Uma fazenda pode produzir muito, gerar lucro e, ainda assim, ser um negócio frágil no longo prazo. O alerta é de José Luiz Tejon Megido, professor, consultor, palestrante e articulista da Feed&Food. Para ele, bons resultados podem reduzir a percepção de que mudanças ainda são necessárias. “O sucesso costuma ser o maior inimigo do futuro”, afirma.
Em entrevista à Feed&Food durante o 15º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite (SBSBL), em Chapecó (SC), Tejon explica que produtividade e rentabilidade precisam caminhar junto à capacidade de adaptação. “Você pode ser produtivo e estar dando lucro dentro de uma atividade que não tem futuro”, alerta. Por isso, acompanhar mudanças no mercado, no consumo, na ciência e na tecnologia também faz parte da gestão da fazenda.
Conhecimento e caixa reduzem vulnerabilidades
A abertura ao conhecimento é apontada como um dos caminhos para manter o negócio competitivo. Tejon recomenda aproximação com pesquisadores, assistência técnica, cooperativas, empresas e outros produtores para identificar práticas e tecnologias capazes de melhorar os resultados. “Aprender, aprender, aprender, aprender é o fundamento”, resume.
O aprendizado, porém, precisa ser acompanhado por segurança financeira. Tejon lembra que o agro atravessa ciclos de preços e custos favoráveis e desfavoráveis e defende que os períodos positivos sejam utilizados para preparar a fazenda para momentos de maior pressão sobre as margens. “Caixa. É sagrado para você ter uma empresa de longo prazo”, afirma.
Fazenda não pode depender de uma pessoa
A concentração das decisões e do conhecimento no proprietário também pode tornar o negócio vulnerável. Questionado sobre o que demonstra que uma fazenda está preparada para continuar mesmo sem depender exclusivamente de seu dono, Tejon responde de forma direta: “É a equipe. Você dificilmente vai tocar uma fazenda moderna sozinho”.

Na avaliação do professor, a propriedade precisa reunir pessoas com competências diferentes em administração, tecnologia, análise e operação. Liderar esse grupo exige mais do que distribuir tarefas: passa por criar confiança para que colaboradores possam apresentar opiniões, apontar problemas e participar das decisões. “Eu diria que a atividade mais difícil que tem é aprender a liderar”, afirma Tejon.
O aprendizado da própria liderança também é contínuo. Reconhecer erros, desenvolver pessoas e tomar decisões sem comprometer a segurança do negócio fazem parte desse processo. Para Tejon, o objetivo não deve ser concentrar conhecimento, mas construir uma equipe capaz de manter a fazenda funcionando e evoluindo ao longo do tempo.
Sucessão começa antes da saída
A continuidade também depende de preparar quem assumirá responsabilidades no futuro. Para Tejon, a sucessão não deve começar apenas quando o proprietário decide se afastar da condução direta do negócio. “A maior obra de um líder é saber sair. Para saber sair, você tem que preparar a sucessão”, afirma.
O processo pode envolver familiares ou outros profissionais preparados para assumir funções de gestão. Tejon também recomenda a formação de conselhos com participação de pessoas externas à propriedade, capazes de oferecer opiniões independentes e abordar questões que familiares ou integrantes da própria equipe podem ter dificuldade de colocar em discussão.
Mais do que escolher quem ocupará o lugar do atual gestor, preparar a sucessão significa formar pessoas, distribuir responsabilidades e criar condições para que a fazenda continue tomando decisões e acompanhando as mudanças mesmo quando deixa de depender diretamente de uma única liderança. Para Tejon, esse cuidado precisa existir inclusive nos períodos de bons resultados: “Muito cuidado, o sucesso pode ser inimigo da evolução”.



Nenhuma discussão ainda. Seja o primeiro a comentar.