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Congresso Abramilho coloca milho e sorgo no centro do futuro do agro

Evento em Brasília reuniu autoridades e lideranças para discutir crédito, inovação, segurança alimentar, bioenergia e geopolítica

Congresso Abramilho

O 4º Congresso Abramilho, realizado nesta quarta-feira (13), no Unique Palace, em Brasília (DF), reuniu autoridades, lideranças políticas, representantes do setor produtivo, especialistas e integrantes do mercado internacional para discutir os desafios e as oportunidades das cadeias do milho e do sorgo no Brasil. Com o tema “Milho: o grão que revoluciona o mundo”, o evento colocou em pauta assuntos como Plano Safra, crédito rural, seguro, armazenagem, inovação, segurança alimentar, bioenergia e geopolítica.

Na abertura, a Abramilho destacou a evolução do milho brasileiro nas últimas décadas, marcada pelo avanço da produtividade, pela consolidação da segunda safra e pela ampliação do consumo interno e externo. A entidade também reforçou o crescimento do sorgo no país, cultura que passou a integrar de forma mais estratégica a agenda da associação diante do seu potencial produtivo e da maior tolerância a condições adversas no campo.

Desafios da produção

Durante o primeiro painel, “Agricultura em transformação: desafios atuais e propostas para fortalecer o setor”, lideranças do agro discutiram o momento de pressão vivido pelos produtores. A senadora Tereza Cristina, vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), classificou o cenário como uma “tempestade perfeita”, diante da combinação entre conflitos internacionais, custos elevados, juros altos, queda nos preços das commodities e dificuldades logísticas. “Não tem tempestade mais perfeita que essa. O momento é complicado e exige políticas públicas corretas para que o dano seja o menor possível”, afirmou.

A senadora também defendeu mudanças no modelo de apoio à produção. “Precisamos pensar em um novo modelo para o Plano Safra, porque o que existe hoje não é mais compatível com o tamanho da nossa agricultura e com as necessidades do produtor brasileiro”, disse. Para ela, o seguro rural precisa ser ampliado. “Não dá para deixar a agricultura brasileira trabalhar sem seguro rural. E o seguro tem que ser mais amplo, não só climático, mas também de preço e de renda para o produtor”, completou.

O ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, afirmou que as demandas apresentadas pelo setor estão sendo consideradas nas discussões do governo federal. “Há uma preocupação com o endividamento do produtor rural e também com esse fundo garantidor. São temas que estão sendo discutidos e estão presentes na nossa preocupação”, declarou. Segundo ele, o papel do ministério é atuar na defesa das necessidades do setor dentro do governo. “Vou lutar dentro do governo pelos interesses do setor que represento”, afirmou.

Crédito e previsibilidade

O acesso ao crédito também apareceu como uma das principais preocupações do congresso. O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, avaliou que a falta de garantias ainda limita a tomada de recursos por parte dos produtores. “Às vezes você tem crédito e juros razoáveis, mas não consegue tomar por falta de garantia. O fundo garantidor pode ser uma boa alternativa”, pontuou.

Na mesma linha, o deputado federal Pedro Lupion, presidente da FPA, afirmou que o modelo atual do Plano Safra precisa ser revisto. “O modelo atual do Plano Safra está completamente vencido. Está fora do tempo, fora do propósito, e os resultados da última safra mostram isso”, disse. Para ele, o setor precisa de planejamento de longo prazo. “Precisamos buscar um modelo parecido com uma Farm Bill, com cinco anos de previsibilidade e que não seja afetado por questões políticas ou ideológicas”, acrescentou.

O presidente da Abramilho, Paulo Bertolini, chamou atenção para os riscos ligados à oferta de fertilizantes e aos impactos sobre a próxima safra. “Os indicadores que temos visto são de redução no consumo de fertilizantes e até risco de alguns, especialmente os fosfatados, não estarem disponíveis no mercado para atender todo mundo. Isso pode afetar a produtividade da próxima safra”, alertou. Ele também destacou que o avanço do etanol de milho pode estimular novas decisões produtivas em algumas regiões. “Há uma tendência de aumento do consumo de milho, estimulando a produção na primeira safra”, afirmou.

Congresso Abramilho
Representantes do setor produtivo, autoridades e lideranças do agro participam do 4º Congresso Abramilho, em Brasília (DF). Crédito: Feed&Food

Inovação e segurança alimentar

No painel “Inovação que alimenta o mundo: o futuro da segurança alimentar”, os debates passaram pelo papel da biotecnologia, da defesa agropecuária, da regulação e da cooperação internacional para ampliar a produção de alimentos. O embaixador da China no Brasil, Zhu Qingqiao, destacou que a segurança alimentar é uma prioridade para o país asiático. “Sem agricultura, não há estabilidade. A China sempre considera a segurança alimentar uma prioridade absoluta”, afirmou.

