Por I Helena Xavier Fagundes, Elizabeth Azevedo Kuhn,Júlio Barcellos – NESPro
O desmame é um momento crucial no ciclo produtivo dos bovinos de corte e ocorre a partir do mês de março na maior parte do Brasil em função da estação de nascimentos, da estacionalidade da produção e disponibilidade de forragem. O desmame marca uma transição entre a dependência do bezerro de sua mãe e uma vida independe, o que exige diversas adaptações fisiológicas, comportamentais e nutricionais dos bezerros, o que representa um grande estresse na vida desses animais durante essa prática de manejo. A separação da vaca, as novas dietas e manejos e, muitas vezes, o transporte para outras unidades de produção, geram grandes impactos.
A separação do bezerro e da vaca resulta em aumento das vocalizações, da agitação e mudanças de comportamento que trazem também riscos de lesões durante o manejo da desmama. Há diversos estudos que apontam essa separação abrupta como ativadora das respostas neuroendócrinas associadas ao estresse, o que eleva os níveis de cortisol e, consequentemente, impacta negativamente o comportamento e a ingestão alimentar. Além disso, esse aumento do cortisol afeta o sistema imune dos bezerros, tornando-os suscetíveis à diversas doenças de ocasião, como diarreia e enfermidades respiratórias. Também é importante lembrar que a interrupção da amamentação com a introdução de uma dieta exclusivamente sólida pode causar redução no ganho de peso ou até perda do escore de condição corporal em função da adaptação à nova nutrição, especialmente quando a vaca produz leite em quantidades que contribuam para a alimentação do bezerro.
Existem estratégias de desmame conforme a idade dos bezerros: desmame hiperprecoce (por volta dos 35-40 dias de idade); desmame precoce (aos 60-75 dias de vida), desmame antecipado (90-120 dias) e o desmame convencional (180-240 dias). O desmame convencional é o mais adotado no Brasil, pois ocorre quando o bezerro já desenvolveu uma capacidade ruminal suficiente para digerir as fibras da dieta predominante no caso de animais criados a pasto. Já os desmames hiperprecoce e precoce são usados em casos específicos. Essa estratégia pode ser interessante para confinamentos, para aumentar a eficiência reprodutiva das vacas ou quando as condições das pastagens são muito limitadas e, nesse caso, realizar o desmame precoce pode acelerar o crescimento dos bezerros, pois o alimento adicional será superior ao pouco de leite que ele recebe diariamente. Apesar dessas vantagens, esse tipo de desmame exige uma suplementação rigorosa e maior atenção ao manejo sanitário, já que o sistema imunológico é mais afetado, pois os animais ainda dependem da imunidade passiva fornecida pelo leite materno. Além disso, nos primeiros meses de vida do bezerro a mãe o ensina a escolher os melhores pastos, reconhecer fontes de água e evitar plantas tóxicas, por isso, quando o desmame ocorre de forma abrupta ou em idades muito jovens (inferior a 75 dias), pode ocorrer falha nesse aprendizado, o que compromete o desempenho futuro do animal.
Para alcançar o sucesso em qualquer estratégia de desmame é necessário utilizar práticas de manejo que minimizem o estresse e, consequentemente, reduzam as perdas produtivas. A separação gradual da vaca é um dos manejos que pode ser benéfico para os animais, utilizar cercas separadoras permite que mãe e filho permaneçam com contato visual e olfativo, apesar de impedir a mamada. Além disso, o acesso prévio à suplementação e água de qualidade melhora a adaptação à nova dieta. Também é importante evitar múltiplos estressores simultâneos, como vacinação, castração e transporte, que devem ser planejados para não coincidirem com o desmame.

O acesso à sombra é outra questão importante quando se pensa em bem-estar de bovinos, especialmente nas regiões de temperaturas mais elevadas no outono. Assim, assegurar que os bezerros tenham acesso à sombra diminui o estresse térmico e melhora o seu bem-estar no período do desmame. Ademais, um protocolo sanitário adequado é essencial para prevenir as doenças que podem afetar os animais nessa fase. A vacinação contra as clostridioses, como carbúnculo sintomático e enterotoxemia, é feita antes do desmame para garantir uma imunização adequada anterior ao período crítico devido ao estresse e a mudança de dieta. As vacinas contra as doenças respiratórias, como Rinotraqueíte Infecciosa Bovina, Diarreia Viral Bovina, Vírus Parainfluenza Tipo 3, entre outros, também podem ser realizadas antes do desmame O controle de parasitos deve considerar a realidade sanitária de cada região, pois recomenda-se uma vermifugação estratégica dependendo da incidência de parasitas gastrointestinais, pulmonares e ectoparasitas (moscas e carrapatos).
Preparar os bezerros para o desmame reduz os impactos negativos desse momento e existem técnicas de manejo que podem auxiliar na adaptação ao novo ambiente. Por exemplo, o creep-feeding, um sistema de suplementação alimentar utilizado ainda durante o aleitamento, permite que somente os bezerros tenham acesso a concentrados de qualidade enquanto ainda estão com as mães, pode acelerar o desenvolvimento ruminal e reduzir a dependência do leite, o que garante um crescimento mais uniforme e possibilita menor estresse na transição alimentar, pois os animais tiveram um contato prévio com a nova dieta. Outra prática que pode contribuir para esse período é o treinamento alimentar, já que bezerros habituados a consumir ração e ao manejo humano, sofrem menos impactos no momento da separação. Além disso, estudos recentes avaliaram a administração de uma ‘’substância apaziguadora materna bovina’’ (mBas), que promete reduzir os efeitos fisiológicos do estresse. Os autores observaram que os bezerros recém-desmamados tratados com essa substância apresentaram menores níveis de cortisol, menor incidência de doenças respiratórias e, consequentemente, melhor desempenho no pós-desmame.
A partir de todas essas informações, é possível concluir que o desmame é um processo desafiador, mas que pode ser manejado de forma mais eficiente através de estratégias que minimizam o estresse e proporcionem uma adaptação mais adequada dos bezerros. As novas tecnologias estudadas (substâncias apaziguadoras) aliadas a técnicas mais antigas, como os métodos graduais e a suplementação estratégica, podem melhorar o bem-estar e o desempenho produtivo desses animais. Um desmame bem planejado resulta em bezerros mais saudáveis, reduz as perdas e melhora a eficiência econômica dos sistemas de produção de carne no Brasil.
Autores:
Helena Xavier Fagundes – É mestranda do Programa de Pós-graduação em Zootecnia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e integrante do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva – NESPro
Elizabeth Azevedo Kuhn – É estudante de Medicina Veterinária e Bolsista de IC Voluntária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS
Júlio Barcellos – É Médico Veterinário, Doutor em Produção Animal, Prof. Titular do Departamento de Zootecnia da Faculdade de Agronomia da UFRGS. Atua em ensino, pesquisa, extensão e inovação nas áreas de Sistemas de Produção de Bovinos de Corte, com ênfase especial na gestão de tecnologia, tomada de decisões e tecnologias de processos. É coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva – NESPro
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