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SBSS integra biosseguridade, nutrição e tecnologia para fortalecer a suinocultura

Programação desta quarta-feira discutiu prevenção da PSA, controle de vetores, sobrevivência, microbioma e micotoxinas.

KROMA FOTOGRAFIAS

A integração entre defesa sanitária, alimentação e tecnologia orientou os debates desta quarta-feira (12), durante o 18º Simpósio Brasil Sul de Suinocultura (SBSS), realizado no Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo de Nes, em Chapecó (SC). Médicos-veterinários e pesquisadores discutiram como prevenção, monitoramento e interpretação de dados podem reduzir riscos e sustentar o desempenho produtivo.

Promovido pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet), o evento também recebe a 17ª Brasil Sul Pig Fair e a Granja do Futuro. Os espaços reúnem mais de 50 empresas nacionais e multinacionais e aproximam as discussões científicas de soluções aplicadas em áreas como biosseguridade, nutrição, automação e ambiência. A programação segue até quinta-feira (13).

Biosseguridade precisa antecipar o risco

O médico-veterinário espanhol Jordi Baliellas Capdevila abriu o Painel Biovigilância – Gestão Integrada com a palestra “Biomanagement e Defesa Sanitária: Estratégias de Mitigação”. A experiência recente da Espanha com a Peste Suína Africana (PSA) serviu de alerta para a necessidade de proteger as criações comerciais antes que o vírus ultrapasse a fauna silvestre.

A Espanha confirmou a presença da doença em javalis em novembro de 2025, após mais de três décadas sem registros. De acordo com a atualização publicada pelo Ministério da Agricultura espanhol em 6 de agosto de 2026, o país contabilizava 66 focos, com 375 javalis positivos distribuídos por 13 municípios da Catalunha. Outros 10.325 animais haviam apresentado resultado negativo e nenhum caso havia sido detectado em suínos domésticos. Ministério da Agricultura da Espanha. “É vital a biossegurança, porque é um vírus que tem uma persistência muito alta no ambiente. A transmissão pode ocorrer pelo contato direto entre javalis e suínos, mas também de forma indireta, por meio de pessoas, veículos, produtos cárneos, calçados e outros elementos contaminados”, alertou Capdevila.

O protocolo apresentado pelo especialista reúne quatro frentes: zoneamento e restrições de movimentação; busca, remoção e análise de cadáveres; instalação de cercas perimetrais; e redução controlada da população de javalis por captura ou caça. A estratégia exige separação entre áreas limpas e sujas, troca de roupas e calçados, higienização de equipamentos e desinfecção de veículos.

Capdevila também defendeu sistemas de vigilância capazes de identificar rapidamente a circulação viral. Entre as medidas estão a utilização de testes PCR em javalis encontrados mortos, a capacitação das equipes para coleta e destinação dos cadáveres e a integração entre autoridades sanitárias, produtores, veterinários, agentes rurais e profissionais ligados à fauna silvestre. “O mais importante é uma atuação conjunta, pois há vários departamentos e áreas envolvidos para auxiliar no combate à PSA. Precisamos ter uma grande integração”, afirmou.

Vetores também ameaçam as granjas

Na sequência, o médico-veterinário Alisson Mezalira abordou o papel de roedores, moscas e baratas na manutenção e disseminação de agentes infecciosos. Além das enfermidades que podem comprometer a saúde dos suínos, esses vetores estão relacionados a zoonoses, danos às instalações, desperdício de ração e estresse dos animais. “Ratazanas, por exemplo, podem permanecer por até dois anos no mesmo sistema, perpetuando essas doenças e aumentando o risco sanitário”, explicou.

Segundo Mezalira, não existe um programa único de controle capaz de atender igualmente a todas as propriedades. O trabalho deve começar pelo mapeamento da granja, identificação dos locais de circulação e abrigo, definição dos pontos de monitoramento e distribuição estratégica de iscas.

As equipes também precisam reconhecer fezes, trilhas, tocas, materiais roídos e outros sinais da presença de vetores. “Devemos implantar um programa de controle com croquis, mapas e distribuir as iscas estrategicamente. A identificação desses sinais permite uma intervenção mais rápida e direcionada”, salientou.

A redução das populações de vetores, acrescentou, contribui para diminuir a pressão de infecção e pode apoiar o uso prudente de antimicrobianos.

Sobrevivência entra no cálculo da nutrição

No Painel Alimentação – Desafios e Oportunidades, o pesquisador José Soto direcionou a discussão para a sobrevivência dos animais. Dados apresentados durante a palestra apontaram mortalidade acumulada do nascimento ao abate próxima de 16% no Brasil e de 23% nos Estados Unidos. No cenário brasileiro, isso significa que aproximadamente cinco de cada seis suínos nascidos chegam à comercialização. “A sobrevivência dos animais tem um impacto econômico. Precisamos entender quais estratégias nutricionais podemos utilizar para reduzir a mortalidade, aumentar a sobrevivência e melhorar a rentabilidade da produção”, afirmou.

Soto apresentou resultados de um programa de pesquisa desenvolvido nos Estados Unidos, com até 30 experimentos anuais e mais de 40 mil suínos avaliados, principalmente na fase de creche. As estratégias estudadas incluem carboidratos funcionais, fibras, acidificantes e outros aditivos nutricionais, empregados individualmente ou de forma combinada.

Uma das abordagens foi a fração rica em mananos, conhecida pela sigla MRF, obtida da parede celular de leveduras. De acordo com os estudos apresentados, a suplementação pode dificultar a adesão de determinados patógenos à mucosa intestinal e apoiar a barreira e a resposta imunológica. Experimentos com matrizes também avaliaram possíveis reflexos sobre a competência imunológica e o desempenho da progênie.

