Caroline Mendes, de Belo Horizonte (MG)
Marcelo Macaus, da Redação
Durante o Avicultor Mais 2025, evento realizado em Belo Horizonte (MG), o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, fez um balanço da atuação do Brasil diante do primeiro caso de influenza aviária em aves comerciais registrado no país. Em entrevista concedida no evento, ele destacou a rápida resposta do setor e criticou as medidas protecionistas adotadas por diversos países importadores, que suspenderam temporariamente as compras de produtos avícolas brasileiros.
“Mostramos ao mundo que o Brasil é competente e preparado. Seguimos à risca os protocolos da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), como o isolamento da granja, o raio de vigilância sanitária de até dez quilômetros, a desinfecção do local, o cumprimento dos ciclos virais e o prazo de 28 dias para controle total da situação”, explica. Segundo ele, o país já se autodeclarou livre da doença e aguarda agora a validação oficial da OMSA.
Apesar do controle rápido, as consequências comerciais foram significativas. “É muito dinheiro jogado fora com base no princípio da precaução exagerada. O vírus não se transmite pelo consumo de carne ou ovos e não viaja dentro dos pacotes de exportação. O que vemos, na prática, são barreiras comerciais disfarçadas de precaução sanitária”, afirma Santin, que também preside o Conselho Mundial da Agricultura.
Para ele, há uma necessidade urgente de revisão dos protocolos internacionais diante do avanço da influenza aviária em praticamente todos os grandes produtores globais. “Não é aceitável que, com um único foco, devidamente controlado, um país inteiro tenha exportações bloqueadas. Países como Estados Unidos e membros da União Europeia já operam com regionalização – bloqueando apenas áreas afetadas. O Brasil precisa ser tratado da mesma forma”, diz.

Ação conjunta
Outro ponto destacado pelo presidente da ABPA foi a importância da criação de um fundo nacional de defesa sanitária, proposta encampada pelo Ministério da Agricultura. Segundo ele, o ministro Carlos Fávaro e sua equipe vêm realizando um trabalho decisivo na estruturação desse projeto, que visa garantir respostas rápidas e articuladas em situações emergenciais.
“O caso do Rio Grande do Sul foi um excelente exemplo. Lá, a existência de um fundo estadual ativo permitiu ação imediata e efetiva, com o apoio da Associação Lasgave, da Secretaria de Agricultura e uso de tecnologia digital para mapear e controlar a área afetada. Essa agilidade salvou a produção local e evitou uma crise maior”, comenta.
A ABPA defende que o fundo nacional possa operar de forma integrada com os fundos já existentes nos estados e que todos os entes federativos sejam incentivados a criar estruturas semelhantes. “O produtor precisa contribuir, sim, mas precisa também da garantia de que terá apoio em momentos críticos. É uma ferramenta de segurança para toda a cadeia produtiva”, reforça.
Reabertura de mercados
Com relação às perspectivas de mercado, Ricardo Santin revelou que a prioridade agora é a reabertura de mercados que suspenderam temporariamente as compras do Brasil, mesmo com base em um único caso de influenza. Segundo ele, é essencial que os países reconheçam o controle sanitário eficiente do Brasil e apliquem as normas da OMSA de forma técnica, e não política.
“Estamos trabalhando para reverter esses fechamentos, que em muitos casos são protecionistas. Fecham as portas para o Brasil porque nosso produto é mais competitivo, com custo de produção mais baixo, o que incomoda produtores locais menos eficientes ou com estrutura de custo mais elevada”, explica.
Além disso, a ABPA vem atuando para abrir novos mercados, especialmente na Ásia e na África, onde há espaço para crescimento da presença brasileira. “Estamos de olho em países como Nigéria, Bangladesh e Indonésia. São regiões com população crescente e demanda por proteína animal aumentando. O Brasil está preparado para atender esses mercados com qualidade, sanidade e rastreabilidade.”

Olhar para o futuro
O presidente da ABPA também reconheceu que a influenza aviária é um desafio que veio para ficar no cenário global. Por isso, defende que o Brasil esteja pronto para lidar com eventuais novos casos sem que isso implique em punições comerciais desproporcionais.
“O vírus está no mundo todo, e o Brasil, infelizmente, não será mais uma exceção. Mas demonstramos que sabemos conter, controlar e erradicar rapidamente. Agora, o desafio é construir um modelo de convivência segura, com base na ciência e não no protecionismo”, afirma.
De acordo com Ricardo Santin, a tendência é que o Brasil, que já responde por quase 40% das exportações globais de carne de frango, assuma ainda mais protagonismo nos próximos anos, especialmente diante da redução de oferta por parte de concorrentes como EUA e União Europeia.
“Vamos continuar sendo referência mundial. Nosso sistema é robusto, nossa produção é sustentável e a confiança internacional no Brasil vai crescer ainda mais com esse exemplo de resposta à influenza aviária. Mas precisamos evoluir nas regras do jogo global”, finaliza.
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