A rastreabilidade vem ganhando protagonismo na pecuária brasileira em meio ao avanço das exigências relacionadas à transparência, segurança sanitária, sustentabilidade e origem da produção. Mais do que uma demanda regulatória, a ferramenta passa a ser vista pelo setor como um diferencial estratégico para fortalecer a competitividade da carne brasileira e ampliar oportunidades comerciais para os produtores.
O movimento ocorre em um momento de transformação da cadeia pecuária nacional, marcado pelo avanço da implementação do Programa Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB) e pelo aumento da pressão de mercados internacionais por mecanismos capazes de comprovar informações produtivas, sanitárias e socioambientais.
Na avaliação de Ana Doralina, presidente da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável, a rastreabilidade deixou de ser apenas uma exigência operacional para ocupar uma posição estratégica dentro da cadeia produtiva.
“Mais do que atender exigências específicas de exportação, a rastreabilidade permite acompanhar a trajetória dos animais ao longo da cadeia, reunindo informações relacionadas à identificação, movimentação, histórico sanitário e manejo. Na prática, o sistema pode auxiliar produtores na mitigação de riscos sanitários, na gestão da propriedade e no acesso a mercados e programas que valorizam práticas sustentáveis”, afirma.
Transparência passa a pesar mais nas relações comerciais
O avanço de discussões regulatórias envolvendo mercados internacionais, especialmente a União Europeia, reforça uma tendência de maior cobrança por transparência e comprovação de práticas produtivas ao longo da cadeia da proteína animal.
Segundo Ana Doralina, nesse cenário, a rastreabilidade passa a representar também uma ferramenta de diferenciação para o produtor rural.
“Nesse contexto, ferramentas como a rastreabilidade passam a representar não apenas um mecanismo de adequação, mas também uma oportunidade de diferenciação e fortalecimento da posição do produtor no mercado”, explica.
A presidente da entidade destaca que a competitividade da pecuária não está mais ligada apenas ao volume produzido. Hoje, fatores como previsibilidade, confiança, organização de dados e comprovação de origem ganham peso crescente nas negociações.
“A rastreabilidade permite demonstrar origem, fortalecer a confiança entre os diferentes elos da cadeia e criar condições para que o produtor amplie suas oportunidades comerciais. Não se trata apenas de atender exigências de mercado, mas de posicionar a propriedade em um ambiente cada vez mais orientado por dados e relações construídas com base na confiança”, ressalta.

Ferramenta também melhora gestão dentro da propriedade
Além da abertura de mercados, a rastreabilidade também pode gerar impactos diretos na rotina das fazendas. O acesso a informações individualizadas dos animais auxilia produtores na tomada de decisões, no acompanhamento sanitário e no aumento da eficiência produtiva.
Para o vice-presidente da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável, Delair Bolis, a ferramenta também tende a ampliar o acesso a programas ligados à sustentabilidade, linhas de crédito e iniciativas que exigem comprovação de práticas produtivas.
“A rastreabilidade precisa ser vista como um investimento na capacidade futura da propriedade e não apenas como uma adequação às exigências externas. Quando o produtor organiza seus dados e estrutura informações sobre seu rebanho, ele fortalece sua gestão, amplia sua capacidade de resposta diante de desafios sanitários e cria condições para acessar novas oportunidades econômicas”, afirma.
Segundo Bolis, o setor vive um processo de transformação que deve valorizar produtores capazes de demonstrar conformidade, organização e credibilidade.
“O mercado passa por mudanças importantes e quem consegue demonstrar conformidade, organização e credibilidade tende a construir uma posição mais sólida e resiliente”, complementa.
Inclusão produtiva ainda é um desafio
Apesar do avanço da agenda, representantes do setor avaliam que a ampliação da rastreabilidade precisa ocorrer acompanhada de mecanismos capazes de facilitar a adesão dos produtores, especialmente em relação à assistência técnica, integração de sistemas, financiamento e segurança jurídica.
“É preciso, ao falarmos sobre essa nova dinâmica do setor, considerar não apenas aspectos tecnológicos, mas também condições que permitam a inclusão produtiva e a construção de uma transição estruturada para toda a cadeia”, destaca Delair Bolis.
Segundo ele, a rastreabilidade passa a integrar uma agenda mais ampla ligada à eficiência, competitividade e fortalecimento da pecuária nacional.
Debates avançam no cenário internacional
O tema também esteve presente no encontro regional da Mesa Global de Carne Sustentável (GRSB), realizado recentemente em São Paulo. Durante o evento, representantes da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável defenderam o avanço de uma agenda alinhada à transparência, sustentabilidade e fortalecimento da confiança nas cadeias produtivas.
Para a entidade, a participação em fóruns internacionais ajuda a ampliar o diálogo entre produtores, indústria e mercado, além de fortalecer a presença do Brasil nos debates globais sobre produção sustentável de proteína animal.
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