Maria Antônia Arcari1, Giovana Siqueira Giacomelli2 e Júlio Otávio Jardim Barcellos⁵
A revisão diária dos pastos, conhecida em algumas regiões como recorrida de campo, é uma atividade fundamental para a gestão operacional em fazendas de pecuária de corte. Essa prática consiste na inspeção sistemática das áreas de pastejo e do rebanho, permitindo acompanhar as condições dos animais, da pastagem e da infraestrutura da propriedade. Para que essa revisão seja eficiente, três decisões precisam ser definidas previamente: quais áreas ou piquetes/pastos serão avaliados, quais os pontos devem receber maior atenção e qual a equipe será responsável pela atividade. Durante a inspeção, os peões/vaqueiros percorrem as áreas previamente definidas observando principalmente seis aspectos: o estado do rebanho, a disponibilidade de pasto, as cercas, as fontes de água, os cochos de suplementação mineral ou rações e a presença de possíveis anormalidades no campo. Esse processo permite identificar rapidamente problemas que precisam ser corrigidos ou comunicados ao responsável pela fazenda, funcionando como um monitoramento contínuo da produção pecuária.
Na prática, a revisão segue um padrão de observação que busca garantir que nenhum aspecto importante do manejo seja negligenciado. A principal atenção deve ser direcionada ao rebanho, pois os próprios animais frequentemente indicam quando há alguma irregularidade no ambiente ou na sua condição sanitária ou alimentar. Durante a inspeção, a equipe deve observar sinais que possam indicar doença ou debilidade, como animais isolados do grupo, redução do pastejo, postura apática, dificuldade de locomoção ou alterações no comportamento.
A avaliação também inclui a observação da condição corporal dos animais, verificando se estão mantendo, ganhando ou perdendo estado ao longo do tempo. Outro aspecto importante é confirmar se todos os animais do lote estão presentes, por meio de contagens periódicas que permitem identificar perdas ou a presença de animais de outros lotes ou propriedades. Alterações no comportamento do rebanho, como agitação excessiva ou concentração anormal em determinadas áreas do piquete, também podem indicar algum tipo de problema no ambiente ou no manejo.
¹ Bolsista de Iniciação Científica – Acad. Med. Vet., NESPro/UFRGS.
² Bolsista de Iniciação Científica – Acad. Zoot., NESPro/UFRGS.
³ Zootecnista, Mestranda PPGZoot NESPro/UFRGS.
⁴ Bolsista de Iniciação Científica – Acad. Zoot., NESPro/UFRGS.
⁵ Med.Vet., Professor, Coordenador NESPro/UFRGS.
Além da observação do rebanho, a revisão dos pastos envolve avaliar as condições da área de pastejo e da infraestrutura da propriedade. A pastagem deve ser analisada quanto à altura, qualidade e disponibilidade para sustentar os animais, evitando situações de escassez que possam comprometer o desempenho produtivo do rebanho. A coloração dos pastos, especialmente pelas tonalidades do “verde” são indicativos de qualidade do pasto. Pastos com verde escuro e brilhante, significam que estão com ótima presença de folhas e em estádio vegetativo, portanto, com boa condição nutricional. Contudo, na medida que vão se tornando mais claros, e tendendo à cor verde desbotado, indicam estádio fenológico mais adiantado e perda de qualidade.
Também é fundamental verificar as cercas, observando possíveis danos em fios ou estruturas, especialmente em áreas mais suscetíveis a problemas, como margens de rios ou áreas alagadiças. Os pontos de água devem ser avaliados quanto à qualidade e à disponibilidade de água, bem como às condições de acesso para os animais. Da mesma forma, os cochos de suplementação mineral precisam estar limpos, em bom estado de conservação e devidamente abastecidos.
Por fim, qualquer anormalidade observada durante a revisão, como presença de animais mortos, indícios de furto, ocorrência de parasitas ou problemas estruturais, deve ser registrada e comunicada ao responsável pela fazenda quando não puder ser resolvida imediatamente, permitindo a adoção das medidas necessárias.

A ausência ou a realização inadequada da revisão dos pastos pode gerar perdas relevantes na produção pecuária, pois reduz a capacidade de identificar rapidamente problemas no rebanho, na pastagem ou na infraestrutura da propriedade. Sem esse monitoramento frequente, situações como animais doentes, mortes, perda de animais ou falhas em cercas e pontos de água podem permanecer sem identificação por vários dias, aumentando os prejuízos e dificultando a adoção de medidas de manejo adequadas.
No cotidiano da fazenda, essa atividade também pode enfrentar desafios operacionais, como grandes distâncias entre áreas de pastejo, condições climáticas adversas ou limitações de mão de obra. Nesse contexto, uma estratégia eficiente é organizar as revisões de forma que trabalhadores mais experientes atuem junto aos menos experientes, favorecendo a troca de conhecimento e o aprendizado prático sobre a observação do rebanho e das condições da área de pastejo.
Além disso, a frequência e a qualidade da revisão dos pastos devem considerar as diferentes exigências do rebanho ao longo do ano, pois determinadas categorias de animais demandam maior atenção em momentos específicos do ciclo produtivo. Um monitoramento adequado permite identificar precocemente problemas sanitários, nutricionais ou estruturais que podem comprometer o desempenho dos animais. Períodos de parição ou pós-desmama existem recorridas especializadas, pois nesses momentos aumentam as ocorrências de problemas e necessidades de intervenções. Por fim, é importante considerar que ao final de cada recorrida, é obrigatório o registro de todas as ocorrências para criar a memória e os indicadores da fazenda. Assim, a revisão dos pastos não se limita a uma atividade operacional da rotina da fazenda, mas exerce influência direta sobre os resultados produtivos da propriedade, contribuindo para reduzir perdas, melhorar a eficiência do manejo e favorecer melhores índices produtivos ao longo do sistema pecuário.
Fonte: Prof Júlio Otávio Jardim Barcellos, adaptado pela equipe Feed&Food
LEIA TAMBÉM
Disparada do barril de petróleo: impactos para a economia brasileira e quais são as saídas possíveis




