A China vem intensificando a adoção de ração fermentada como alternativa para reduzir a dependência da soja importada, em um movimento impulsionado tanto por pressões econômicas quanto por estratégias de segurança alimentar. A mudança ocorre em meio à volatilidade dos preços da oleaginosa e às tensões comerciais com os Estados Unidos.
Na prática, produtores têm substituído parte da soja por misturas fermentadas feitas com insumos mais baratos e locais, como farelos, resíduos agrícolas e subprodutos industriais. O processo de fermentação facilita a digestão das proteínas, reduzindo a necessidade de ingredientes mais nobres na dieta animal.
Para criadores como Gao Qinshan, produtor de suínos na região de Taizhou, a motivação é direta: reduzir custos. Segundo ele, a ração representa cerca de 70% das despesas na suinocultura, e a instabilidade nos preços da soja tem pressionado a rentabilidade da atividade.
Estratégia nacional para reduzir dependência externa
Além do fator econômico, a iniciativa está alinhada a uma política mais ampla do governo chinês para diminuir a dependência de importações. A China importa cerca de 80% da soja que consome, o que torna o insumo estratégico em meio a disputas comerciais e geopolíticas.
Desde 2024, Pequim tem acelerado programas voltados à diversificação das fontes de proteína na alimentação animal. A redução do uso de farelo de soja se tornou prioridade nacional, com incentivo ao desenvolvimento e à adoção de tecnologias como a fermentação.
Dados do setor indicam que a ração fermentada já representa cerca de 8% da produção industrial no país, ante 3% em 2022, com expectativa de atingir 15% até 2030. Esse avanço pode reduzir as importações de soja em até 6,3% em relação aos níveis atuais.

Adoção cresce, mas enfrenta desafios técnicos
Apesar do avanço, a transição ainda enfrenta obstáculos. A adoção da ração fermentada exige mudanças estruturais nos sistemas de produção, além de maior controle técnico no processo.
Produtores relatam dificuldades iniciais, como perdas por contaminação e necessidade de adaptação das instalações. A ausência de padronização também levanta preocupações sobre desempenho produtivo e saúde animal.
Especialistas apontam que dietas mal formuladas podem impactar o crescimento dos animais e aumentar a vulnerabilidade a doenças, o que exige maior acompanhamento técnico na implementação.
Indústria e governo atuam em toda a cadeia
Grandes empresas do setor já vêm ajustando suas estratégias. A Muyuan Foods, maior produtora de suínos do mundo, reduziu a participação de farelo de soja na ração ao incorporar aminoácidos sintéticos derivados de processos fermentativos.
Outros grupos também avançam no desenvolvimento de alternativas, incluindo rações sem soja para aves e soluções voltadas à pecuária leiteira. O movimento conta com forte apoio governamental, que incentiva toda a cadeia produtiva a adotar práticas mais eficientes.
O mercado de ração fermentada na China já movimenta cerca de US$ 6 bilhões, aproximando-se do nível europeu, enquanto supera com folga o mercado norte-americano.
Impactos no mercado e na qualidade da carne
O contexto de preços baixos da carne suína nos menores níveis em 16 anos tem favorecido a adoção de estratégias de redução de custos. No entanto, especialistas alertam para possíveis impactos na qualidade final do produto.
Há preocupações de que a substituição da soja possa afetar características como sabor e desempenho produtivo, especialmente se não houver equilíbrio nutricional adequado.
A discussão coloca em evidência o desafio do setor: reduzir custos e aumentar a autonomia produtiva sem comprometer a eficiência e a qualidade da carne, em um mercado cada vez mais competitivo.
Fonte: Reuters, adaptado pela equipe Feed&Food
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