A tomada de decisão baseada em diagnóstico, a gestão integrada da produção e a preparação da cadeia para um mercado internacional mais fragmentado deram o tom ao primeiro dia do 18º Simpósio Brasil Sul de Suinocultura (SBSS), nesta terça-feira (11), no Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo de Nes, em Chapecó (SC). Promovido pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet), o encontro abriu a programação técnica com discussões sobre o uso responsável de antimicrobianos e avançou, ao longo do dia, para produtividade, nutrição, sanidade, exportações e geopolítica dos alimentos.
Realizado em paralelo à 17ª Brasil Sul Pig Fair, o SBSS transformou temas que muitas vezes aparecem separados tratamento, biosseguridade, desempenho zootécnico, custo, acesso a mercados e comunicação em partes de uma mesma estratégia. Na abertura, a presidente do Nucleovet, Aletéia Britto da Silveira Balestrin, resumiu a abrangência da agenda. “Estamos falando de decisão, prevenção, diagnóstico, monitoramento e responsabilidade. O uso racional de antimicrobianos é um compromisso que ultrapassa os limites da granja. Ele está diretamente relacionado à sustentabilidade da produção, à saúde dos animais, à segurança dos alimentos e ao futuro da nossa atividade”, afirmou.

Diagnóstico antes do tratamento
A manhã foi dedicada ao pré-simpósio Gestão de Programas Sanitários na Suinocultura Da Prevenção ao Tratamento: Otimizando o Uso de Antimicrobianos. No primeiro módulo, o médico-veterinário Everson Zotti revisou fundamentos que precisam anteceder a prescrição, como a identificação do agente, a presença de inflamação ou febre, a condição imunológica dos animais, a farmacocinética e a farmacodinâmica dos medicamentos. Também ressaltou que associações entre princípios ativos podem produzir sinergismo, antagonismo ou indiferença e, por isso, precisam ter objetivo definido, sem substituir diagnóstico e antibiograma.
Na sequência, Edison Magalhães, professor assistente do Departamento de Ciência Animal da Iowa State University, defendeu que o monitoramento sanitário deixe de produzir resultados isolados e passe a acompanhar a dinâmica dos agentes dentro do sistema. A experiência norte-americana com a Síndrome Reprodutiva e Respiratória dos Suínos (PRRS), inexistente no Brasil, serviu de referência para mostrar como vigilância longitudinal e ciência de dados podem orientar intervenções. “Toda essa cultura é criada a partir do diagnóstico e de entender a circulação do agente dentro do sistema. É isso que queremos trazer para o Brasil e discutir como esse conceito pode ser aplicado à suinocultura brasileira”, explicou.
Ao usar a ileíte como exemplo, Magalhães mostrou que o momento da coleta pode determinar a utilidade do diagnóstico: o animal pode sofrer perdas produtivas sem sinais clínicos evidentes e, mais tarde, deixar de excretar o agente em nível detectável, embora o prejuízo já tenha ocorrido. A conclusão é que a coleta precisa seguir a janela biológica da enfermidade, e não ocorrer apenas quando os sintomas aparecem.
O médico-veterinário Augusto Heck, responsável pelo módulo sobre programas sanitários factíveis, alertou que protocolos de amplo espectro podem produzir resposta inicial sem resolver o problema de origem. Além de pressionar a seleção de resistência, o tratamento indiscriminado pode alterar a microbiota, favorecer disbiose e comprometer ganho de peso e conversão alimentar. Para Heck, o uso responsável se sustenta em cinco pilares: diagnóstico preciso, escolha criteriosa do medicamento, prevenção, monitoramento e educação continuada. Sem coleta adequada, cultura, isolamento, antibiograma e, preferencialmente, determinação da concentração inibitória mínima, “estamos, na verdade, dando um chute técnico qualificado”, advertiu.
O custo dessa imprecisão foi o ponto de partida de Luiz Carlos Giongo, gerente corporativo de Suinocultura da Aurora Coop. Embora os produtos veterinários representem aproximadamente 5% do custo de produção, ele argumentou que a decisão não pode ficar restrita ao preço de compra. “Precisamos acompanhar o resultado dos tratamentos ou dos produtos veterinários utilizados na criação, se eles realmente estão entregando o resultado desejado e proporcionando a condição de equilíbrio sanitário que precisamos”, disse.
