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O biogás sai, os nutrientes ficam: por que o manejo não termina no biodigestor

Projeto iniciado pela Embrapa em 2026 busca concentrar nutrientes de digestatos que podem conter mais de 90% de água e ampliar seu aproveitamento agrícola.

Em uma granja de terminação com 3 mil suínos, uma referência técnica utilizada pela Embrapa estima a geração de 1,62 milhão de litros de dejetos líquidos em 120 dias. O cálculo considera 4,5 litros por animal/dia para esse sistema produtivo valor que varia conforme instalações e manejo da água e ajuda a dimensionar um fluxo que continua exigindo destino depois que sai das baias.

A escala nacional amplia a discussão. O Brasil encerrou 2025 com 43,99 milhões de suínos no efetivo do rebanho e registrou 60,69 milhões de animais abatidos sob inspeção sanitária ao longo do ano, segundo o IBGE. Os indicadores medem situações diferentes: o efetivo funciona como uma fotografia da população animal em determinado momento, enquanto o abate representa o fluxo acumulado durante o ano. Nenhum deles permite calcular diretamente a geração nacional de dejetos, mas ambos ajudam a dimensionar a cadeia. No primeiro semestre de 2026, o abate chegou a cerca de 31 milhões de cabeças.

A concentração regional também chama atenção. A Região Sul respondeu por 67,4% do abate nacional de suínos em 2025. O indicador não mede diretamente onde os dejetos são gerados, mas evidencia a forte concentração territorial da cadeia aspecto relevante quando o manejo passa a envolver transporte e redistribuição de nutrientes.

Do volume ao metano

O problema ambiental não está apenas na quantidade produzida. Artigo publicado em 2025 por pesquisadores da Embrapa, entre eles Airton Kunz, mostra que, no inventário do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação referente a 2020, os suínos responderam por 46% das emissões de metano provenientes do manejo de dejetos entre as categorias animais consideradas, aproximadamente 390 Gg de CH₄ por ano. A emissão está relacionada principalmente à decomposição em condições anaeróbias durante armazenamento e tratamento.

Transformar esse cenário exige escolher a rota de acordo com cada propriedade. Pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Kunz sintetiza o princípio ao apresentar uma publicação técnica dedicada à gestão desses resíduos: “cada rota de tratamento dos dejetos de suínos é adequada a uma realidade de sistema produtivo”. Volume, composição, estrutura da granja, área disponível e destino dos produtos precisam, portanto, anteceder a decisão sobre qual tecnologia instalar.

Energia não encerra a conta

A digestão anaeróbia é uma dessas alternativas. Nela, parte da matéria orgânica é convertida em biogás, que pode ser aproveitado para geração de eletricidade, calor ou, após purificação, biometano. O restante não desaparece. Boa parte da água e dos nutrientes permanece no material resultante, o digestato, que também precisa ser manejado.

Daiana Gotardo Martinez, diretora técnica do Centro Internacional de Energias Renováveis – Biogás (CIBiogás), aponta que erros de projeto começam ao superestimar a disponibilidade de substrato, dimensionar o biodigestor sem considerar variações de carga ou escolher tecnologias incompatíveis com o resíduo. Há ainda uma etapa posterior que não pode ser esquecida. “Também é comum não avaliar adequadamente a destinação do digestato e a demanda energética”, afirma Daiana em resposta encaminhada à Feed&Food.

Dejeto, digestato e fertilizante, portanto, não são sinônimos. Os dejetos líquidos reúnem fezes, urina e água incorporada ao manejo da granja. Quando esse material passa pela digestão anaeróbia, o efluente remanescente é o digestato. Ele contém nutrientes com valor agronômico, mas seu uso depende da composição, das condições do solo e da necessidade das culturas.

Água, energia e nutrientes no mesmo sistema

Pesquisas conduzidas no Instituto de Zootecnia (IZ-APTA) mostram que etapas de tratamento podem recuperar diferentes recursos. Simone Raymundo de Oliveira, pesquisadora científica com atuação em tratamento de efluentes, aponta que, nas condições avaliadas pelo projeto, os resíduos de uma matriz e seus leitões apresentam potencial energético expressivo: “é possível obter o equivalente a 55 botijões de gás (GLP P-13) por ano”. No mesmo trabalho, o sistema alcançou recuperação de 70% da água contida nos dejetos.

Os números representam as condições específicas do sistema avaliado e não uma média aplicável a todas as granjas. Ainda assim, mostram que o tratamento pode reunir mais de uma finalidade. Ao detalhar o sistema estudado pelo IZ, Simone explica que “com o sistema temos a produção de dois tipos de adubos, altamente nutritivos para as plantas, e de água”.

