Por Caroline Mendes | caroline@dc7comunica.com.br
O nascimento dos primeiros bezerros geneticamente editados no Brasil marca um avanço relevante para a pecuária nacional em termos de inovação e sustentabilidade. Fruto de uma parceria entre a Embrapa Gado de Corte, Embrapa Gado de Leite e a Associação Brasileira de Angus, o projeto utiliza a técnica de edição gênica CRISPR/Cas9 para promover uma característica importante em regiões de clima quente: a pelagem curta e fina.
Os animais nasceram entre o fim de março e o início de abril de 2025, a partir de embriões da raça Angus produzidos via fertilização in vitro. De acordo com a Embrapa, cinco bezerros nasceram até o momento, sendo que dois deles tiveram a modificação genética confirmada por análises de DNA realizadas pela Embrapa Gado de Leite. A edição tem como alvo o gene receptor da prolactina (PRLR), envolvido na expressão da característica conhecida como slick hair, que favorece a dissipação do calor corporal.
A adaptação ao calor é um dos principais desafios enfrentados por sistemas produtivos em regiões tropicais e subtropicais, especialmente quando se utilizam raças taurinas de alto desempenho, como Angus e Holandesa. O estresse térmico impacta diretamente o bem-estar dos animais, reduz a eficiência alimentar, a taxa de concepção e o ganho de peso — afetando a produtividade e a rentabilidade das fazendas.
Segundo os pesquisadores da Embrapa, a edição genética surge como uma alternativa mais rápida e precisa em comparação aos cruzamentos convencionais. “Utilizar a CRISPR nos permite alcançar uma característica desejada sem alterar o restante do perfil genético do animal, o que seria muito mais difícil com métodos tradicionais de melhoramento”, explica Marcelo Bertolini, pesquisador da Embrapa Gado de Corte e coordenador do projeto.
Ao contrário da transgenia, que insere genes de outras espécies no genoma do animal, a edição gênica atua como uma “tesoura molecular”, promovendo alterações específicas dentro do próprio DNA. Isso confere maior precisão, reduz riscos e pode, inclusive, facilitar a aceitação regulatória e de mercado.

Além do ganho adaptativo, o projeto visa promover o bem-estar animal e a sustentabilidade da cadeia produtiva da carne bovina. “Animais menos estressados pelo calor apresentam melhor desempenho zootécnico e exigem menos intervenções, o que contribui para sistemas mais eficientes e ambientalmente responsáveis”, afirma a Embrapa.
O nascimento dos bezerros representa um passo importante no uso de genética de precisão na agropecuária brasileira, com potencial para transformar o manejo de raças de alto valor comercial em regiões tropicais. Os próximos passos da pesquisa envolvem o acompanhamento do desenvolvimento dos animais e a avaliação prática da eficácia da edição sob condições de campo.
Ainda em fase experimental, a iniciativa poderá abrir caminho para o uso mais amplo da edição gênica na pecuária nacional, sobretudo diante das mudanças climáticas e da crescente demanda por soluções tecnológicas que aliem produtividade, bem-estar animal e sustentabilidade.
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