Em um caso de pleuropneumonia suína provocada por Actinobacillus pleuropneumoniae (APP), apresentado no evento, a soma de perda de desempenho, mortalidade, condenações no abate, medicamentos, vacinação e mão de obra chegou a cerca de R$ 115,4 mil em um lote de 2,3 mil animais. “O produto mais barato na compra nem sempre é aquele que apresenta o melhor resultado final”, observou Giongo.
Segundo ele, quando o tratamento for necessário, é preciso “usar o produto certo, na hora certa e na dose certa”; subdosagem, escolha inadequada e repetição de tratamentos ampliam desperdícios, custos e risco de resistência. “O melhor tratamento não é o mais barato na compra do produto. É aquele que entrega o maior retorno sanitário, produtivo e econômico, com uso responsável e monitorado”, concluiu.
Decisões repercutem da matriz ao abate
À tarde, o painel sobre fluxo produtivo reforçou que nenhum resultado é construído em apenas uma fase. O médico-veterinário Rafael Ulguim concentrou a análise nas fêmeas primíparas, que ainda estão em crescimento enquanto enfrentam gestação e lactação. Alojamento estratégico na maternidade, assistência diferenciada ao parto, controle de temperatura na primeira semana de lactação e uso criterioso de tecnologias de identificação e pesagem estão entre as medidas que precisam ser ajustadas à realidade de cada granja.
“Devemos nos perguntar se o que estamos fazendo é realmente o suficiente para extrair o máximo do desempenho dessas fêmeas. A primípara precisa ser olhada dentro de uma categoria diferenciada, com a implementação de medidas individuais”, afirmou Ulguim.
Para o especialista, consumo, perda de peso, produtividade e longevidade precisam ser medidos por um método estruturado, capaz de indicar o que deve ser priorizado. “Hoje não temos um método nas granjas estruturado para avaliar esses fatores e, de certa forma, não conseguimos priorizar de forma assertiva, o que faz com que esse problema persista dentro do sistema produtivo”, acrescentou.
Sob a perspectiva sanitária, Paulo Eduardo Bennemann percorreu o fluxo que vai da reposição e da gestação à maternidade, creche, terminação e abatedouro. “Essas etapas estão interligadas. Funcionam de forma semelhante a uma relação entre cliente e fornecedor. O que nós iniciamos vai ter uma repercussão futura”, comparou.
Entre os cuidados iniciais, destacou a preparação da matriz para a produção de colostro, essencial à transferência de imunidade passiva aos leitões, e o controle da pressão de infecção e de fatores ambientais. Bennemann também apontou a influenza como um dos principais desafios respiratórios atuais.
A resposta sanitária, porém, não pode ser padronizada. “Não existe um modelo único de manejo sanitário que possa ser aplicado igualmente a todos os sistemas de produção. Cada propriedade apresenta características e desafios próprios. Um diagnóstico bem feito é o primeiro passo. Se não conhecemos o que nos desafia, fica muito difícil fazermos esse controle”, afirmou.
O médico-veterinário Cesar Augusto Pospissil Garbossa completou o painel pela ótica da nutrição. Segundo ele, a alimentação da matriz durante a gestação e a lactação influencia mais da metade da vida do suíno, o que conecta o desempenho reprodutivo ao retorno econômico das fases posteriores.
As exigências mudam ao longo da gestação; após o desmame, qualidade e digestibilidade dos ingredientes interferem na saúde intestinal; e, no crescimento e na terminação, concentra-se a maior parte do consumo de ração. “Tudo tem que estar associado para trabalharmos com uma nutrição específica para a realidade em que estamos. Então, todas as etapas são extremamente importantes”, reforçou.
Programas sob medida
Presidente da Comissão Científica do SBSS, Lucas Piroca levou a mesma lógica para a gestão sanitária. Em entrevista exclusiva à Feed&Food, ele afirmou que composição da microbiota, agentes patogênicos, instalações e condições produtivas criam uma realidade particular em cada sistema.
“Cada granja, cada sistema de produção, tem a sua singularidade. Devido a isso, o correto diagnóstico e a correta organização sanitária fazem com que tenhamos de adaptar os programas, porque não há como o mesmo programa funcionar igual em todos os lugares”, explicou.
Piroca avalia que ainda existe espaço para diminuir o emprego de antimicrobianos, desde que a redução não seja tratada como uma medida isolada. “Sem dúvida, é possível reduzir o uso de antimicrobianos. Lógico, sempre existe um limite, mas, na média, temos muitas oportunidades.” O avanço, segundo ele, exige trabalho conjunto em ambiência, manejo, nutrição, biosseguridade, higienização, vacinação e uso de aditivos.
