A agropecuária voltou a se destacar como principal vetor de crescimento da economia brasileira no segundo trimestre de 2026. Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) nacional avançou 0,5% em relação aos três primeiros meses do ano, o setor agropecuário registrou alta de 2,8%, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira (1º). Na comparação com o segundo trimestre de 2025, o crescimento chegou a 6,8%.
O desempenho colocou a agropecuária à frente dos demais grandes setores da economia. No período, os serviços cresceram 0,2%, enquanto a indústria avançou 0,1%. No acumulado do primeiro semestre, o agro registrou alta de 3,6%, ante 1,6% da indústria e 1,8% dos serviços.
Apesar dos números positivos, especialistas alertam que o avanço da produção e do faturamento não significa necessariamente aumento proporcional da rentabilidade no campo. Para produtores e empresas da cadeia de proteína animal, o cenário reforça a necessidade de atenção ao fluxo de caixa, ao custo do crédito, à estrutura tributária e à proteção das margens.
“O crescimento do agro é uma notícia muito positiva para a economia brasileira, mas é preciso separar duas coisas: o desempenho do setor e a rentabilidade de cada produtor. Uma produção maior não significa automaticamente uma margem maior”, afirma Bruno Medeiros Durão, advogado tributarista, especialista em recuperação de tributos e Direito Bancário e fundador da DAP Advocacia.
Segundo ele, custos financeiros, tributários e operacionais podem reduzir o resultado final mesmo em períodos de expansão da atividade.
Produzir mais não significa necessariamente lucrar mais
A diferença entre crescimento da produção e rentabilidade ganha relevância em um setor marcado por ciclos produtivos, necessidade elevada de capital e exposição aos preços de commodities, insumos e crédito.
Além disso, o desempenho não ocorre de maneira uniforme entre as diferentes atividades e culturas. Estimativas divulgadas pelo IBGE ao longo do ano apontaram perspectivas distintas para produtos agrícolas, evidenciando que o resultado agregado do setor não representa necessariamente a realidade financeira de cada produtor.
Para Adriano de Almeida, advogado tributarista e sócio da DAP Advocacia, a análise do desempenho deve partir da realidade de cada operação.
“O resultado do PIB mostra a força do agronegócio, mas o produtor precisa olhar para o próprio negócio e não apenas para o desempenho agregado do setor. Uma alta do PIB não significa que todos os produtores estejam com a mesma margem ou com a mesma capacidade financeira”, avalia.

Expansão pode elevar necessidade de crédito
Outro ponto de atenção é o financiamento do crescimento. A expansão da produção frequentemente exige investimentos em máquinas, instalações, tecnologia, armazenagem, logística e insumos.
Em cadeias de proteína animal, como aves, suínos, bovinos e peixes, esse movimento pode representar aumento significativo da necessidade de capital de giro e investimentos estruturais.
“O faturamento pode aumentar, mas, se a dívida crescer em velocidade maior e os juros consumirem uma parcela significativa da margem, o crescimento pode se transformar em pressão financeira”, afirma Almeida.
O cenário de juros elevados amplia esse risco e exige avaliação criteriosa do custo efetivo das operações de crédito. A recomendação é que produtores e empresas considerem não apenas o potencial de aumento da receita, mas também o impacto do endividamento sobre a geração de caixa.
Gestão tributária ganha peso
Para Durão, o planejamento tributário deve ser tratado como parte da estratégia financeira do negócio e não apenas como uma obrigação administrativa.
Em momentos de crescimento, segundo o especialista, é comum que produtores concentrem esforços na produção e nas vendas, deixando em segundo plano a revisão de créditos tributários, enquadramentos e processos fiscais.
“Existe uma oportunidade importante de olhar para o passado e para o presente da operação. Muitas empresas e produtores deixam de revisar créditos tributários, enquadramentos e processos fiscais porque estão concentrados na operação. Quando isso é feito de maneira técnica, pode haver impacto direto no fluxo de caixa”, afirma.
A avaliação ganha importância diante de um ambiente econômico no qual custos financeiros continuam pressionando as empresas e a gestão tributária tende a exigir cada vez mais planejamento.
Desafio é transformar crescimento em resultado
O desempenho da agropecuária no segundo trimestre reforça o peso do setor para a economia brasileira. Para produtores e empresas da proteína animal, porém, o desafio está em converter crescimento operacional em margem, liquidez e sustentabilidade financeira.
“O agro pode crescer muito, mas o produtor precisa capturar esse crescimento. Isso significa proteger margem, reduzir desperdícios financeiros, avaliar corretamente o crédito e entender o impacto tributário de cada decisão”, resume Durão.
Mais do que acompanhar os indicadores macroeconômicos, a recomendação dos especialistas é que cada empresa avalie como o crescimento está impactando efetivamente seu próprio caixa. Afinal, em um cenário de custos elevados e necessidade constante de investimentos, produzir mais é apenas parte da equação — preservar a rentabilidade é o que sustenta o negócio no longo prazo.



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