A inteligência artificial (IA) e a automação ganham espaço no agronegócio como ferramentas para reduzir custos, evitar paradas de máquinas e aumentar a eficiência das operações agrícolas. Soluções que combinam visão computacional, análise preditiva, conectividade e autonomia permitem otimizar o uso de insumos e melhorar o aproveitamento das janelas de plantio, pulverização e colheita.
O avanço dessas tecnologias foi tema do painel “Inteligência artificial e automação no agro e o impacto em produtividade e nas operações no campo”, realizado em 8 de outubro, durante o Congresso SAE Brasil 2026, em São Paulo. O debate reuniu representantes da PTx, marca de agricultura de precisão da AGCO, John Deere e Jacto, com mediação de Adriano Becker, gerente de Tecnologia de Precisão da CNH.
Durante o encontro, Giancarlo Fasolin, gerente estratégico de Marketing para a América Latina da PTx, destacou que a adoção de soluções digitais está relacionada a desafios como a escassez de trabalhadores rurais e a necessidade de executar operações dentro de períodos cada vez mais restritos.
Dados da CNA e do Cepea-Esalq/USP citados na apresentação indicam que aproximadamente 95% dos empregadores rurais relatam dificuldades para contratar profissionais. Segundo o levantamento mencionado, 49% já registraram atrasos nas operações e 42% reduziram a produção em decorrência desse problema.
“A autonomia é um meio, não um fim. O produtor precisa conseguir realizar a operação certa, dentro da janela disponível, com precisão e o menor desperdício possível. É a integração dessas tecnologias que transforma inteligência artificial em produtividade”, afirma Fasolin.
Pulverização seletiva reduz consumo de herbicidas
Entre as tecnologias apresentadas está a pulverização seletiva baseada em visão computacional, que utiliza câmeras e inteligência artificial para identificar plantas daninhas e direcionar a aplicação de herbicidas somente às áreas necessárias.
O sistema Symphony Vision, da Precision Planting, integrante da PTx, analisa imagens captadas por câmeras instaladas na barra do pulverizador e identifica a presença de plantas daninhas durante o deslocamento da máquina. A partir dessas informações, o sistema determina a necessidade de aplicação em milissegundos.
Em um ensaio realizado pela PTI Farm, em Tremont, no estado norte-americano de Illinois, a tecnologia reduziu em 55% o uso de herbicidas na primeira aplicação pós-emergente em uma lavoura de soja. O resultado indica o potencial da pulverização direcionada para diminuir o consumo de insumos e os desperdícios operacionais.

Manutenção preditiva busca evitar paradas
Outra aplicação da inteligência artificial é a manutenção preditiva, que cruza dados de sensores, histórico de funcionamento e condições operacionais para identificar sinais de possíveis falhas antes que provoquem a interrupção dos equipamentos.
Segundo benchmark industrial da consultoria McKinsey citado na apresentação, programas maduros de manutenção preditiva podem reduzir entre 30% e 50% as paradas não planejadas. No campo, a disponibilidade das máquinas é especialmente relevante devido à dependência das condições climáticas e dos períodos adequados para cada operação.
“Uma máquina parada durante a janela em que deveria trabalhar representa uma oportunidade de produtividade que não volta. Não basta ter o equipamento mais inteligente se ele não estiver disponível no momento necessário”, ressalta Fasolin.
Máquinas autônomas ampliam possibilidades de operação
A PTx também apresentou a tecnologia OutRun, voltada à autonomia assistida. Atualmente, a solução contempla operações de preparo do solo e automação da colheita com carreta graneleira, permitindo planejar, acompanhar e supervisionar determinadas atividades remotamente.
Um dos diferenciais apontados pela empresa é a possibilidade de adaptar tecnologias a máquinas já existentes, por meio de retrofit, inclusive em propriedades que utilizam equipamentos de diferentes fabricantes.
A companhia prevê ampliar as aplicações autônomas para outras etapas, como plantio e pulverização, com a meta de disponibilizar soluções para todo o ciclo produtivo até 2030. Para viabilizar esse avanço, o processamento de dados diretamente nas máquinas também ganha importância, especialmente em decisões que exigem respostas rápidas para garantir a segurança e o controle das operações.
Automação transforma o trabalho no campo
A expansão da inteligência artificial também modifica o papel dos profissionais rurais. Com a automação de determinadas tarefas, o operador tende a assumir funções de planejamento, monitoramento e supervisão de equipamentos, com possibilidade de acompanhar diferentes máquinas simultaneamente.
Essa transformação aumenta a demanda por profissionais capacitados para interpretar dados, analisar alertas e gerenciar sistemas inteligentes.
“A autonomia não elimina o operador. Ela transforma seu papel e amplia sua capacidade de produção. Em vez de uma pessoa dentro de uma máquina, caminhamos para um profissional capaz de supervisionar uma frota, com apoio de sistemas inteligentes”, afirma Fasolin.
O avanço dessas soluções aponta para uma agricultura cada vez mais orientada por dados, na qual a combinação entre automação, disponibilidade operacional e uso eficiente de insumos pode contribuir para elevar a produtividade e melhorar a gestão dos custos nas propriedades rurais.



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