Caroline Mendes – caroline@dc7comunica.com.br
O agronegócio brasileiro se prepara para um 2026 de extremos, onde o recorde de produção de grãos se choca com a retração na oferta de proteína animal e a volatilidade geopolítica. O relatório “Perspectivas para o Agronegócio Brasileiro 2026” do Rabobank, divulgado em Outubro de 2025, traça um panorama complexo, mas de crescente protagonismo do Brasil no cenário global, especialmente nos setores de soja, milho e carnes.
Proteínas Animais: Boi gordo em ciclo de alta e a ascensão das carnes brancas
O setor de proteína animal é o que apresenta o cenário de maior tensão e potencial valorização. A carne bovina, em particular, deve enfrentar um período de retração na produção em 2026, projetada pelo RaboResearch entre 5% e 6% em relação a 2025, totalizando 10,5 milhões de toneladas em equivalente carcaça.
Essa queda é um reflexo direto do ciclo de retenção de fêmeas, após três anos de abates intensos. A menor oferta de bezerros deve sustentar preços maiores do boi gordo pelo menos até 2028. No mercado interno, a arroba já ultrapassou BRL 330 nos contratos futuros para fevereiro de 2026, sinalizando uma alta de até 10% frente ao mercado físico.
No entanto, a valorização da carne bovina deve encontrar resistência no varejo, impulsionando o consumo de proteínas mais acessíveis. O Rabobank projeta uma queda de 8% a 9% no consumo per capita de carne bovina, que deve cair para próximo de 30 kg por habitante por ano. É neste cenário que as carnes brancas ganham espaço:
- Frango e Suínos: O setor deve se beneficiar da migração do consumo interno e da forte demanda externa. As exportações de carne suína, por exemplo, devem ser impulsionadas pela tendência de desvalorização do Real no segundo semestre de 2026, aumentando a competitividade do produto brasileiro. O Brasil se mantém como um dos principais players no mercado global de aves e suínos, com a demanda externa sustentando a oferta.

Grãos: Soja bate recorde e milho ganha protagonismo doméstico
O panorama dos grãos é marcado por recordes e uma mudança estrutural na dinâmica de preços do milho.
Soja: Liderança Incontestável na China
A safra brasileira de soja 2024/25 foi histórica, com uma produção total estimada em 172 milhões de toneladas pelo RaboResearch. Para 2025/26, a projeção é de um crescimento de 2% na área plantada, um ritmo mais lento devido à pressão das altas taxas de juros sobre o fluxo de caixa dos produtores.
No cenário internacional, o Brasil consolida sua posição como principal fornecedor de soja para a China, que deve aumentar suas importações em 5% (para 112 milhões de toneladas) em 2025/26. As tensões comerciais entre EUA e China continuam a favorecer o Brasil, garantindo uma demanda externa robusta e prêmios de exportação mais elevados.
Milho: A Força da Demanda Interna
O milho também atingiu um recorde de produção em 2024/25, com 142 milhões de toneladas. No entanto, a grande novidade é a mudança no protagonismo do mercado. O consumo interno, especialmente impulsionado pelo setor de proteína animal e, de forma ainda mais expressiva, pela produção de etanol (cuja demanda deve ultrapassar 23 milhões de toneladas, um crescimento de 18%), passou a exercer maior influência sobre os preços domésticos.
Essa forte demanda interna, somada à valorização do Real no primeiro semestre de 2025, fez com que os preços pagos no mercado doméstico superassem a paridade de exportação, reduzindo o apetite dos importadores pelo milho brasileiro. Para 2025/26, o RaboResearch projeta um aumento de 2,2% na área cultivada, mas com uma produção total de 137 milhões de toneladas, uma redução de 5 milhões de toneladas em relação ao ciclo anterior, devido à base comparativa elevada.
Desafios e Volatilidade
O relatório do Rabobank aponta que o ambiente de volatilidade será a tônica para 2026, com desafios que vão além da porteira:
- Geopolítica e Tarifas: A concentração das exportações de carne bovina em China e EUA (mais de 59% da receita) representa um risco estratégico. A imposição de tarifas adicionais pelos EUA (chegando a 76,4%) e a possibilidade de novas barreiras pela China exigem cautela.
- Insumos: Produtores de grãos continuarão enfrentando aperto nas margens operacionais, com a recuperação esperada apenas para o final de 2027, devido aos altos custos de adubação, especialmente do fósforo.
- Câmbio: A desvalorização do Real esperada para o segundo semestre de 2026 pode beneficiar as exportações de suínos, mas a apreciação observada em 2025 já havia impulsionado os preços internos do milho e limitado o aumento das exportações.
Em suma, o agronegócio brasileiro se consolida como um gigante global, mas precisará de estratégias sofisticadas de gestão de risco e diversificação de mercados para navegar pelo complexo cenário de 2026.
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