Em um teste comercial envolvendo mais de 10,6 mil leitões, uma das estratégias avaliadas foi associada à redução da proporção de refugos de 8% para 3,4%. Para Soto, resultados como esse demonstram que a avaliação nutricional precisa considerar sobrevivência, retirada de animais e capacidade de enfrentar desafios sanitários, e não somente ganho de peso.

O pesquisador ainda chamou a atenção para a combinação adequada entre fibras solúveis e insolúveis e para a acidificação das dietas após o desmame. Nessa fase, a capacidade limitada de produção de ácido clorídrico pode elevar o pH gástrico, prejudicar a digestão de proteínas e favorecer microrganismos indesejáveis.

Pesquisador José Soto.

Microbioma conecta dieta e imunidade

O professor Andres Gomez, da Universidade de Minnesota, defendeu que saúde e nutrição sejam analisadas de forma conjunta. Segundo ele, o microbioma intestinal funciona como um elo entre a dieta, o sistema imunológico e o desempenho dos suínos. A alimentação, portanto, pode modular a capacidade de resposta dos animais aos desafios sanitários. Universidade de Minnesota

Entre as ferramentas apresentadas estiveram fibras, aminoácidos, lipídios, vitaminas, minerais e estratégias eubióticas, como prebióticos, probióticos, paraprobióticos, pós-bióticos e simbióticos. “Quando surge uma doença, a primeira coisa em que pensamos são os antibióticos. Mas, se tivermos um programa nutricional adequado para prevenção a longo prazo, talvez não precisemos depender tanto desses medicamentos”, avaliou Gomez.

O pesquisador ponderou que os antimicrobianos continuam sendo necessários diante de determinadas emergências, mas o uso recorrente pode afetar microrganismos benéficos e alterar o equilíbrio intestinal. Também destacou que fibras fermentáveis estimulam a produção de ácidos graxos de cadeia curta, como acetato, propionato e butirato, relacionados à integridade da barreira intestinal e à modulação da resposta imunológica.

Palestrante Andres Gomez destacou que saúde e nutrição não devem ser tratadas de forma separada.

Micotoxinas exigem monitoramento contínuo

Encerrando a programação da manhã, o médico-veterinário Ricardo Hummes Rauber mostrou que a gestão de micotoxinas não pode se limitar à confirmação de sua presença em uma única amostra.

“A pergunta útil deixou de ser ‘tem micotoxina?’ e passou a ser ‘quanto, com que frequência e o que eu faço com esse número?’”, resumiu.

Em uma base de monitoramento apresentada durante a palestra, fumonisinas foram identificadas em 84,3% das amostras de ração e em 88,8% das amostras de milho. A zearalenona apareceu em 47,9% das rações analisadas. Os percentuais referem-se ao conjunto de dados exibido pelo palestrante e não devem ser interpretados como uma prevalência nacional.

Rauber explicou que as perdas podem surgir antes dos sinais clínicos, por meio de menor consumo, pior conversão alimentar, desuniformidade, refugagem, falhas reprodutivas, diarreias recorrentes e comprometimento da resposta vacinal.

“Às vezes vemos falhas vacinais ou doenças que teoricamente deveriam estar controladas e pensamos em muitas coisas antes de pensar em micotoxinas. E a maioria delas pode causar imunossupressão”, destacou.

A qualidade da amostragem foi apresentada como um dos pontos mais vulneráveis do processo. Em uma comparação mostrada pelo especialista, a coleta respondeu por 95% da variância total no método manual e por 71% no automático, evidenciando que um resultado laboratorial preciso também depende de uma amostra representativa.

Para organizar os dados, Rauber apresentou um índice que combina concentração, prevalência e sensibilidade da categoria animal. “O índice utiliza os dados de monitoria e gera um número com uma interpretação única. Isso ajuda muito quem está no campo”, explicou.

O médico-veterinário Ricardo Hummes Rauber destacou que a presença de micotoxinas não deve ser tratada como um evento isolado.

Pig Fair aproxima inovação da rotina das granjas

Paralelamente à programação científica, a 17ª Brasil Sul Pig Fair e a Granja do Futuro aproximam os congressistas de tecnologias desenvolvidas para diferentes etapas da produção. Mais de 50 empresas nacionais e multinacionais participam da feira, que reúne soluções nas áreas de biosseguridade, diagnóstico, genética, nutrição, vacinas, aditivos, equipamentos, automação, ambiência e bem-estar animal.

Entre as principais tendências observadas estão a alimentação de precisão, a automatização de tarefas, o monitoramento das condições produtivas e o desenvolvimento de equipamentos voltados à redução do esforço físico nas granjas. Essas tecnologias ganham relevância diante de desafios como a escassez de mão de obra, a necessidade de reduzir desperdícios e a busca por maior controle sobre os indicadores produtivos.

A higiene das instalações e o fortalecimento da biosseguridade também ocupam espaço na exposição. Sistemas de dosagem, equipamentos para limpeza e soluções destinadas ao controle da umidade demonstram como a prevenção sanitária discutida nas palestras pode ser incorporada à rotina das propriedades.

Na área de maternidade e gestação, as inovações apresentadas procuram conciliar alimentação individualizada, acompanhamento dos animais e maior liberdade de movimentação das matrizes. O objetivo é oferecer aos profissionais alternativas para elevar a precisão do manejo sem deixar de considerar o bem-estar animal.

A integração entre o simpósio e a feira permite que os conceitos discutidos nos painéis sejam observados em aplicações práticas. Dessa forma, diagnóstico, prevenção, nutrição e monitoramento deixam de aparecer como ações isoladas e passam a compor uma gestão orientada por dados, eficiência sanitária e adaptação às particularidades de cada sistema produtivo.

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