A diarreia neonatal segue entre os principais desafios sanitários da suinocultura, com impacto direto sobre mortalidade, ganho de peso e uniformidade dos lotes. Entre os agentes virais associados ao problema, os rotavírus já são amplamente reconhecidos, especialmente o Rotavírus do grupo A (RVA). No entanto, evidências recentes apontam que o Rotavírus do grupo C (RVC) pode ter participação mais relevante do que se considerava anteriormente.
Em artigo técnico assinado por Julia Helena Montes e Karina Sonalio, o aumento da ocorrência de rotavirose em leitões no Brasil é relacionado a uma maior taxa de positividade para RVC, inclusive em amostras negativas para RVA. Dados laboratoriais dos últimos três anos, citados pelas autoras, mostram que 35,23% das amostras de leitões lactentes com diarreia tiveram detecção de rotavírus.
Dados apontam presença expressiva do RVC
Na tipificação das 1.601 amostras avaliadas, 19,05% foram positivas para RVA, 17,74% para RVC e 2,25% para Rotavírus do grupo B (RVB). Também foram identificadas codetecções entre diferentes grupos virais no mesmo material, com 9,22% dos casos positivos envolvendo RVA e RVC ao mesmo tempo.
Para as autoras, esses resultados sugerem uma possível mudança no perfil epidemiológico das rotaviroses suínas. O cenário reforça a importância de incluir o RVC de forma mais frequente nos protocolos de diagnóstico de diarreia neonatal, principalmente em granjas comerciais com surtos recorrentes.

Estudo canadense reforça associação com diarreia
Um estudo publicado em 2025 na revista Veterinary Microbiology também apontou a relevância clínica do RVC em sistemas comerciais de produção de leitões. A pesquisa foi conduzida em 19 unidades produtoras durante episódios de diarreia em leitões lactentes, com coleta de amostras de animais doentes, leitões saudáveis, matrizes e ambiente de maternidade.
O RVC foi detectado em 100% das granjas avaliadas durante os episódios de diarreia. Na análise por lote, os leitões de grupos positivos para RVC apresentaram 7,1 vezes mais chance de desenvolver diarreia. Já o RVA não teve associação estatística significativa com a ocorrência clínica no estudo, apesar da alta prevalência encontrada nos animais avaliados.
Ambiente pode atuar como fonte de reinfecção
Outro ponto de atenção é a presença do vírus no ambiente da maternidade. O estudo canadense identificou RVC em baias, portas, escamoteadores, ventiladores, carrinhos e painéis móveis, com 32,4% das amostras ambientais positivas. As sequências virais encontradas no ambiente eram geneticamente idênticas às detectadas nos leitões da mesma sala.
Esse achado indica que o ambiente pode atuar como fonte de infecção e reinfecção dentro da maternidade, ampliando o desafio de controle. Além disso, a baixa detecção de RVC em matrizes lactantes, de apenas 4%, sugere que a eliminação fecal pelas fêmeas pode ser limitada, mas a imunidade colostral específica contra o agente também pode ser insuficiente.
Diagnóstico ampliado é medida estratégica
Diante desse cenário, o RVC deve ser considerado um agente importante na investigação de surtos de diarreia neonatal em leitões. A alta prevalência em granjas com episódios clínicos, a associação estatística com diarreia ao nível de lote e a detecção ambiental reforçam a necessidade de protocolos mais abrangentes.
Para a suinocultura, a ampliação do diagnóstico pode contribuir para decisões sanitárias mais precisas, especialmente em maternidades com histórico de rotavirose. O monitoramento do RVC, aliado a medidas de limpeza, desinfecção e controle ambiental, tende a ganhar importância na prevenção de perdas produtivas e na melhoria da uniformidade dos lotes.




