critérios utilizados para avaliar a qualidade da carne é fundamental para orientar as decisões dentro da propriedade. “A produção de animais que atenda às especificações do mercado pode abrir espaço para maior valorização do produto e melhorar a previsibilidade comercial. O desafio para a pecuária está em transformar qualidade em resultado econômico, conectando genética, nutrição, manejo e estratégias de comercialização”, avaliou.

Quem acompanha as transformações do mercado da carne sabe que produzir bem já não é suficiente. É preciso entender o que o mercado valoriza e como gerar mais valor para cada arroba produzida, destacou Barcellos. “Hoje mostramos como as exigências do mercado estão evoluindo e como o produtor pode transformar qualidade em competitividade e rentabilidade”, afirmou.
Novos avanços na nutrição micromineral de bovinos de corte em sistemas de pastejo e confinamento
A nutrição micromineral desempenha papel importante em funções relacionadas ao metabolismo, crescimento, reprodução e resposta imunológica dos bovinos. Em sistemas de pastejo ou confinamento, o fornecimento adequado de microminerais precisa considerar as características da dieta, o ambiente e as exigências dos animais em cada fase produtiva. O avanço das pesquisas nessa área permite maior precisão na formulação de suplementos e dietas, buscando atender às necessidades dos animais sem elevar desnecessariamente os custos de produção.
Segundo Terry Engle, professor do Departamento de Ciência Animal da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, compreender a interação entre microminerais, desempenho animal e características do sistema produtivo é essencial para aperfeiçoar as estratégias nutricionais. “O objetivo é utilizar o conhecimento científico para melhorar a eficiência do uso dos nutrientes e contribuir para a saúde e o desempenho dos bovinos. Em sistemas de alta produtividade, pequenos ajustes nutricionais podem ter impacto relevante sobre os resultados zootécnicos e econômicos”, disse.
A nutrição micromineral tem papel estratégico na saúde, no desempenho e na eficiência dos bovinos de corte e, segundo Engle. “Foi uma oportunidade de conhecer pesquisas, conceitos e novas perspectivas sobre a utilização dos microminerais e seus impactos nos sistemas modernos de produção”, avaliou.
Saúde intestinal e dietas com alto teor de grãos: consequências da acidose ruminal/intestinal e da inflamação sistêmica
O aumento da participação de grãos nas dietas de bovinos confinados é uma das principais estratégias utilizadas para elevar a densidade energética e acelerar o ganho de peso. No entanto, dietas de alto desempenho também exigem maior atenção à saúde ruminal e intestinal. Desequilíbrios na fermentação podem favorecer quadros de acidose e comprometer o consumo, a digestibilidade e o desempenho dos animais, além de provocar impactos que ultrapassam o sistema digestivo e podem estar associados a processos inflamatórios.
De acordo com T.G. Nagaraja, professor emérito de Microbiologia da Universidade Estadual do Kansas, nos Estados Unidos, compreender os mecanismos envolvidos na acidose ruminal e intestinal é fundamental para aprimorar o manejo de animais submetidos a dietas altamente energéticas. “A prevenção passa por estratégias que envolvem formulação de dietas, adaptação dos animais, manejo do fornecimento e monitoramento do consumo. Ao reduzir os efeitos dos distúrbios digestivos, o produtor pode melhorar a eficiência alimentar e proteger tanto o desempenho dos animais quanto a margem econômica do confinamento”, avaliou.
O custo invisível da variabilidade: como a consistência operacional transforma desempenho em lucro?
A variabilidade dos processos é um dos custos menos perceptíveis dentro de uma operação pecuária, mas pode comprometer significativamente os resultados. Diferenças no manejo, na alimentação, no desempenho dos lotes, na qualidade dos insumos ou na execução das rotinas podem gerar perdas que nem sempre aparecem de forma imediata nos indicadores financeiros. Em sistemas de produção intensiva, nos quais pequenas diferenças de desempenho se acumulam ao longo do ciclo, a busca por maior padronização torna-se uma estratégia importante para reduzir desperdícios e aumentar a previsibilidade dos resultados.
Para Rafael Cervieri, zootecnista e diretor técnico da Nutribeef Consultoria, transformar desempenho em lucro exige mais do que estabelecer metas produtivas: é necessário garantir que os processos sejam executados de maneira consistente. O monitoramento dos indicadores e a identificação das fontes de variabilidade permitem corrigir desvios antes que eles se convertam em perdas econômicas. Dessa forma, a eficiência operacional passa a ser um componente estratégico da gestão, capaz de melhorar a conversão de recursos em arrobas produzidas e fortalecer a rentabilidade do sistema.
Quanto custa para a sua operação fazer a mesma coisa de maneiras diferentes todos os dias? Foi a questão levantada pelo especialista. “Nem toda perda aparece de forma evidente na planilha. Variações no manejo, nos processos, na execução e na rotina podem comprometer desempenho, previsibilidade e, no final das contas, a margem da operação”, disse. “É preciso reduzir desvios, padronizar processos e transformar eficiência operacional em resultados mais consistentes e rentáveis. Porque na pecuária de alta performance, não basta atingir bons resultados algumas vezes. É preciso criar processos capazes de repeti-los”, afirmou.
Sistema integrado de produção da África do Sul: da recria ao confinamento
A integração entre as diferentes etapas da produção é uma das estratégias utilizadas para aumentar a eficiência dos sistemas de bovinocultura de corte. Na África do Sul, modelos que conectam recria e confinamento permitem maior controle sobre o desenvolvimento dos animais, o planejamento nutricional e o momento de terminação. A integração das informações e dos manejos ao longo do ciclo contribui para reduzir rupturas entre as fases produtivas e melhorar o aproveitamento do potencial de ganho de peso dos bovinos.
Segundo Conrad Coetzer, médico-veterinário e consultor internacional em nutrição de ruminantes, a experiência sul-africana demonstra a importância de enxergar a produção como um sistema único, no qual as decisões tomadas na recria influenciam diretamente o desempenho no confinamento. “Estratégias nutricionais ajustadas a cada etapa, aliadas ao monitoramento dos indicadores zootécnicos, permitem buscar maior eficiência alimentar e previsibilidade dos resultados. A abordagem integrada pode oferecer referências importantes para produtores brasileiros que buscam elevar a produtividade e a rentabilidade da produção de carne bovina”, destacou.
Acidose ruminal em animais confinados na Argentina: riscos e práticas de mitigação
A acidose ruminal está entre os principais desafios nutricionais dos sistemas de confinamento, especialmente quando os animais recebem dietas com elevada concentração de energia e rápida fermentação. O problema pode comprometer o consumo, a digestibilidade e o ganho de peso, além de aumentar o risco de outros distúrbios metabólicos. Por isso, estratégias de prevenção e monitoramento são fundamentais para manter a estabilidade ruminal e preservar o desempenho dos animais confinados.
Na Argentina, onde o confinamento ocupa papel relevante na produção de carne bovina, a experiência prática e os avanços científicos têm contribuído para o desenvolvimento de estratégias de mitigação. Para Anibal Pordomingo, engenheiro agrônomo e pesquisador sênior do INTA, o manejo da dieta, a adaptação gradual aos alimentos de maior densidade energética e o controle do consumo são elementos fundamentais para reduzir os riscos.“A adoção de protocolos consistentes pode melhorar a saúde dos animais, diminuir perdas de desempenho e contribuir para maior eficiência econômica dos sistemas de terminação”, avaliou.



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