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Importação de tilápia volta a crescer e soma 10,2 mil toneladas até agosto

Entrada de filés amplia debate sobre preços e competitividade, enquanto custos, regulação e sanidade desafiam a cadeia brasileira.

As importações brasileiras de tilápia voltaram a crescer em agosto de 2026, após recuarem nos meses anteriores. Segundo Manoel Xavier Pedroza Filho, pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura e coordenador do Centro de Inteligência e Mercado em Aquicultura (CIAqui), foram 1.191 toneladas no mês, elevando o acumulado de janeiro a agosto para 10.245 toneladas.

Como o volume analisado corresponde a filés, Pedroza calcula que as importações acumuladas equivalem a aproximadamente 30 mil toneladas de tilápia em peso vivo. Na comparação feita pelo pesquisador com as 499,4 mil toneladas registradas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2024, o equivalente corresponde a cerca de 6% daquela produção percentual que não representa participação no consumo ou no mercado interno. O IBGE registra oficialmente 499.364 toneladas de tilápia produzidas em 2024.

A dimensão da cadeia nacional também aparece nos levantamentos setoriais. O Anuário Peixe BR 2026 estima que o Brasil produziu 707.495 toneladas de tilápia em 2025, alta de 6,83% sobre o ano anterior e volume equivalente a aproximadamente 70% da produção brasileira de peixes de cultivo.

Onde a concorrência pesa mais

Pedroza explica que as compras externas ganharam força no primeiro trimestre, atingindo 1.956 toneladas em março. O volume recuou nos meses seguintes até alcançar 957 toneladas em julho, antes da retomada registrada em agosto. Os números de março e julho também foram divulgados pela PEIXE BR com base em informações da Embrapa Pesca e Aquicultura.

Na avaliação do pesquisador, o movimento já produz efeitos sobre segmentos da cadeia nacional, especialmente pela combinação entre volume e preço. “Então, as importações já impactam a produção nacional, não apenas pelo grande volume, mas também pelo preço baixo do produto importado, que em alguns casos pode ser menor do que o custo de produção do filé de tilápia produzido no Brasil”, afirma Pedroza.

Manoel Xavier Pedroza Filho, pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura e coordenador do CIAqui, avalia os impactos das importações sobre a competitividade da tilapicultura brasileira. Crédito: Reprodução

A concorrência tende a ser mais direta nos mercados concentrados na comercialização de filés. Pedroza cita São Paulo e outros estados do Sudeste e Sul entre os mais expostos e considera que o preço pode ganhar peso na escolha do consumidor. “Muitas vezes o consumidor não percebe essa diferença e acaba decidindo a compra apenas com base no preço”, avalia.

A pressão sobre os valores pagos ao produtor, porém, não está associada exclusivamente às importações. Em agosto, a PEIXE BR apontou que a desaceleração sazonal do consumo durante o inverno, combinada ao avanço do pescado importado do Vietnã, pressionou os preços e a rentabilidade de parte da cadeia no segundo trimestre.

Custos, escala e produtividade

Para Pedroza, parte da capacidade competitiva vietnamita está relacionada às condições estruturais encontradas no país. “O grande diferencial de competitividade da tilápia do Vietnã vem do seu menor custo de produção, tanto na fazenda como na indústria de processamento. Isso é explicado por fatores estruturais como programas governamentais que apoiam a produção com financiamento a juros subsidiados e outros benefícios, mas também pelo menor custo da mão de obra”, explica.

Na avaliação do pesquisador, a resposta brasileira também precisa passar por mudanças dentro da própria cadeia. “No âmbito da cadeia produtiva nacional, é preciso apoiar a modernização e o aumento de escala das empresas”, afirma. Entre as medidas citadas estão incentivo à industrialização e à integração vertical, criação de um programa nacional de monitoramento sanitário, apoio à inovação em genética e processamento e simplificação da certificação sanitária para indústrias de pequeno porte.

Pedroza também aponta medidas no campo comercial. “No âmbito da proteção comercial, a implementação de medidas como cotas de importação e taxação poderia reduzir os efeitos dessa concorrência predatória”, avalia. A classificação de “concorrência predatória” representa a análise do pesquisador.

PEIXE BR destaca ambiente regulatório

Francisco Medeiros, presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (PEIXE BR), também considera que a entrada adicional de produto interfere no mercado doméstico. “Qualquer volume extra que chegue impacta nos preços, isso é efeito natural para qualquer produto que um país produza e seja autossuficiente”, afirma.

A avaliação de Medeiros diverge da análise de Pedroza quanto ao peso dos custos dentro da propriedade. Para o presidente da entidade, os custos produtivos nas fazendas brasileiras e vietnamitas são próximos quando convertidos para a mesma moeda, enquanto regulamentação e tributação ganham maior importância na disputa. “Os custos de produção nas fazendas vietnamitas e brasileiras são similares em dólar, porém nós temos escalonamento de regulamentação e tributos e eles têm produção desburocratizada e subsídios”, afirma.

As duas fontes, portanto, convergem ao identificar diferenças estruturais nas condições de competição, mas atribuem pesos distintos às causas. Pedroza enfatiza custos de produção, processamento e políticas de apoio, enquanto Medeiros concentra sua avaliação no ambiente regulatório, na tributação e nos subsídios.

Francisco Medeiros, presidente da PEIXE BR, destaca o peso da regulação, da tributação e dos subsídios na competitividade da tilapicultura brasileira. Crédito: Reprodução

Para Medeiros, produtores e indústrias brasileiros já apresentam elevada eficiência, mas parte dessa competitividade é reduzida pelas condições externas à produção. Na avaliação do dirigente, “o ambiente regulatório extirpa toda competitividade conquistada na cadeia de produção”.

Sanidade amplia o debate

A questão sanitária completa o conjunto de preocupações relacionadas às importações. Questionado sobre mudanças consideradas prioritárias, Medeiros afirma que “o setor defende o respeito à legislação sanitária nacional e internacional”.

O tema já provocou medidas estaduais. Desde dezembro de 2025, Santa Catarina proíbe a entrada, o trânsito, a comercialização e a distribuição de tilápia proveniente do Vietnã. A Portaria SAQ nº 010/2025 adotou a restrição de forma preventiva diante das preocupações relacionadas ao Tilapia Lake Virus (TiLV) e à ausência, naquele momento, da conclusão da Análise de Risco de Importação citada pelo governo estadual.

Em março de 2026, São Paulo também estabeleceu medidas preventivas de controle sanitário para o ingresso, trânsito, comercialização e distribuição de tilápia proveniente de países com ocorrência confirmada do TiLV ou de outros patógenos exóticos capazes de representar risco à aquicultura nacional.

No âmbito federal, a suspensão cautelar das importações de tilápia oriunda do Vietnã, determinada em fevereiro de 2024, foi revogada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) em abril de 2025.

O cenário mostra que a concorrência com o produto importado não atinge todos os elos e mercados da tilapicultura brasileira da mesma maneira. A exposição aparece de forma mais direta no segmento de filés, enquanto o desafio mais amplo envolve produtividade, escala industrial, processamento, sanidade e ambiente regulatório. Para a cadeia nacional, a discussão passa não apenas pela capacidade de produzir, mas também pelas condições em que o produto brasileiro e o importado chegam ao mesmo mercado consumidor.

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