Doenças que comprometem a reprodução, falhas na ordenha que elevam os custos e dificuldades na gestão de animais e funcionários estiveram entre os desafios discutidos no segundo dia do 15º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite (SBSBL), realizado na quarta-feira (7), no Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo de Nes, em Chapecó (SC). Promovido pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet), o encontro reuniu seis palestrantes nos painéis Sanidade Animal e Reprodução e Gestão e Qualidade do Leite, que abordaram estratégias para melhorar a produtividade e a rentabilidade dos sistemas leiteiros.
Controle sanitário começa no diagnóstico e na prevenção
Na abertura da programação, o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Elias Jorge Facury Filho apresentou estratégias de controle da leucose enzoótica bovina. O especialista explicou que, em propriedades com elevada proporção de animais infectados, o descarte imediato das vacas positivas pode ser economicamente inviável. Ao relatar o caso de uma fazenda com cerca de 80% das matrizes infectadas, destacou a importância de proteger bezerras e novilhas negativas, reforçar a biossegurança e realizar a reposição gradual do plantel. Em entrevista exclusiva à Feed&Food, ressaltou que as medidas devem considerar a distribuição da enfermidade no rebanho: “Então, a estratégia deve ser tomada em cima do exame sorológico, que vai me falar da frequência da doença por categoria”.

A necessidade de aprimorar o diagnóstico e as práticas de biossegurança também foi abordada por Alexandre Henrily de Souza, que discutiu os impactos sanitários e econômicos da tripanossomose bovina. Segundo o especialista, a enfermidade pode permanecer por longos períodos sem manifestações clínicas evidentes, enquanto compromete a produção de leite, a eficiência alimentar e a reprodução. Febre, anemia, abortos e queda de produtividade estão entre os possíveis sinais, mas não são exclusivos da doença. Alexandre alertou, inclusive, para o risco de atribuir à tripanossomose problemas provocados por outras enfermidades, como a diarreia viral bovina (BVD). Por isso, defendeu a investigação clínica e laboratorial, associada a medidas preventivas, como evitar o compartilhamento de agulhas, adotar cuidados durante procedimentos veterinários e realizar quarentena de animais introduzidos na propriedade.
Encerrando as apresentações da manhã, o médico-veterinário Rodolfo Mingoti, da MSD Saúde Animal, demonstrou como enfermidades no pós-parto podem atrasar o retorno à atividade reprodutiva, reduzir as taxas de concepção e aumentar as perdas gestacionais. Entre as metas de manejo apresentadas, destacou alcançar de 70% a 80% das vacas prenhes até 150 a 180 dias em lactação, resultado associado a condições sanitárias adequadas. O especialista também ressaltou que protocolos hormonais e tecnologias de monitoramento auxiliam o manejo, mas não substituem a prevenção e o diagnóstico precoce. “Mas não tem mágica, precisamos trabalhar bastante e não é uma única ferramenta que vai solucionar tudo. Se a sanidade não está caminhando bem, a reprodução também não vai caminhar bem”, afirmou.

Qualidade do leite exige dados e ajustes na ordenha
A relação entre sanidade e desempenho produtivo continuou no painel Gestão e Qualidade do Leite, iniciado pelo médico-veterinário português Luis Pinho. Especialista em saúde do úbere, ele apresentou estratégias para reduzir a contagem de células somáticas (CCS), indicador utilizado no acompanhamento da saúde mamária e das perdas associadas à mastite. Pinho explicou que a referência de 200 mil células/mL auxilia na classificação sanitária individual dos animais, mas não representa, isoladamente, um diagnóstico definitivo de infecção. O especialista defendeu a análise contínua dos indicadores e uma abordagem integrada que considera as condições de alojamento, a rotina de ordenha, o funcionamento dos equipamentos e as defesas dos animais, incluindo aspectos nutricionais e imunológicos.
Em entrevista exclusiva à Feed&Food, Pinho explicou que a redução das perdas depende da identificação dos fatores de risco e da prevenção de novas infecções. “O ideal é falarmos na prevenção e aí é que está o êxito e o maior ganho econômico”, destacou. O médico-veterinário também defendeu o uso racional de antibióticos, ressaltando que as decisões terapêuticas precisam considerar o agente causador, a gravidade da mastite, o histórico do animal e as possibilidades de recuperação. Dessa forma, o tratamento deve integrar uma estratégia de controle baseada em diagnóstico, sem substituir as ações preventivas.