Biodigestão permite aproveitar parte da matéria orgânica dos dejetos para produção de biogás, enquanto o digestato permanece com água e nutrientes que ainda exigem manejo. Crédito: Reprodução

A lógica é aproveitar diferentes fluxos que antes precisavam apenas ser armazenados ou destinados. Energia, água e nutrientes podem retornar ao sistema produtivo, mas a possibilidade de recuperá-los não elimina a necessidade de avaliar quanto existe, onde será utilizado e a que custo.

Quando o nutriente vira excesso

O fato de haver nutrientes no material não significa que qualquer quantidade possa voltar à lavoura. Em trabalho publicado em 2025, Kunz e os demais autores ressaltam que o aproveitamento agronômico precisa ocorrer “respeitando sempre o balanço de nutrientes”. A razão é que nitrogênio, fósforo e potássio presentes nos dejetos ou no digestato não necessariamente aparecem na mesma proporção exigida pelas culturas.

O fósforo exemplifica esse limite. Essencial ao desenvolvimento vegetal, ele pode se acumular quando aplicações sucessivas superam a demanda das plantas, aumentando a possibilidade de perdas para o ambiente. Por isso, a dose não deve ser definida simplesmente pelo volume disponível na propriedade: análise do solo, composição do material, cultura implantada e histórico de aplicações precisam fazer parte da decisão.

A concentração da produção acrescenta uma barreira logística. Se uma propriedade ou região gera mais nutrientes do que as áreas agrícolas próximas conseguem utilizar, é preciso levá-los mais longe. O problema é que transportar grandes volumes de material predominantemente líquido pode comprometer a lógica econômica desse aproveitamento.

Menos água, mais concentração

É justamente esse gargalo que passou a ser alvo de uma iniciativa nacional de pesquisa. Em fevereiro de 2026, a Embrapa iniciou a Iniciativa Brasileira para o Digestato, prevista até janeiro de 2030 e liderada pela Embrapa Solos. O projeto não é exclusivo da suinocultura, mas enfrenta uma questão diretamente ligada à expansão da biodigestão: digestatos que podem apresentar mais de 90% de água, enquanto carregam nutrientes que poderiam ser reaproveitados na agricultura.

A proposta é separar valor de volume. Entre as tecnologias pesquisadas estão a recuperação de fósforo em formas concentradas, como fosfato de cálcio e estruvita; de nitrogênio, por processos com membranas; e de potássio, por retenção em materiais como zeólitas. Concentrar esses componentes pode facilitar armazenamento e transporte para regiões onde exista demanda agronômica, evitando movimentar grandes volumes de água junto com os nutrientes.

Os elementos recuperados também serão utilizados no desenvolvimento de fertilizantes organominerais e avaliados em soja, milho, trigo, forrageiras e frutíferas. O projeto, porém, ainda está em desenvolvimento. As tecnologias passarão por avaliações em escala-piloto para medir eficiência agronômica, impactos ambientais e viabilidade econômica antes de uma eventual adoção mais ampla.

Fechar o ciclo exige gestão

Essa última variável ganha peso principalmente para pequenos e médios produtores. Nas contribuições encaminhadas à Feed&Food, pesquisadores do IZ-APTA destacam que, embora biodigestores e outras tecnologias de tratamento já estejam disponíveis, o investimento inicial ainda pode ser elevado e o retorno financeiro nem sempre é suficientemente atrativo para propriedades menores.

É nesse ponto que cooperativas, agroindústrias, associações e assistência técnica podem ampliar a capacidade de adoção. Projetos compartilhados, orientação especializada e planejamento regional ajudam a conectar escala, tecnologia e destino dos recursos sem partir da premissa de que uma mesma estrutura funciona para todos.

A equação ambiental dos dejetos, portanto, começa antes da escolha do equipamento e continua depois do tratamento. Quanto é produzido, o que existe no material, qual energia pode ser aproveitada, quanto o solo consegue receber, a que distância estão as áreas agrícolas e quanto custa levar os nutrientes até elas fazem parte da mesma decisão.

Quanto mais eficiente a suinocultura se torna em retirar energia dos resíduos, mais evidente fica a pergunta seguinte: o que fazer com aquilo que o gás não leva embora? O biogás sai do biodigestor. Fechar o ciclo depende também de fazer água e nutrientes chegarem ao lugar certo, na quantidade certa e de uma forma que funcione ambiental e economicamente para a propriedade.

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