Mesa de Mercado · CEPEA
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Do Campo à Gôndola: A Influência da Marca na Percepção do Consumidor de Carne Bovina

Maria Eduarda Trevisan Kroeff, Maria Antônia Arcari e Júlio Otávio Jardim Barcellos

Em 1996, com a eclosão da crise da encefalopatia espongiforme bovina no Reino Unido — conhecida como doença da vaca louca — o comportamento do consumidor europeu sofreu uma transformação significativa. De mero adquirente de alimentos, o consumidor passou a exercer um papel ativo como fiscalizador da qualidade dos produtos disponíveis no mercado. Esse evento marcou um ponto de inflexão na relação entre consumo e confiança alimentar, impactando diretamente as cadeias produtivas globais.

Embora o epicentro da crise tenha sido europeu, seus efeitos reverberaram globalmente, forçando exportadores, como o Brasil, a rever práticas e padrões de qualidade. Neste contexto, o mercado brasileiro de carne bovina passou a se adequar às exigências internacionais, incorporando práticas voltadas à garantia da segurança, rastreabilidade e transparência do processo produtivo. No entanto, essa preocupação não ficou restrita ao mercado externo. Os consumidores brasileiros também passaram a valorizar qualidade, origem e confiabilidade dos alimentos, fatores que passaram a influenciar diretamente suas decisões de compra.

Nos Estados Unidos, por sua vez, no início dos anos 90, houve uma drástica redução na demanda por carne bovina, que perdia espaço para outras proteínas como frango e porco. Como consequência deste fenômeno, teve-se a queda na rentabilidade para os pecuaristas. Diante disso, visando promover a carne bovina americana, por meio do fornecimento de informações claras ao público consumidor, produtores rurais do Kansas se reuniram para buscar soluções, dando início a uma cooperativa de marketing chamada U.S. Premium Beef, com o objetivo de integrar verticalmente a indústria, melhorar a qualidade da carne e aumentar a rentabilidade dos produtores.

Essas informações foram fornecidas por um dos criadores da U.S. Premium Beef, Mark Gardiner, em entrevista realizada no dia 11 de abril de 2025 no Gardiner Angus Ranch em Ashland, Kansas.

Consumidor exerce papel ativo como fiscalizador da qualidade dos produtos disponíveis no mercado (Foto: Divulgação)

Esse movimento também reverberou no Brasil, onde a confiança alimentar passou a ser prioridade. Essa mudança de comportamento tornou-se ainda mais evidente após os escândalos revelados pela Operação Carne Fraca, deflagrada em 2017, que expôs esquemas de corrupção e fraude em frigoríficos nacionais. Desde então, a crescente exigência por transparência e responsabilidade passou a afetar, de forma contínua e profunda, toda a cadeia produtiva da carne bovina. Da fazenda ao frigorífico, e do frigorífico à gôndola, cada etapa do processo passou a estar sujeita a padrões mais rigorosos impostos por consumidores, mercados e órgãos reguladores, refletindo uma nova dinâmica baseada na confiança e na qualidade.

No campo, as práticas sustentáveis, a busca pelo bem-estar animal e as ferramentas de rastreabilidade tornaram-se cada vez mais valorizadas, servindo como diferenciais competitivos e respondendo às expectativas de consumidores e mercados que priorizam transparência e responsabilidade socioambiental. Nos frigoríficos, a transparência dos processos se tornou indispensável. Ainda, a indústria intensificou a adoção de tecnologias de monitoramento, protocolos de certificação e integração com sistemas de rastreamento.

No varejo, a demanda por informações claras e confiáveis sobre a origem e as características do produto aumentou. Nesse cenário, o número de registros de marcas de carne bovina no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) aumentou consideravelmente. A marca deixou de ser apenas um elemento visual: tornou-se o elo entre o produto e os valores que o consumidor quer ver representados à mesa.

Diante disso, os rótulos de carne bovina passaram a apresentar conteúdos verbais e não verbais, organizados em cinco dimensões principais: Qualidade Diferenciada, Sugestão de Preparo, Uso de Palavras Estrangeiras, Características do Animal e Sistema de Produção. Utilizam-se de termos que ajudam a diferenciar as marcas, enquanto aspectos visuais como formato, cores, símbolos, idade e raça do animal, alimentação, fornecedor, certificações e bem-estar animal, bem como de descrições detalhadas dos produtos, sistema de produção, linguagem promocional e dados adicionais, como receitas e informações nutricionais.

Tabela

Descrição gerada automaticamente

Por outro lado, nos últimos anos, o consumo de carne bovina no Brasil tem experimentado uma queda de aproximadamente 8%, conforme evidenciado pelos dados da CONAB, a redução no consumo tem gerado desafios para os pecuaristas brasileiros, que enfrentam um mercado interno mais restrito. Embora o Brasil continue sendo um gigante exportador, a diminuição no consumo local pressiona as margens de lucro e força os membros da cadeia a se reinventarem, adotando práticas mais transparentes e sustentáveis para reconquistar o consumidor.

Em um mercado cada vez mais exigente e informado, a marca assume um novo papel. Ela não apenas diferencia produtos, mas também comunica confiança, qualidade e responsabilidade. Do campo à gôndola, ela é hoje um símbolo de compromisso com um novo perfil de consumo — mais consciente, criterioso e atento às transformações do mundo. O consumidor mudou — e o negócio também. Adaptar-se a essa nova realidade deixou de ser uma escolha: tornou-se uma condição para permanecer relevante, competitivo e, acima de tudo, confiável.

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