Mesa de Mercado · CEPEA
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Agroindústria precisa de estratégia de Estado para ampliar competitividade da proteína animal brasileira

Debates no Congresso Brasileiro do Agronegócio destacam financiamento, comércio exterior, industrialização e segurança institucional como fatores decisivos.

A competitividade da agroindústria brasileira, incluindo as cadeias de proteína animal, dependerá de uma estratégia de Estado capaz de integrar política econômica, financiamento, comércio exterior, tecnologia, segurança institucional e fortalecimento da indústria. A avaliação marcou a edição comemorativa de 25 anos do Congresso Brasileiro do Agronegócio (CBA), realizado pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) e pela B3.

O evento reuniu mais de 800 participantes nacionais e internacionais no Sheraton WTC São Paulo Hotel e registrou mais de 3 mil visualizações na transmissão online.

Na abertura, Ingo Plöger, presidente da ABAG, defendeu a construção de uma agenda de longo prazo para o país, com instrumentos capazes de sustentar investimentos e reduzir os riscos da atividade produtiva.

“Queremos ser uma nação de oportunidades e traduzir nossos anseios em um país que possa trabalhar de forma consequente”, afirmou.

Para Plöger, o desenvolvimento do agronegócio precisa caminhar junto com o avanço industrial. A integração entre diferentes setores e agentes econômicos e sociais, segundo ele, é necessária para ampliar a capacidade produtiva brasileira de forma sustentável. “O Brasil precisa de pacificação, harmonia, trabalho e visão de longo prazo”, destacou.

Ingo Plöger, presidente da ABAG, no encerramento da edição histórica de 25 anos do Congresso Brasileiro do Agronegócio.

Financiamento e competitividade entram no centro da agenda

Na mesa-redonda “Novo Governo: Prioridades e Compromissos”, a discussão sobre os próximos passos para o agronegócio brasileiro passou pela necessidade de uma agenda abrangente para a agroindústria.

Entre os pontos levantados estiveram a ampliação da inserção internacional do Brasil, a negociação de novos acordos comerciais, o aumento da competitividade da indústria e a criação de condições adequadas de financiamento.

A discussão contou com respostas dos candidatos à Presidência da República Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Flavio Bolsonaro sobre temas como ambiente institucional e regulatório, desenvolvimento científico e tecnológico, infraestrutura produtiva e logística, financiamento e competitividade diante das transformações geopolíticas.

Para as cadeias de proteína animal, esses fatores têm impacto direto sobre a capacidade da indústria de investir, ampliar produção e disputar mercados internacionais.

Ao analisar as declarações dos candidatos, Alberto Pfeifer, Senior Policy Fellow do Insper Agro, destacou a posição estratégica conquistada pelo Brasil na produção tropical e o papel da Embrapa na construção dessa capacidade. “O Brasil domina a produção tropical. Isso é algo valioso. E a Embrapa foi estratégica para a geopolítica como braço público”, afirmou.

Segundo Pfeifer, entretanto, o país precisa compreender o atual modelo global para ampliar sua inserção internacional, utilizando tecnologia e informação como instrumentos de competitividade.

“Com o avanço da fronteira agrícola, podemos ter importantes elementos de troca”, acrescentou.

Endividamento e juros pressionam produtores e empresas

O ambiente financeiro também aparece como um dos principais desafios para o agronegócio e para a agroindústria.
Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, chamou atenção para o elevado endividamento do setor e para a combinação de juros e inflação, que deve continuar pressionando produtores e empresas. “O tamanho da dívida do agro é grande e vai continuar sendo um desafio, assim como os juros e a inflação”, afirmou.

Na avaliação do economista, será necessário desenvolver mecanismos que permitam ajustar as taxas de financiamento sem provocar interferências nos demais segmentos do mercado.

O tema é especialmente relevante para cadeias industriais que demandam investimentos contínuos em produção, processamento, logística e expansão de capacidade.

Vale também destacou a crescente presença de produtos chineses no mercado brasileiro, com preços competitivos capazes de pressionar segmentos da indústria nacional. Nesse cenário, a ampliação de acordos comerciais foi apontada como um dos caminhos para fortalecer a posição brasileira no comércio internacional.

Luiz Carlos Corrêa Carvalho, sócio-diretor da Canaplan e presidente do Conselho Estratégico de Alto Nível da ABAG, ressaltou que o Brasil já ocupa posições de liderança em importantes mercados agrícolas, como açúcar e soja. Essa relevância, contudo, também expõe o país a vulnerabilidades diante das mudanças no cenário internacional.

Comércio exterior é estratégico para a indústria

Na palestra de encerramento do Congresso ABAG, o ex-presidente Michel Temer defendeu o fortalecimento das exportações, o multilateralismo e a segurança institucional como elementos fundamentais para o desenvolvimento brasileiro.

Para o setor de proteína animal, altamente dependente da capacidade de acesso a mercados internacionais, a manutenção de relações comerciais diversificadas aparece como um dos pontos centrais dessa agenda.

Temer ressaltou o peso do comércio exterior para a economia brasileira e defendeu que o país preserve relações comerciais com diferentes mercados, evitando posicionamentos ideológicos que possam restringir oportunidades. “É fundamental que as exportações continuem fortes para sustentar o PIB brasileiro e a relação comercial com o mundo”, afirmou.

O ex-presidente também destacou a importância da agroindústria para o processo de industrialização do país. “O fortalecimento da agroindústria contribui para ampliar a industrialização e a capacidade produtiva do País”, pontuou.

Tecnologia e agregação de valor ganham espaço

Além dos debates econômicos e políticos, a programação do congresso incluiu a estreia do Future Flash, espaço voltado à apresentação de novas ideias e oportunidades para o agronegócio.

Mariana Vasconcelos, cofundadora e CEO da Agrosmart e Young Global Leader pelo World Economic Forum, abordou o avanço da tecnologia digital no setor.

Flávia Garcia Cid, produtora rural, empresária e gestora da Fazenda Jaracatiá, discutiu a verticalização como estratégia para geração de valor no agronegócio.

Já Victor Brian Magalhães, CEO da TerraMares Ambiental, apresentou possibilidades de transformar desafios ambientais em oportunidades.

A programação reforçou, assim, uma agenda que vai além do aumento da produção: para ampliar a competitividade da agroindústria brasileira e fortalecer sua presença nos mercados globais, o país precisará combinar capacidade produtiva, industrialização, acesso a financiamento, tecnologia, segurança institucional e uma política de comércio exterior capaz de acompanhar as transformações geopolíticas.

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