Uma família de agricultores do município de Novo Xingu, no norte do Rio Grande do Sul, perdeu 48 vacas leiteiras em um intervalo de apenas três dias. A principal suspeita é de que os animais tenham morrido em decorrência de uma intoxicação por excesso de nitrito, composto formado por nitrogênio e oxigênio que pode ser tóxico quando ingerido em altas concentrações.
O episódio provocou um prejuízo estimado em cerca de R$ 600 mil aos produtores rurais, considerando a perda dos animais e o impacto na produção de leite.
A Inspetoria Veterinária de Constantina, responsável pelo atendimento à região, realizou a coleta de amostras de vísceras dos animais, além de água, ração, silagem e pastagem utilizadas na propriedade. O material foi encaminhado para análise laboratorial, mas ainda não há previsão para a divulgação dos resultados.
Enquanto os exames não são concluídos, a avaliação preliminar de técnicos e especialistas aponta para a possibilidade de intoxicação alimentar como a causa mais provável das mortes.
A Feed & Food foi conversar com exclusividade com Maíza Scheleski, Técnica responsável pela Associação dos Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando). Ela explica que o caso de Novo Xingu, ao que tudo indica os 48 animais morreram devido a uma intoxicação via pastagem. “Antes de explicar como uma pastagem se torna tóxica, a gente precisa entender que a pastagem, para crescer e se desenvolver ela precisa de três coisas básicas, que são: água, luz e gás carbônico. E a falta de um desses elementos além de prejudicar o crescimento e desenvolvimento dela, pode tornar ela tóxica”, explica. “E normalmente isso acontece em dois extremos: primeiro deles: é quando temos falta de chuva por muito tempo, aí chove e depois da chuva a pastagem fica com excesso de nitrato em suas folhas. Segunda situação extrema: é quando tem falta de luminosidade, por exemplo quando temos muitos dias de chuva, ou dias nublados, seguido de dias de sol, nesse caso a pastagem também poderá ter excesso de nitrato em suas folhas. Principalmente se dias antes de fazer sol a pastagem foi adubada de alguma forma. Inclusive, vale salientar que o excesso de adubação com nitrogênio também pode intoxicar a pastagem”, detalha.

Maíza Scheleski explica que uma das situações mais comuns é quando os animais consomem pastagem com excesso de nitrato nas folhas, que é justamente o que torna esse pasto tóxico. “A vaca, então, entra no pasto, consome essa forragem e, lá dentro do rúmen, esse nitrato passa por transformações: ele vira nitrito e depois é convertido amônia. O problema acontece quando essa transformação não acompanha o ritmo do consumo. Ou seja, o nitrito é formado mais rápido do que consegue ser convertido em amônia, e aí ele começa a se acumular no rúmen”, diz.
Esse nitrito acumulado, segundo ela, então é rapidamente absorvido, cai na corrente sanguínea e passa a impedir que o sangue transporte oxigênio pelo corpo. “De forma bem simples, é como se a vaca estivesse sem oxigênio por dentro, mesmo respirando normalmente. E é por isso que, em muitos casos, os sinais aparecem rápido e a perda de animais pode acontecer em pouco tempo”, afirma.
Cuidados que os produtores devem ter para evitar intoxicação das vacas
De forma geral, a principal prevenção é ter um manejo correto da pastagem, diz Maíza. “Normalmente a pastagem terá excesso de nitrato em suas folhas após a adubação, quando ela ainda for “nova” ou seja na fase inicial de crescimento, ou mesmo depois de passar por períodos de estresse climático vamos dizer assim. Então um dos primeiros cuidados é evitar colocar os animais em pastagem recém-adubada”, aponta. “Também é importante ter atenção após vários dias seguidos de chuva e tempo nublado, quando depois aparece sol, ou então o contrário, períodos longos de seca seguidos de chuva. Nessas situações, o ideal é aguardar alguns dias antes de liberar os animais para o pastejo”, aponta.
Outro ponto importante, de acordo com a especialista, é evitar pastagem muito nova, em inicial de crescimento. “Além disso, não se deve soltar o animal com muita fome no pasto, porque ele tende a consumir grandes quantidades rapidamente, aumentando o risco de intoxicação. O ideal é oferecer um volumoso seguro, como silagem ou feno, antes de levar os animais à pastagem. E, sempre que os animais forem colocados em uma pastagem pela primeira vez, essa entrada deve ser feita de forma gradual, começando com poucas horas por dia e aumentando o tempo de pastejo aos poucos, permitindo a adaptação dos animais”, finaliza Maíza Scheleski, Técnica responsável pela Associação dos Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando).
Reportagem: Kevin Nascimento
Texto final: Giovana de Paula
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