Após quase uma década de restrições orçamentárias, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) iniciou um processo de reorganização financeira e institucional para garantir a continuidade da pesquisa agrícola no país. Sob a presidência de Silvia Massruhá, a estatal aposta em novos modelos de financiamento, recomposição do capital humano e ampliação da presença internacional para sustentar a competitividade do agronegócio brasileiro.
Primeira mulher a comandar a Embrapa em seus 53 anos de história, Massruhá assumiu a presidência em maio de 2023 diante de um cenário de forte pressão fiscal e envelhecimento do quadro técnico, consequência de anos de restrições a concursos públicos. “A ciência não funciona em ciclos curtos de financiamento. Pesquisa exige previsibilidade, continuidade e tempo”, afirma a presidente.
Entre 2014 e 2022, os recursos destinados diretamente ao custeio e ao investimento em pesquisa caíram de cerca de R$ 800 milhões para um piso de R$ 160 milhões. A partir de 2023, teve início uma recuperação gradual. Em 2025, essa rubrica alcançou R$ 335 milhões e, para 2026, a Lei Orçamentária Anual prevê aproximadamente R$ 410 milhões, dentro de um orçamento total de R$ 4,84 bilhões.
Apesar da recomposição, o montante ainda é considerado insuficiente para uma instituição que mantém 43 centros de pesquisa, atua nos seis biomas brasileiros, conta com cerca de 7,5 mil funcionários — dos quais 2,1 mil são pesquisadores — e responde por parcela relevante dos ganhos de produtividade do agro, responsável hoje por cerca de 25% do PIB nacional.
Para enfrentar o desafio, a Embrapa tem avançado em modelos híbridos de financiamento, com ampliação de parcerias público-privadas e maior aproximação com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no âmbito do programa Inova. Atualmente, a empresa mantém cerca de 1.170 acordos de inovação aberta com o setor privado, que geram, em média, R$ 100 milhões adicionais por ano para a pesquisa.
“O recurso público é indispensável para garantir imparcialidade e pesquisa de fronteira, que o mercado não financia. Mas ele não é suficiente”, afirma Massruhá. Segundo ela, a estratégia busca dividir riscos e acelerar a transferência de tecnologia, sem abrir mão do controle público sobre ativos estratégicos.

Um marco desse redesenho foi a criação, em 2024, do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT), que solucionou um entrave jurídico entre a Lei das Estatais e a Lei de Inovação. Com o novo arranjo, os royalties gerados pelas tecnologias da Embrapa podem ser reinvestidos diretamente em pesquisa, por meio de fundações de apoio, criando um ciclo financeiro mais previsível.
Paralelamente, a empresa iniciou em 2025 um processo de recomposição do quadro de pessoal, com a contratação de cerca de mil novos profissionais. A medida deve elevar o total de funcionários para 8,5 mil até 2026, com foco em áreas estratégicas como agricultura digital, biotecnologia, ciência de dados, inteligência artificial e sustentabilidade.
No campo científico, as prioridades se concentram em bioeconomia, descarbonização e rastreabilidade, temas que combinam demanda global, impacto ambiental e potencial de geração de valor. Tecnologias como a Fixação Biológica de Nitrogênio, desenvolvida pela Embrapa e adotada em milhões de hectares, ajudaram a reduzir a dependência de fertilizantes importados e renderam à pesquisadora Mariângela Hungria o Prêmio Mundial da Alimentação de 2025, considerado o “Nobel da Agricultura”.
A agenda climática também ganha destaque. A Embrapa fornece base técnica para políticas públicas e instrumentos financeiros, como o Zoneamento Agrícola de Risco Climático, hoje requisito para acesso ao crédito rural e ao seguro agrícola. “Quando a ciência vira métrica confiável, o risco cai. E quando o risco cai, o crédito flui”, resume Massruhá.
Outro pilar da estratégia é o fortalecimento da atuação internacional. Além das unidades de pesquisa nos Estados Unidos e na França, a empresa ampliou sua presença na África com a abertura de um escritório em Adis Abeba, na Etiópia, voltado à cooperação com a União Africana. Novas parcerias estão em negociação na Ásia, na América Central e no Oriente Médio.
Para a presidente, a internacionalização é parte do papel estratégico da instituição. “A agricultura tropical é um ativo do Brasil. Estar presente nos fóruns e projetos globais é uma responsabilidade científica e geopolítica”, afirma.
Ao combinar reorganização financeira, renovação do capital humano e maior inserção internacional, a Embrapa busca assegurar que a ciência continue sendo um dos pilares centrais — ainda que silenciosos — da competitividade do agronegócio brasileiro nas próximas décadas.
Fonte: Forbes, adaptado pela equipe da Feed & Food.
LEIA TAMBÉM:
MBRF passa a integrar a COBEA e reforça agenda de bem-estar animal no Brasil
Portos do Paraná movimentam 73,5 milhões de toneladas em 2025 e registram maior alta entre grandes complexos do País
FGV alerta para imprevisibilidade de Trump como principal risco à balança comercial brasileira em 2026





