Celebrado em 28 de agosto, o Dia do Avicultor e da Avicultura reconhece quem acompanha diariamente as aves destinadas à produção de carne e ovos. A data também ajuda a aproximar o consumidor de uma rotina que envolve manejo, ambiência, sanidade, biosseguridade, manutenção, gestão e decisões rápidas dentro do aviário.
O tamanho da cadeia mostra a responsabilidade que existe por trás desse trabalho. Segundo dados divulgados pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) em 28 de agosto de 2026, o Brasil produziu 15,289 milhões de toneladas de carne de frango em 2025 e exportou 5,324 milhões de toneladas para 153 países, com receita de US$ 9,8 bilhões. O país permaneceu como o maior exportador e o terceiro maior produtor mundial da proteína.
No mesmo ano, a produção nacional de ovos alcançou 62,253 bilhões de unidades. O consumo por habitante chegou a 46,7 quilos de carne de frango e 288 ovos. Somados, os dois segmentos movimentaram aproximadamente R$ 141,8 bilhões em valor bruto da produção. Para 2026, a ABPA projeta entre 16 milhões e 16,150 milhões de toneladas de carne de frango e 64,8 bilhões de ovos.
Os números revelam a escala, mas não mostram tudo o que acontece dentro da granja. Para compreender esse trabalho, a Feed&Food ouviu Ariel Antônio Mendes, diretor-presidente da Fundação de Apoio à Ciência e Tecnologia Animal (FACTA); Edmilson José Zabott, avicultor e presidente do Sindicato Rural de Palotina (PR); e o casal de avicultores Juliana Afonso Branco dos Santos e Alberto Cabral dos Santos.
Da criação à gestão de uma unidade especializada
Ariel Antônio Mendes explica que a avicultura deixou de depender principalmente da experiência prática e passou a exigir domínio técnico e capacidade de gestão.
“A avicultura evoluiu para um sistema altamente tecnificado, no qual o produtor precisa dominar conhecimentos de manejo, ambiência, biosseguridade, sanidade, bem-estar animal e gestão de dados. Ele deixou de ser apenas um criador de aves para se tornar gestor de uma unidade de produção altamente especializada”, afirma Mendes.
Hoje, controladores, sensores e sistemas automatizados permitem acompanhar temperatura, ventilação, consumo e desempenho. Ainda assim, o resultado depende da interpretação feita por quem conhece o plantel.
“O sucesso de um lote depende de dezenas de decisões tomadas todos os dias. Nenhum equipamento substitui completamente a capacidade do produtor de observar as aves. Pequenas correções feitas no momento certo evitam perdas importantes”, destaca Mendes.
Se a automação reduz tarefas braçais, ela também aumenta a necessidade de profissionais capazes de operar equipamentos, interpretar dados e reconhecer as necessidades das aves. Para Mendes, tecnologia, mão de obra e proteção sanitária formam hoje um mesmo conjunto de desafios.
“Eu destacaria três grandes desafios: a necessidade constante de investimento para acompanhar a evolução tecnológica, a disponibilidade de mão de obra qualificada e a biosseguridade. O produtor precisa equilibrar produtividade, sustentabilidade, bem-estar animal e rentabilidade”, avalia Mendes.
A ABPA escolheu a biosseguridade como tema central do Dia do Avicultor em 2026. A atenção aumentou depois do único foco de influenza aviária de alta patogenicidade registrado em uma produção comercial brasileira, em 2025, posteriormente encerrado. Em março de 2026, o Ministério da Agricultura e Pecuária prorrogou por mais 180 dias o estado de emergência zoossanitária para manter as ações preventivas e de vigilância.
“Em um cenário global de crescente atenção às enfermidades avícolas, manter protocolos rígidos não é mais uma recomendação; é uma necessidade para proteger a produção e preservar o acesso aos mercados”, afirma Mendes.
O diretor-presidente da FACTA também defende a ampliação da capacitação contínua, da assistência técnica, da transferência de conhecimento e do acesso às tecnologias, especialmente para pequenos e médios produtores. Para ele, o reconhecimento deve ir além das homenagens e incluir condições para a permanência das novas gerações no campo.
“Quando falamos em avicultura, muitas vezes olhamos para a tecnologia, para os números e para os resultados. Mas, por trás de tudo isso, existe um produtor tomando decisões diariamente. A eficiência do sistema começa dentro do aviário, e é justamente o trabalho silencioso do avicultor que sustenta a competitividade da avicultura brasileira”, conclui Mendes.

