Camila Santos, de Presidente Prudente (SP)
Durante o Fórum O Boi Brasileiro: Produtivo por Natureza, realizado na Feicorte 2025, o médico-veterinário e diretor de Projetos da Rede ILPF, William Marchió, fez um apelo direto aos participantes: é hora de sair da zona de conforto e mostrar para a população urbana o valor da pecuária sustentável praticada no Brasil. “É muito fácil pregar para convertidos”, afirmou Marchió ao iniciar sua palestra. “Aqui entre nós, que já acreditamos no agro, é confortável. O desafio verdadeiro está em falar para os 95% de urbanóides que nunca pisaram numa fazenda e que acreditam, por desinformação, que a pecuária destrói a Amazônia.”
Marchió compartilhou o exemplo de uma experiência transformadora com um conhecido apresentador vegano, que visitou uma fazenda com sistemas integrados. “Ele passou três dias lá com a gente e depois criou o programa A Pecuária Possível, para mostrar que existe, sim, uma pecuária produtiva, regenerativa e sustentável. É esse tipo de diálogo que precisamos buscar.”
Ao apresentar dados concretos de uma fazenda real que adotou o sistema ILPF, Marchió destacou os avanços em produtividade e sustentabilidade. “Saímos de mil cabeças para mais de duas mil, usando agricultura em 600 dos mil hectares. Mesmo reduzindo a área da pecuária, a produtividade aumentou graças à intensificação sustentável. Passamos de uma emissão de 1.700 toneladas de carbono para uma remoção líquida de 620 toneladas”, detalhou.

Segundo o palestrante, a integração lavoura-pecuária-floresta começou com sistemas como o Santa Fé e o Barreirão, buscando soluções para áreas de pastagens degradadas. Ele citou o caso emblemático da Fazenda Santa Brígida, em SP, que saiu de prejuízo por hectare para se tornar uma unidade de referência tecnológica da Embrapa. “De quatro empregos diretos e prejuízo, passou a gerar produtividade, renda e servir de modelo replicável.”
Marchió destacou ainda os ganhos ambientais: “A matéria orgânica do solo subiu de 1,8% para 3,8%. A produção de soja passou de 0 a mais de 75 sacas por hectare. Lotação animal subiu de 0,5 para 6 UA/ha. A transformação foi total — social, econômica e ambiental.”
Para ele, o segredo está na safra invisível: as raízes. “Temos raízes de braquiária chegando a nove metros de profundidade. Isso é estruturação do solo, aumento de matéria orgânica, retenção de água. Cada 1% a mais de matéria orgânica significa 230 mil litros de água retidos por hectare. Isso é resiliência climática.”

Marchió também rebateu críticas ao gado como vilão ambiental. “O boi é um reciclador. Ele transforma forragem — que não serve para nós — em proteína nobre. Esse é o verdadeiro upcycling. E mais: estudos mostram que o pastejo estimula o crescimento radicular, melhorando o solo.”
Finalizando, o especialista reforçou o papel do Brasil como líder em pecuária sustentável. “Somos o único país do mundo capaz de fazer pecuária com intensa sustentabilidade, entregando serviços ambientais e sociais. E é isso que precisamos comunicar melhor — para o mundo e, principalmente, para os nossos próprios cidadãos urbanos.”
LEIA TAMBÉM:
São Paulo cria fundo exclusivo para indenizar pecuaristas em caso de febre aftosa