Para transformar exames em decisão, o primeiro passo é definir a pergunta e o que será feito com a resposta. “Muitas vezes, vamos coletando material e buscando um diagnóstico, mas não sabemos aonde isso vai nos levar”, afirmou.

O desafio seguinte é reunir os resultados em uma série histórica. “A gente vai tirando fotos e toma decisões em relação à foto que tirou, e não em relação ao filme. Precisamos juntar esses diagnósticos, compilar, criar um banco de dados, organizar e, com base nas informações geradas, tomar decisões.”
Também é possível estimar o retorno dos investimentos em biosseguridade, embora a mensuração seja mais difícil do que em áreas como nutrição e logística. “É muito mais fácil pensar quanto poderíamos perder se perdêssemos aquela condição sanitária”, observou Piroca. Ensaios com grupos comparáveis, parâmetros previamente definidos e algum nível de aleatoriedade seriam o caminho ideal, ainda que a aplicação experimental seja limitada pela rotina das granjas.
Exportações entram em novo patamar
O debate técnico encontrou a agenda de mercado na palestra O Futuro da Proteína Suína, ministrada por Luis Rua, secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O pano de fundo é um setor em expansão.
O Relatório Anual 2026 da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) aponta que o País produziu 5,592 milhões de toneladas de carne suína em 2025, alta de 5,4% sobre o ano anterior, e manteve 2,248 milhões de matrizes ativas. O consumo per capita avançou de 18,6 para 19,1 quilos.
No mercado externo, o Brasil embarcou o recorde de 1,510 milhão de toneladas em 2025, alta de 11,6%, com receita de US$ 3,619 bilhões, de acordo com o balanço da ABPA. O resultado levou o País ao terceiro lugar entre os maiores exportadores mundiais em um ranking que considera a União Europeia como bloco, à frente do Canadá. As Filipinas lideraram os destinos, com 392,9 mil toneladas, seguidas por China, Chile, Japão e Hong Kong.
Rua ponderou que custo continua essencial, mas já não resume a competitividade. “É muito difícil falar de futuro, ainda mais em tempos incertos, de imprevisibilidade e de fragmentação no sistema internacional. Se antigamente falávamos de competitividade apenas como uma questão atrelada a custo, hoje ela ganhou novos atributos, como bem-estar animal e sustentabilidade”, afirmou.

Em entrevista exclusiva à Feed&Food, o secretário dividiu a trajetória recente das exportações em ciclos. A Rússia chegou a absorver cerca de 70% dos embarques brasileiros; depois, a China ampliou as compras diante das perdas provocadas pela peste suína africana, em 2019 e 2020; agora, as Filipinas ocupam a liderança.
A principal diferença do período atual, em sua avaliação, é a ampliação da carteira. “O que vimos nesses últimos anos é que o Brasil ampliou significativamente o número de mercados”, disse Rua, ao citar mais de 30 aberturas para a suinocultura entre elas México, República Dominicana e Peru e o acesso de mais plantas às Filipinas, ao Chile e a Singapura.
“Hoje vivemos um mercado complicado e precisamos procurar fora. Não adianta produzir enlouquecidamente se não tivermos mercado nacional e internacional”, advertiu. A diversificação, portanto, precisa avançar junto com a produção e a produtividade.
Os números mais recentes mantêm esse movimento. De janeiro a julho de 2026, o Brasil embarcou 925,6 mil toneladas, 9,1% acima do mesmo período de 2025, e faturou US$ 2,158 bilhões. Somente em julho foram 131,5 mil toneladas. Filipinas, Japão, Chile, China, Argentina, México, Hong Kong e Uruguai apareceram entre os principais destinos do mês, enquanto Santa Catarina respondeu por 64,6 mil toneladas e continuou na liderança estadual.
Para Rua, instabilidade geopolítica e tensões logísticas podem alongar as rotas, mas não eliminam o comércio. “O comércio sempre encontra os seus caminhos, às vezes mais longos, às vezes mais tortuosos.” Nesse ambiente, a cadeia precisa combinar escala e flexibilidade para atender diferentes destinos e padrões de demanda.
“Muitos países pensam cada vez mais em segurança alimentar. É aí que o Brasil entra como fornecedor seguro, estável e confiável”, acrescentou.
