A sustentabilidade na cadeia brasileira de carne de frango passa a incorporar com mais intensidade temas como bem-estar animal, rastreabilidade, sanidade e uso responsável de antimicrobianos. Em um setor de grande escala produtiva e presença internacional, a capacidade de medir e demonstrar as condições de produção ganha importância para a gestão de riscos e para a evolução das práticas adotadas nos aviários.
O cenário é analisado na terceira edição do Observatório do Frango, iniciativa da Alianima que avaliou os compromissos públicos de 14 empresas da avicultura brasileira. O levantamento relaciona o bem-estar das aves a uma agenda mais ampla de sustentabilidade, que envolve Saúde Única abordagem que considera a conexão entre as saúdes humana, animal e ambiental, resistência antimicrobiana, influenza aviária, rastreabilidade e transparência.
“Não se trata apenas de uma discussão sobre bem-estar animal. Estamos falando de fatores que influenciam acesso a mercados, percepção de risco, reputação e competitividade ao longo de toda a cadeia produtiva”, afirma Ana Paula Souza, médica-veterinária e especialista em bem-estar de aves da Alianima.
Condições de criação entram na agenda sustentável
Entre os indicadores analisados está a densidade de alojamento, que corresponde à quantidade de aves mantidas em determinada área do aviário. Esse fator pode influenciar movimentação, conforto térmico, qualidade do ar e acesso das aves aos recursos disponíveis durante a criação.
Segundo o Observatório, aproximadamente 1,5 bilhão de frangos já são produzidos em densidades reduzidas, volume equivalente a cerca de 27,7% da produção considerada pelo levantamento. Para a entidade, o dado mostra que parte da estrutura necessária para avançar em práticas de bem-estar já está presente na avicultura brasileira.
O estudo ressalta, porém, que a adoção de determinadas práticas não é suficiente quando os resultados não são acompanhados por metas, indicadores e mecanismos de divulgação. “Apesar disso, ainda há espaço para ampliar a formalização de metas, indicadores e mecanismos de transparência capazes de demonstrar de forma mais consistente os avanços já existentes no setor e as intenções futuras”, destaca Ana Paula.
Rastreabilidade amplia capacidade de comprovação
A rastreabilidade também ganha importância dentro dessa agenda ao permitir a organização de informações sobre origem, manejo e condições de produção. Na prática, o desafio não está apenas em reunir dados, mas em criar sistemas capazes de acompanhar os processos e demonstrar de maneira clara quais critérios são adotados pela cadeia.
Essa capacidade de comprovação se conecta à sustentabilidade porque permite identificar riscos, acompanhar avanços e verificar se compromissos anunciados pelas empresas estão sendo efetivamente executados. O relatório propõe três fases técnicas para a progressão das práticas de bem-estar animal, com a intenção de permitir uma evolução gradual, baseada em planejamento e acompanhamento de resultados.
A ausência de compromissos estruturados, segundo a análise, pode reduzir a transparência e dificultar uma resposta coordenada da avicultura diante de mudanças regulatórias e comerciais. O desafio está em transformar ações já existentes em uma agenda setorial de longo prazo, adaptada às características produtivas, climáticas e econômicas do Brasil.

Sanidade e bem-estar precisam avançar juntos
O relatório também aproxima o bem-estar animal das discussões sobre sanidade e resistência antimicrobiana. Dentro do conceito de Saúde Única, as condições de criação, o manejo, a biosseguridade e a saúde das aves integram uma mesma estratégia de prevenção de riscos.
A relação exige atenção porque alterações nas condições dos aviários podem afetar o conforto e a saúde dos animais, além de interferir na eficiência produtiva. Por isso, o avanço da sustentabilidade na produção de carne de frango depende de uma combinação entre critérios de bem-estar, controle sanitário, qualificação das equipes, infraestrutura adequada e acompanhamento de indicadores.
Essa abordagem permite que o tema deixe de ser tratado de forma isolada e passe a integrar a gestão produtiva. Para a cadeia, o objetivo é conciliar viabilidade econômica, segurança dos alimentos, saúde dos plantéis e melhoria contínua das condições de criação.
Mercado internacional amplia pressão por transparência
A dimensão das exportações brasileiras ajuda a explicar por que essas discussões também influenciam a competitividade. Entre janeiro e maio de 2026, o Brasil exportou 2,453 milhões de toneladas de carne de frango, alta de 8,7% em relação ao mesmo período de 2025. A receita acumulada chegou a US$ 4,714 bilhões, crescimento de 11,3%.
Somente em maio, os embarques somaram 509,9 mil toneladas e geraram receita de US$ 1,009 bilhão. China, Japão, União Europeia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos estiveram entre os principais destinos da proteína brasileira no mês.
“Mesmo diante desse contexto, o Brasil ampliou significativamente sua presença em mercados estratégicos e de valor agregado, como Japão, União Europeia, Coreia do Sul e China, ao mesmo tempo em que mantivemos forte presença no Oriente Médio e ampliamos oportunidades em mercados emergentes. Isso demonstra a diversificação da pauta exportadora brasileira e a competitividade da nossa cadeia produtiva”, afirma Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
Para o Observatório, a presença internacional abre uma oportunidade para que o Brasil participe da construção de soluções de bem-estar animal adequadas à própria realidade, em vez de apenas responder a padrões definidos externamente.
“A questão não é se haverá mudanças nas expectativas dos mercados internacionais, mas quem irá liderar esse processo. O Brasil reúne condições para participar da construção dessas soluções, e não apenas reagir a exigências externas no futuro”, conclui Ana Paula.




