O descompasso entre a lógica do mercado financeiro e o ritmo real da agricultura tem se tornado cada vez mais evidente no Brasil. Modelos de investimento baseados em retornos rápidos, ciclos curtos e métricas trimestrais não dialogam com setores estruturantes como agricultura, bioeconomia e cadeias de baixo carbono, que dependem do tempo do solo, do clima e da maturação técnica dos projetos.
A agricultura, responsável por parcela relevante do PIB e das exportações brasileiras, exemplifica essa desconexão. Enquanto fundos e investidores operam com horizontes de dezoito a vinte e quatro meses, os sistemas produtivos do campo seguem ciclos naturais de cinco a dez anos. Essa diferença cria uma lacuna entre capital disponível e oportunidades reais de geração de valor no longo prazo, especialmente na transição para uma economia agrícola mais sustentável.
O debate ganhou ainda mais visibilidade durante a COP30, realizada em novembro, em Belém. Apesar do discurso global favorável à agricultura regenerativa, aos bioinsumos e à redução de emissões, o volume de recursos direcionado a essas frentes permanece aquém das necessidades do país. A escala do desafio exige investimentos compatíveis com a dimensão do agronegócio brasileiro e com seu potencial estratégico.

A dependência externa de insumos é outro ponto sensível. O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, mesmo contando com tecnologias nacionais de base mineral e orgânica, com menor pegada de carbono e liberação gradual de nutrientes. Enquanto o modelo convencional de fertilizantes pode emitir cerca de 1,8 tonelada de CO₂ por tonelada produzida, soluções nacionais operam com emissões significativamente inferiores e contribuem para a saúde do solo e a segurança produtiva.
Apesar dessas vantagens, empresas brasileiras de tecnologias limpas enfrentam barreiras por operarem em ciclos de retorno mais longos. A dificuldade de acesso a capital com horizonte compatível com a economia real limita a escala de soluções que combinam competitividade, impacto ambiental positivo e redução de riscos geopolíticos.
O financiamento adequado da agricultura de baixo carbono exige instrumentos alinhados ao ciclo agrícola, como fundos de longo prazo, juros compatíveis com a produção e mecanismos de garantia que considerem a natureza biológica do setor. Financiar essa transição não é apenas uma escolha tecnológica, mas estratégica para fortalecer a competitividade global, reduzir emissões e assegurar o futuro econômico do país.
Fonte: George Fernandes, CEO da Morro Verde, adaptado pela equipe Feed&Food
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