Júlio O. J. Barcellos, Med.Vet., Professor, Coordenador NESPro/UFRGS
Instagram: julio_o_barcellos
Na pecuária de cria as tecnologias estratégicas são aquelas relacionadas com a gestão do conhecimento e dos processos, como o ajuste na temporada de acasalamento, desmame na idade correta, estratificação dos lotes de matrizes conforme seu escore de condição corporal, controle dos nascimentos, avaliação andrológica de touros, genótipo adaptado ao ambiente, carga animal compatível com o meio, entre outras. Essas tecnologias estão associadas ao processo de gestão, da operacionalidade do conhecimento, denominadas tecnologias de processos. Todas essas tecnologias e muitas outras em uso, somente são efetivas quando manejadas em conjunto, de forma integrada no sistema. Por outro lado, numa pecuária mais intensiva, característica da última década, as tecnologias de processo, de forma isoladas, não são suficientes para produzir maiores impactos nos resultados e a elas são incorporadas as tecnologias de insumos.
As tecnologias de insumos, sua própria denominação aponta para algo mais pontual, as quais são compráveis. Uma atividade clássica que usa como base esse tipo de tecnologia, são os cultivos agrícolas. Neles, o aumento na produtividade é resultado de poucos insumos, em geral resultantes dos avanços científicos – sementes, fertilizantes, defensivos, máquinas e implementos agrícolas – os quais têm uma capacidade inquestionável de mudar rápida e economicamente os níveis de produtividade. Estas tecnologias são de uso direto e geralmente vem de fora do sistema – in puts externos – são compradas, geralmente, produzem respostas mais tangíveis e rápidas, sendo que a sua adoção é praticamente imprescindível para o sucesso da atividade.

Por outro lado, agora trazendo o contexto para os sistemas de produção de bezerros, a cria, o avanço científico e tecnológico é desenvolvido dentro das universidades e centros de pesquisas. Este conhecimento pode ser facilmente transformado em tecnologias para serem disponibilizadas de forma mais global aos pecuaristas. Além disto, estes conhecimentos, como processos, quando empregados na produção não têm a capacidade de mudar substancialmente o resultado da atividade, pois a produtividade na cria depende de muitos fatores. Estes, se não forem gerenciados de uma forma sistêmica anulam os benefícios de uma tecnologia de conhecimento que foi introduzida isoladamente. Além disto, dificilmente uma empresa compra essa tecnologia e a transforma num insumo com marca. Portanto, na pecuária de cria as tecnologias estratégicas, conforme apontado anteriormente, são aquelas relacionadas com a gestão do conhecimento e dos processos.
Um outro aspecto interessante que separa subliminarmente uma tecnologia de insumo de uma tecnologia do conhecimento (processo) é a velocidade e a clareza com que se observam os efeitos de seus resultados. O uso do insumo agrícola “fertilizante nitrogenado” produz uma resposta rápida e perceptível no aumento da produção de forragem, não restando qualquer dúvida sobre o seu benefício. Por outro lado, o uso de um reprodutor de elevada DEP (diferença esperada na progênie) para peso ao desmame ou a manipulação da condição corporal no pós-parto, produzem resultados a médio prazo e pouco perceptíveis e, muitas vezes, duvidosos se a melhoria foi resultante de seus usos ou do clima, conjuntura favorável ou até mesmo do acaso.
A cria sempre foi tradicionalmente sustentada nos processos, mas com as mudanças estruturais da matriz de negócios, com a terra e a produção mais valorizadas, ela deixou de ser uma atividade em que se gastava pouco, subordinada especialmente no manejo, para um sistema de alta participação dos insumos. Portanto, é possível afirmar que atualmente, onde os insumos, de uso prioritário da recria e engorda, na cria eles já são responsáveis por mais de 50% dos resultados. Portanto, o pecuarista convive com esse novo modelo de uso de tecnologia, saindo do processo para o insumo. Um exemplo evidente neste momento é o uso generalizado de suplementação alimentar da vaca no pré-parto com misturas múltipla, o crescimento expressivo da Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) e seus protocolos hormonais de controle do ciclo estral da vaca. Porém, o importante é que o produtor de bezerros tenha suporte para decidir frente a esse novo modelo mental para adotar um tipo de tecnologia, pois, ainda que seus resultados sejam mais previsíveis, a obtenção dos benefícios depende da escolha da técnica e da sua execução, vale dizer a execução é a tecnologia de processos. Isto é muito importante, porque a pecuária brasileira entra em um ciclo de alta, muito atraente para intensificar a adoção das tecnologias de insumos. Neste sentido, sempre defendemos os processos com mandatórios na cria, e vários textos foram escritos sobre a ponderação e racionalidade ao uso dos insumos, dados os custos e os seus riscos inerentes, de não produzirem os resultados esperados, por falhas ao viabilizá-las operacionalmente.

Na pecuária de cria só existe uma tecnologia que poderia ser transformada em insumo e com resultados impactantes – alimentar bem a vaca – vaca em boa condição corporal sempre repete cria e desmama um bom bezerro. Ocorre que isto representa um elevado custo e, mesmo em fases de alta do bezerro, pode ser inviável economicamente. Deste modo, deve haver um equilíbrio entre insumos e processos para otimizar o uso de recursos e do conhecimento na atividade. Portanto, a decisão sobre a adoção de uma determinada tecnologia, em especial aquelas de insumos, pressupõem o uso de critérios inerentes à fazenda, que denominamos painel decisório. Estes critérios servem para identificar os aspectos que podem ser limitantes para a eficiência tecnológica e quando sensíveis, previamente mitigados para contornar as prováveis falhas que levam ao insucesso no processo. Por fim, cabe aos pecuaristas e técnicos, utilizarem critérios, com base em evidências científicas e técnicas, para a escolha apropriada tecnologia a ser empregada na cria.
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