O embaixador também ressaltou o potencial da relação sino-brasileira no agro. “China e Brasil têm alta complementaridade no setor agrícola e uma base sólida de cooperação. Os dois países têm enorme potencial no comércio de produtos agrícolas, como milho e sorgo, além de espaço para cooperação em tecnologia agrícola e cadeia de valor”, disse.

O secretário de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Carlos Goulart, relacionou inovação e acesso a mercados. “Quanto mais inovação eu incorporo, melhores são os níveis de produção e mais alimentos podemos exportar para a China. É uma relação muito positiva com a China e outros países parceiros”, afirmou.

O presidente da CTNBio, Mário Murakami, também defendeu o papel da biotecnologia para o avanço da produção. “O Brasil é o segundo maior adotante de biotecnologia na agricultura graças a um sistema robusto e internacionalmente reconhecido de avaliação de biossegurança”, disse. Segundo ele, a previsibilidade regulatória ajuda a atrair investimentos. “A robustez regulatória, com critérios e prazos bem definidos, cria base para investimentos massivos”, completou.

Bioenergia e sorgo

A industrialização do milho foi apontada como uma das frentes de maior potencial para a cadeia. O diretor executivo da Abramilho, Glauber Silveira, destacou o papel do grão na produção de etanol e DDG. “É isso que vamos discutir: como podemos continuar avançando, continuar progredindo e dar segurança para que o produtor brasileiro possa produzir com tranquilidade e em paz”, disse.

O sorgo também ganhou espaço nas discussões, especialmente como alternativa complementar ao milho em regiões de maior risco climático. Bertolini ressaltou que a cultura pode ajudar o produtor quando a janela ideal de plantio é perdida. “O sorgo tira risco do produtor quando ele perde a janela ideal de plantio. É mais tolerante à seca e tem custo de implantação menor por hectare”, explicou. Segundo ele, o sorgo “não vai tomar o espaço do milho, mas vai complementar essa cadeia como um todo”.

Geopolítica e mercados

No terceiro painel, “Geopolítica: como proteger o agro frente às incertezas globais”, os participantes discutiram os impactos das tensões internacionais, das barreiras comerciais e da dependência de insumos sobre o planejamento do agro brasileiro. Grace Tanno, chefe da Divisão de Política Agrícola do Ministério das Relações Exteriores (MRE), avaliou que o país precisa reconhecer sua força no mercado internacional. “Temos muitos desafios, mas acredito no nosso potencial. O Brasil e os nossos produtores provam isso todos os dias. Somos alvo porque somos muito bons. Se fôssemos ruins, ninguém se importaria”, afirmou.

O secretário de Comércio e Relações Internacionais do Mapa, Luís Rua, destacou que o governo trabalha para manter e ampliar mercados para os produtos brasileiros. “Onde houver espaço para colocar o milho, seja na forma de DDG, seja na forma de proteína de frango ou de suíno, vamos buscar esse espaço para dar vazão a uma produção que vem crescendo ano após ano”, disse. “Contem conosco no Ministério da Agricultura para continuar esse trabalho”, completou.

Arene Trevisan, diretor executivo de Suprimentos da JBS, chamou atenção para a dependência externa em matérias-primas. “Somos excelentes transformadores. Pegamos agricultura, transformamos NPK em safra, e somos muito bons nisso. O problema é que temos uma dependência internacional basicamente em todas as matérias-primas e ainda não temos uma visão estratégica muito estabelecida”, afirmou. Para ele, não há uma solução única. “Não existe bala de prata. Precisamos progredir nessa jornada”, acrescentou.

Ao encerrar o evento, Bertolini reforçou o papel da Abramilho na articulação entre os diferentes elos da cadeia. “O propósito da Abramilho sempre foi trazer todos os links dessa cadeia do agronegócio, principalmente ligados ao milho e ao sorgo, para um debate profundo, deixando as portas abertas para encontrarmos caminhos e alternativas, especialmente em momentos extremamente desafiadores”, afirmou.

O congresso também contou com a entrega do Prêmio Abramilho. Entre os homenageados esteve a jornalista Vera Ondei, reconhecida por sua trajetória na cobertura do agronegócio. Ao receber a homenagem, ela destacou o papel coletivo da imprensa. “Jornalismo não é uma trajetória solitária. É uma trajetória coletiva. Precisamos de fontes, de informação, de encontros e congressos como este”, disse.

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