Na sequência, Gian Nascimento, gerente de soluções de pós-mercado da DeLaval, abordou a influência dos equipamentos de ordenha sobre a qualidade do leite e a saúde dos animais. O especialista explicou que falhas na regulagem do vácuo, na pulsação, na retirada automática das teteiras e na estimulação das vacas podem provocar lesões nos tetos, elevar o risco de mastite e reduzir a eficiência operacional. Durante a palestra, apresentou o caso de uma propriedade de Goiás em que ajustes na rotina e no equipamento elevaram a capacidade de aproximadamente 160 para 210 vacas ordenhadas por hora. Segundo ele, as melhorias permitiram ampliar de cerca de 1.100 para 1.400 o número de animais atendidos pela mesma estrutura.
Gian ressaltou, entretanto, que a velocidade não deve ser avaliada isoladamente. Durante a mesa-redonda, explicou que uma ordenha mais rápida pode trazer prejuízos quando obtida por configurações que comprometem o conforto e a saúde dos tetos. Em entrevista à Feed&Food, destacou que os resultados das intervenções precisam ser acompanhados por indicadores de qualidade, recorrência de mastite, lesões e comportamento dos animais. “O nosso principal termômetro, a nossa principal ferramenta de medição se chama vaca”, afirmou. A discussão reforçou que os dados dos equipamentos devem ser interpretados em conjunto com a observação do rebanho e a avaliação das condições de manejo.

Rentabilidade depende de eficiência e gestão integrada
Na última palestra do dia, o zootecnista e doutor em Ciência Animal Jorge Henrique Carneiro discutiu os fatores que diferenciam sistemas leiteiros confinados mais eficientes. O especialista relacionou produtividade, longevidade das vacas, reprodução, infraestrutura e desenvolvimento das novilhas ao desempenho econômico das propriedades. Segundo ele, manter animais adultos produtivos por mais tempo pode reduzir a necessidade de reposição e melhorar a eficiência alimentar do rebanho. Entretanto, problemas de conforto, alimentação e superlotação dificultam a permanência desses animais e comprometem a recria. O crescimento dos rebanhos nem sempre é acompanhado pela ampliação das instalações, o que pode prejudicar o desenvolvimento das novilhas e impedir que cheguem ao primeiro parto com peso e maturidade corporal adequados.
Jorge também destacou a qualidade da silagem de milho, especialmente a digestibilidade da fibra, e a seleção genética voltada à produção de sólidos do leite. Segundo o especialista, propriedades interessadas em elevar os teores de gordura e proteína precisam considerar a forma de remuneração da indústria e planejar as mudanças com antecedência, pois os resultados do melhoramento genético podem levar vários anos para aparecer no rebanho. Além disso, produzir maior volume de leite ou aumentar a concentração de sólidos não significa, necessariamente, obter maior rentabilidade. Para avaliar o retorno econômico, Jorge recomendou acompanhar indicadores como a receita sobre o custo alimentar, relacionando produtividade, preço recebido e despesas com nutrição.

A gestão dos funcionários também recebeu atenção. Em uma análise apresentada durante a palestra, a rotatividade de trabalhadores apareceu entre os fatores associados ao desempenho das propriedades avaliadas. Segundo Jorge, a troca frequente de profissionais dificulta a continuidade dos processos e aumenta a necessidade de novos treinamentos, enquanto a remuneração pode influenciar a permanência de equipes qualificadas. Ao relacionar os diferentes fatores de desempenho, o especialista reforçou a importância dos resultados reprodutivos: “Eu sou nutricionista, mas eu reconheço que a reprodução pra mim é a base de fazenda eficiente”.
As discussões do segundo dia evidenciaram que os resultados da pecuária leiteira dependem da integração entre sanidade, reprodução, qualidade do leite e gestão econômica. A identificação precoce de doenças, a prevenção de perdas na ordenha, o desenvolvimento adequado dos animais e o acompanhamento de indicadores produtivos e financeiros foram apresentados como caminhos para ampliar a eficiência das propriedades. Além das palestras e mesas-redondas, a programação contou com avaliação de trabalhos científicos e atividades da Milk Fair. O 15º SBSBL encerra sua programação nesta quinta-feira (8), com o painel Nutrição de Alta Performance, dedicado a estratégias nutricionais para melhorar a produção e o desempenho dos rebanhos leiteiros.



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