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A realidade do abate animal no dia a dia da produção

Vantagens e exigência externa fazem com que a insensibilização seja seguida

Natália Ponse, da redação

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O portal feed&food mostrou na reportagem anterior da série Abate Humanitário as informações sobre como é realizado cada procedimento, em cada animal. Mas como essa questão é vista na prática, no dia a dia das associações e empresas?  

“Não devemos nada aos outros países”. As palavras do diretor Executivo da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS, Estrela/RS), Nilo de Sá, ecoam a segurança que as associações brasileiras têm com relação ao tema. Segundo de Sá, o regimento proposto pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA, Brasília/DF) descreve as três possíveis formas de insensibilização (concussão cerebral, eletronarcose ou pelo uso de co2) que são seguidas à risca pelas agroindústrias e frigoríficos, tendo em vista que são fiscalizados rotineiramente pelos agentes federais e para garantir suas exportações, com as missões constantes ao País. “Mas, é claro, as tecnologias vão mudando, surgem novas formas, então temos que avaliar constantemente o que é praticado no resto do mundo para identificar novas tendências”, pontua.

Segundo o pesquisador da Embrapa Pecuária (São Carlos/SP), Osmar Dalla Costa, a grande diferença é que no abate humanitário se usa a razão, e antigamente utilizava-se a emoção para o processo. “Na década de 60, por exemplo, o bom carregador de suínos era aquele que pegava o animal pelo rabo, pela pata, pela orelha e o jogava no caminhão. Hoje, o bom profissional é aquele que conhece o comportamento do animal, sabe como conduzi-lo sem estressá-lo, utilizando o chocalho, a cortina ou a bandeira. O conhecimento prevalece acima da força”, explica. O resultado do manejo pré-abate, continua Costa, une animais e profissionais menos estressados, menos cansados e com uma melhor qualidade do produto na prateleira do consumidor.

Apesar das inúmeras vantagens em se aplicar o sistema de abate humanitário, a aceitação deste método sofreu percalços no início. “Toda vez que alguém propõe uma mudança, há resistência. E não foi diferente com os produtores brasileiros”, lembra Osmar. No entanto, após muito diálogo e exposição dos benefícios, a prática consegue alcançar a maioria dos frigoríficos.

O médico-veterinário e mestrando em zootecnia pela Universidade Estadual de São Paulo (Unesp/FCAV, Jaboticabal/SP), Filipe Dalla Costa (foto), aponta quatro motivos para que os produtores não acatem este método. “São os três ‘i’s: ignorância, quando a pessoa é inexperiente e não sabe o que faz; a incompetência, sobre não ter habilidade para a prática; e a desconsideração, quando aquela pessoa não se importa e acha que o animal é inferior, não deve ser insensibilizado”, conta. Para reverter essa situação, o especialista destaca que a ignorância e a inexperiência são resolvidas com orientação, educação e capacitação. Já a desconsideração deve ser solucionada com a substituição do colaborador. 

Ainda de acordo com o médico-veterinário, também são três as maneiras de mudar o pensamento resistente a esta questão: pela legislação, impondo exigências; pela conscientização dos encarregados pela produção, quando começam a perceber que a prática é justa com os animais, já que eles são racionais, além de economizar o esforço de trabalho; e pela conscientização econômica, já que as consequências desse manejo são maior captação de lucro e melhor qualidade na produção.

Há mais de uma década a Marfrig (São Paulo/SP), iniciou a contratação de especialista no assunto para implementar a prática do bem-estar nas unidades de processamento. Hoje um departamento exclusivo é responsável por monitorar toda a linha de produção, desde o embarque, transporte até o manejo dentro das unidades, para que não haja sofrimento animal. “Contamos com pelo menos um técnico zootecnista ou veterinário em cada unidade de processamento, além dos mais modernos equipamentos para a contenção e a insensibilização dos animais, para que possamos sempre ser fiéis ao conceito de manejo racional e bem-estar, garantindo inconsciência a todos os animais abatidos, minimizando qualquer sofrimento desnecessário”, ressalta a coordenadora Corporativa de Bem-estar Animal da companhia, Alessandra Tondatto.

Essa política é garantida  por meio de visitas técnicas programas e em caráter aleatório, para que sejam verificadas a situação das instalações, do manejo e orientando os colaboradores, transportadores e manejadores de propriedades rurais. “Nas capacitações realizadas pelos nossos técnicos buscamos conscientizar, interagir e expandir o conhecimento sobre o bem-estar animal, considerando as tendências relacionadas às legislações nacionais, internacionais e solicitações de clientes”, pontua Tondatto. O treinamento é realizado interna e externamente, com regularidade e frequentes revisões, segundo a companhia.

A estrutura também recebeu adaptações. “Praticamente todos os currais construídos em nossas unidades nos últimos anos foram realizados em forma de ‘espinha de peixe’, buscamos adaptar corredores de embarque e abate para evitar a distração dos animais. Alguns corredores que antes eram abertos tiveram as laterais fechadas e ganharam o formato de curvas e seringas circulares”. Os resultados, de acordo com a coordenadora, são notáveis tanto em termos de bem-estar animal quanto de rentabilidade e qualidade da produção. “Faz parte do nosso compromisso ético trabalhar de acordo com a legislação vigente e com altos padrões de bem-estar animal, para alcançarmos o melhor resultado possível, garantindo tratativas eficazes caso seja constatado algum desvio de procedimento e agregando valor ao produto final”, finaliza.

Daqui para a frente. A médio e longo prazo as tecnologias devem melhorar e tornar estes processos mais eficientes e rápidos. “Para suinocultura, por exemplo, a tecnologia do uso de co2 deve agrupar um número maior desses animais, melhorando inclusive o transporte dos suínos pelo corredor até a gaiola, diminuindo a ação humana e minimizando o stress dos animais também”, conta Nilo de Sá, ressaltando que a principal mudança a longo prazo será mais tecnologia a menor custo. A acessibilidade aos métodos é outro fator pertinente. A Embrapa investe no abatedouro móvel, que realiza a insensibilização de suínos em um caminhão, prática voltada aos pequenos produtores. “Ele segue os mesmos princípios do abate humanitário. Apesar do preconceito inicial, hoje a sociedade começa a ver com bons olhos o trabalho voltado ao bem-estar animal”, conclui Osmar. 

Inovação e evolução. O portal feed&food mostra na próxima reportagem da série Abate Humanitário o trabalho do MAPA na atualização da normativa de bem-estar animal nas produções, bem como sua iniciativa em abrir consulta pública sobre o tema. Para acessar a primeira reportagem da série, clique aqui.  

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