O secretário defendeu que produtores, frigoríficos e governo continuem abrindo mercados, mas também invistam na presença comercial e na comunicação dos atributos da carne brasileira. Qualidade, quantidade, sanidade, competitividade, complementaridade, estabilidade e sustentabilidade formam o conjunto que ele chama de sete “dades”.
“Quando apresentamos a proteína suína brasileira e mostramos que ela tem essas características, é difícil encontrar outro país que consiga reuni-las”, afirmou. Para ampliar a participação externa, disse, também será necessário tornar mais visíveis práticas já adotadas no País, como economia circular, biodigestores e reúso de água.
Geopolítica expõe forças e vulnerabilidades
A palestra de abertura, conduzida por Marcos Jank, professor sênior de agronegócio global do Insper e coordenador do Insper Agro Global, ampliou a análise para o sistema mundial de alimentos. Jank afirmou que o Brasil assumiu a liderança global nas exportações de commodities do agronegócio.
Um estudo do próprio centro mostra que esses embarques chegaram a US$ 137,7 bilhões em 2024, US$ 14,4 bilhões acima dos Estados Unidos. A comparação, entretanto, se refere às commodities agropecuárias e agroindustriais; quando entram especialidades de maior valor agregado, o Brasil ainda permanece atrás dos norte-americanos.
O especialista apontou os sistemas integrados de produção como uma das principais forças do País. “O produtor não está mais isolado, ele faz parte de um sistema. As cooperativas ficaram gigantes porque têm um sistema que protege o produtor”, afirmou. A integração, segundo Jank, ajudou a sustentar ganhos de produtividade e dá à cadeia capacidade de responder a um mundo que voltou a atribuir peso estratégico às commodities e à segurança alimentar.

A posição de grande fornecedor, contudo, convive com dependências. Jank citou fertilizantes, derivados de petróleo, gás natural, fretes, infraestrutura e logística entre os pontos de atenção.
A dimensão do risco é expressiva: levantamento do Insper Agro Global indica que o Brasil importou 41,3 milhões de toneladas de fertilizantes em 2024, equivalentes a aproximadamente 90% do consumo nacional. Cinco países forneceram cerca de dois terços dos fertilizantes NPK à base de nitrogênio, fósforo e potássio comprados no exterior, com Rússia e China respondendo, juntas, por 45%; o déficit comercial do segmento chegou a US$ 13,2 bilhões.
China e Brasil também mantêm uma relação de forte complementaridade. “A gente é o maior exportador para a China. Somos dependentes deles, e eles da gente”, resumiu Jank. O estudo do Insper estima que China e Hong Kong absorveram US$ 45,3 bilhões, ou quase 33%, das exportações brasileiras de commodities do agronegócio em 2024.
Ao lado das oportunidades, essa concentração reforça a necessidade de desenvolver destinos na Ásia e nas Américas, consolidar o reconhecimento de novas zonas sanitárias, investir em nutrição de precisão e automação e fortalecer o modelo de integração.
Para a suinocultura, Jank listou como desafios a volatilidade do milho e da soja, as exigências relacionadas a antimicrobianos, as tensões logísticas, o risco da peste suína africana e a escassez de mão de obra. Ainda assim, vê margem de expansão dentro e fora do País. “A suinocultura tem muito espaço para crescer, tanto no mercado interno quanto externamente”, disse.
O desempenho recente reforça a possibilidade, mas também a necessidade de diversificar: em 2025, 72,99% da produção brasileira permaneceu no mercado doméstico, e as exportações responderam por 27,01%.
Ao encerrar a abertura oficial, Aletéia destacou que a próxima etapa exigirá inovação, profissionais preparados, sustentabilidade e cooperação. “Nenhuma grande transformação acontece sozinha. A suinocultura só chegou onde está com a ajuda de cada um”, afirmou. “Grandes avanços nunca começam apenas nas empresas, e sim em eventos como este.”
Para a presidente do Nucleovet, a comunicação também será decisiva para ampliar o reconhecimento da cadeia no Brasil e no exterior. “O futuro não espera, e ele está acontecendo agora. O futuro da suinocultura já começou e estará reunido aqui.”
O 18º SBSS prossegue até quinta-feira (13), com painéis sobre biovigilância, imunonutrição, micotoxinas, saúde respiratória, ambiência, alimentação de precisão, gestão de pessoas e qualificação profissional. A programação completa está disponível no site do Nucleovet.



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