Caroline Mendes – caroline@dc7comunica.com.br
Falar em sustentabilidade hoje é falar de visão 360 graus — um olhar que abrange toda a jornada da proteína animal, do campo ao consumidor, considerando impactos ambientais, econômicos e sociais. Dentro dessa abordagem, a pegada de carbono tornou-se um dos indicadores mais relevantes para avaliar a performance ambiental do setor e orientar decisões estratégicas rumo à descarbonização.
Com metas globais de redução de emissões e uma pressão crescente de mercados internacionais, o agronegócio brasileiro vem adotando medidas concretas para quantificar, reduzir e compensar os gases de efeito estufa (GEE) em suas cadeias produtivas.
De acordo com pesquisadores da Embrapa, técnicos da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal) e especialistas da Rede ILPF, os principais avanços estão na integração entre eficiência produtiva, inovação nutricional e energia limpa, pilares que fortalecem a competitividade e a sustentabilidade da proteína animal brasileira.
Mensurar para agir
O primeiro passo para uma produção de baixo carbono é entender de onde vêm as emissões. Pesquisas conduzidas pela Embrapa Meio Ambiente e pela Embrapa Gado de Corte, em parceria com cooperativas e indústrias, têm desenvolvido metodologias mais precisas para calcular a pegada de carbono da carne, do leite e dos ovos. Os modelos levam em conta desde o manejo de pastagens até o transporte e o processamento.
Segundo Maurício Lopes, pesquisador e ex-presidente da Embrapa, mensurar é a base da transformação. “Quando o produtor mede, ele descobre onde pode melhorar — seja na eficiência alimentar, na conversão de nutrientes ou na gestão dos resíduos”, explica.
Nutrição como aliada
Entre as estratégias de mitigação, a nutrição de precisão ganha protagonismo. Conforme o professor Paulo Carvalho, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ajustar o fornecimento de nutrientes à necessidade real dos animais reduz o desperdício e a excreção de compostos que geram gases de efeito estufa.
A Embrapa Pecuária Sudeste e empresas privadas vêm conduzindo estudos com aditivos naturais e ionóforos que reduzem a produção de metano entérico em bovinos de corte e leite — alcançando reduções médias entre 20% e 30% nas emissões.
Na avicultura e suinocultura, dados da ABPA mostram que a melhoria das dietas, combinada ao uso de enzimas e probióticos, tem garantido maior eficiência digestiva e menor impacto ambiental por quilo de proteína produzida.
Eficiência energética e economia circular
A transição energética é outro pilar da sustentabilidade 360. A Cooperativa Lar e a Aurora Coop, por exemplo, têm ampliado o uso de energia solar e biogás, reduzindo custos e dependência de fontes fósseis.
Em propriedades integradas, biodigestores transformam dejetos em energia e evitam a liberação de metano na atmosfera — um modelo que alia economia circular e autossuficiência energética.
Empresas como a JBS também investem em reaproveitamento de resíduos, convertendo subprodutos do abate em biomassa e fertilizantes orgânicos, além de apoiar projetos de biofertilização em propriedades rurais.
Captura e compensação de carbono
Além da redução direta, o setor aposta no sequestro e na compensação de carbono. A Rede ILPF, formada por instituições como Embrapa, CNA, Febraban e Ministério da Agricultura, estima que os sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta já ocupem mais de 20 milhões de hectares, com potencial de capturar até 1,5 tonelada de carbono por hectare ao ano.
Iniciativas de recuperação de pastagens degradadas e aumento da matéria orgânica no solo também contribuem para melhorar o balanço de carbono, reforçando o papel do Brasil como potência agroambiental.
Rastreabilidade climática: transparência e valor agregado
Com o avanço das métricas ESG, cresce a exigência de rastreabilidade climática, ou seja, a comprovação de práticas sustentáveis ao longo da cadeia. Plataformas digitais como as desenvolvidas por Athenagro e ClimAgro permitem integrar dados sobre emissões, consumo energético e produtividade, oferecendo relatórios auditáveis para certificações e exportações.
Para Ricardo Santin, presidente da ABPA, “a rastreabilidade climática será o novo passaporte verde da proteína animal brasileira. É por meio dela que vamos mostrar, com dados, o compromisso real com o meio ambiente”.
O desafio da escala
Apesar dos resultados promissores, o desafio está em expandir essas soluções para produtores de diferentes portes. O pesquisador Eduardo Assad, da Embrapa e do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, ressalta que a democratização do acesso a tecnologias e metodologias de mensuração é essencial para consolidar uma cadeia realmente de baixo carbono. “A sustentabilidade só é completa quando é inclusiva”, afirma.

Troféu Curuca celebra a sustentabilidade na prática
O avanço das práticas de mensuração e mitigação de emissões será destaque na próxima edição do Troféu Curuca, que acontece durante o SIAVS 2026. A premiação reconhece iniciativas sustentáveis em toda a cadeia da proteína animal e, nesta edição, reforçará o protagonismo dos projetos voltados à descarbonização, à integração produtiva e à gestão responsável dos recursos naturais.
Mais do que um reconhecimento, o Troféu Curuca simboliza o novo momento do setor: um comprometimento coletivo com a sustentabilidade 360, em que produtividade, inovação e responsabilidade ambiental caminham lado a lado rumo a um futuro de baixo carbono.