O trabalho que acontece dentro do aviário
Na prática, essa observação começa cedo. O avicultor e presidente do Sindicato Rural de Palotina (PR), Edmilson José Zabott, descreve uma sequência que se repete todos os dias, inclusive nos fins de semana.
“Logo no primeiro horário da manhã, entramos no aviário, analisamos o painel de controle, fazemos uma avaliação geral, recolhemos as aves mortas e verificamos bebedouros, comedouros, aquecimento e estoque de gás”, relata Zabott. O painel oferece informações, mas a condição das aves precisa ser conferida de perto.
“Observamos a situação sanitária, a saúde dos frangos, a qualidade da ração, a temperatura da água, o bem-estar animal, o manejo e a ambiência”, acrescenta Zabott.
O fornecimento de energia ocupa lugar central nessa rotina. Ventilação, climatização, alimentação e alarmes dependem de eletricidade, e uma falha exige reação imediata. Em março de 2026, o Sistema FAEP reuniu relatos de interrupções e oscilações na rede rural paranaense. Em um dos casos documentados, um avicultor perdeu 800 frangos, com prejuízo estimado em R$ 10 mil, depois que as variações sobrecarregaram o gerador.
“Temos problemas frequentes com quedas e baixa tensão. É fundamental manter o gerador revisado, abastecido e os alarmes em operação. Já tive uma quebra no motor do gerador e perdi uma quantidade de frangos que estava pronta para o carregamento”, relata Zabott.
Além da energia, as despesas, o acesso ao crédito e o retorno financeiro pressionam o produtor e dificultam a atualização das instalações.
“Enfrentamos o custo e a qualidade da energia, os encargos da mão de obra, a baixa remuneração, os juros altos para adequações e investimentos em tecnologia e a falta de políticas públicas para as cadeias de proteína animal”, enumera Zabott.
Mesmo diante do avanço dos sistemas automatizados, Zabott vê a tecnologia como apoio, não como substituta da presença humana.
“A automação e a tecnologia reduzem o trabalho braçal e melhoram o manejo, mas não substituem a presença diária e a decisão do ser humano dentro do aviário”, afirma Zabott.
Uma rotina de sentidos apurados
Na propriedade dos avicultores Juliana Afonso Branco dos Santos e Alberto Cabral dos Santos, famílias parceiras executam o manejo diário, enquanto o casal acompanha cada lote. Juliana Santos orienta o manejo, Alberto Santos cuida da manutenção dos equipamentos e ambos permanecem disponíveis quando estão fora da granja.
“Nosso telefone fica disponível 24 horas e muitas vezes damos suporte aos granjeiros mesmo à distância. A atividade avícola nos deixa em estado de alerta constante, até nos intervalos”, conta Juliana Santos.
Para a avicultora, manejar bem também significa aprender a usar os sentidos. A visão identifica alterações no comportamento, nas fezes e na cama; a audição percebe mudanças na vocalização; o olfato ajuda nas decisões sobre ventilação; e o tato permite avaliar alimentação, hidratação e possíveis sinais de febre.
“O granjeiro deve ter os sentidos muito afiados e ser ensinado a observar tudo isso em qualquer fase da criação, a todo momento em que estiver presente”, explica Juliana Santos.
Entre um lote e outro, o trabalho continua
A ausência de aves alojadas não significa descanso. O intervalo é usado para o vazio sanitário, a preparação da cama e a revisão da ventilação, do aquecimento, do gerador e dos quadros elétricos.
“Dizem que você trabalha 45 dias e folga 15. Mentira: no intervalo, o trabalho é intenso. Sempre fica a preocupação de saber se deixamos de fazer alguma coisa que poderá interferir negativamente no lote seguinte”, afirma Juliana Santos.
Ela recomenda testes frequentes e atenção redobrada aos sistemas de segurança, tanto em instalações novas quanto antigas. Outro desafio é encontrar e preparar pessoas para uma atividade que exige observação, conhecimento dos equipamentos e capacidade de reação.
“Formar um granjeiro leva tempo. É difícil encontrar pessoas dispostas a aprender e que gostem da atividade. Com as tecnologias disponíveis, é preciso saber ler, interpretar e fazer as operações básicas da matemática”, observa Juliana Santos.

Confiança e remuneração na integração
Para Juliana Santos, a qualidade da assistência técnica e a confiança entre as partes também influenciam o desempenho. O extensionista precisa saber trabalhar com pessoas e compreender a realidade do granjeiro, enquanto a remuneração deve considerar o investimento realizado dentro da porteira e a responsabilidade assumida pelo produtor.
“De nada adianta ter um granjeiro afinado com o aviário e uma boa relação entre extensão rural, granjeiro e produtor se não houver confiança. A base sólida do sistema de integração está na confiança entre integradora e integrado”, afirma Juliana Santos.
Essa relação é regulamentada pela Lei nº 13.288/2016, que estabeleceu direitos e deveres para produtores integrados e agroindústrias. Dez anos depois, o Sistema FAEP contabiliza 22 Comissões para Acompanhamento, Desenvolvimento e Conciliação da Integração (Cadecs) regulares na avicultura paranaense, mas ainda aponta a necessidade de avanços para assegurar a viabilidade econômica dos dois lados.
Os depoimentos mostram que a avicultura moderna combina escala, tecnologia e protocolos rigorosos, mas continua sustentada pela atenção de quem entra no aviário todos os dias. No Dia do Avicultor, reconhecer esse trabalho significa tornar visíveis não apenas os resultados da cadeia, mas também as decisões, os riscos e as responsabilidades assumidos dentro de cada granja.



Nenhuma discussão ainda. Seja o primeiro a comentar.