A transformação digital do agronegócio está avançando nas propriedades rurais e em diferentes elos da cadeia produtiva, impulsionada pela adoção de drones, máquinas conectadas, sensores e ferramentas de agricultura de precisão. Mas, junto com os investimentos em automação, surge um desafio cada vez maior para o setor: encontrar profissionais preparados para operar, desenvolver e sustentar essas tecnologias.
A dificuldade de contratação já é uma realidade no campo. Pesquisa da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em parceria com o Cepea/Esalq-USP, aponta que 94,8% dos entrevistados enfrentam algum tipo de dificuldade para contratar trabalhadores, enquanto 84,3% operam com equipes abaixo do necessário.
Os reflexos chegam diretamente à produção. Segundo o levantamento, 88,3% dos participantes relataram impactos produtivos relacionados à falta de mão de obra. Entre os principais problemas estão atrasos nas operações (48,7%), adiamento ou desistência de planos de expansão (48%), aumento dos custos com mão de obra (43,9%), antecipação de investimentos em mecanização e automação (42,6%) e redução da produção (42%).
Agora, a digitalização acrescenta uma nova dimensão a esse cenário. Além dos trabalhadores necessários às atividades tradicionais do campo, as empresas precisam de profissionais capazes de lidar com equipamentos cada vez mais sofisticados, sistemas integrados e grandes volumes de dados.
Falta de profissionais acompanha expansão dos drones e da automação
A dificuldade de encontrar mão de obra qualificada já aparece em segmentos específicos da tecnologia agrícola. Pesquisa do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag), realizada com mais de 40 empresas, identificou que 85% das companhias consultadas têm dificuldade para encontrar profissionais qualificados para operar drones.
O dado chama a atenção diante da expansão do uso desses equipamentos nas propriedades rurais, tanto em atividades de pulverização quanto em mapeamento e monitoramento das lavouras. A operação exige conhecimentos que vão além da familiaridade com o equipamento, envolvendo planejamento, interpretação de informações e domínio de sistemas digitais.
A demanda por qualificação, entretanto, não se limita às atividades realizadas diretamente no campo. Com a conexão de máquinas, sensores e plataformas de gestão, cresce também a necessidade de profissionais responsáveis por armazenar, integrar, proteger e analisar as informações geradas ao longo da produção.
Nesse contexto, agtechs, cooperativas, agroindústrias, fabricantes de máquinas e grandes grupos do agronegócio passam a disputar especialistas em áreas como engenharia de dados, desenvolvimento de software, inteligência artificial, integração de sistemas, infraestrutura de tecnologia e segurança da informação.
A concorrência não se restringe ao próprio agronegócio. Pesquisa realizada pela Ford em parceria com o Datafolha, divulgada em 2026, aponta que 98% das médias e grandes empresas consultadas enfrentam algum grau de dificuldade para contratar profissionais de tecnologia. Especialistas em inteligência artificial aparecem entre as posições mais difíceis de preencher, citados por 35% dos entrevistados, seguidos por engenheiros de software, com 31%.
Para Jerry Soares, CEO da MPJ Solutions, especializada em alocação de profissionais de tecnologia, a modernização do agronegócio amplia a necessidade de competências especializadas em diferentes etapas da cadeia produtiva. “Não basta comprar uma tecnologia e esperar que ela resolva o problema. Por trás de uma operação mais automatizada existem profissionais trabalhando com dados, sistemas, integrações, infraestrutura, segurança e inteligência artificial. Quanto mais digital o agro se torna, mais ele passa a disputar esses especialistas com bancos, indústrias, varejistas e empresas de tecnologia”, afirma.
Transformação digital amplia disputa por talentos fora da porteira
A incorporação de novas tecnologias modifica o perfil dos profissionais demandados pelo agronegócio. Dentro da porteira, drones, equipamentos automatizados e ferramentas de agricultura de precisão exigem trabalhadores preparados para operar sistemas cada vez mais complexos.
Fora dela, a necessidade se concentra também em profissionais responsáveis pelo desenvolvimento, integração e manutenção das soluções tecnológicas utilizadas pelo setor.
Uma máquina conectada, por exemplo, pode gerar informações sobre desempenho, consumo e condições de operação. Sensores instalados nas propriedades também produzem dados continuamente sobre diferentes aspectos da produção. Para que essas informações contribuam efetivamente para a tomada de decisão, porém, precisam ser integradas a outros sistemas, processadas e disponibilizadas com segurança.
É nesse ambiente que cresce a demanda por especialistas em tecnologia, que passaram a integrar a estrutura de empresas ligadas ao agronegócio, mesmo quando não atuam diretamente nas atividades agrícolas. “Hoje, o agro concorre pelo mesmo engenheiro de dados que pode trabalhar em um banco, em uma indústria ou em uma empresa de tecnologia. Para avançar, as empresas terão de pensar não apenas em quais tecnologias querem adotar, mas em como terão acesso às competências necessárias para colocá-las em prática. Isso pode passar pela formação de equipes internas, qualificação de profissionais ou pelo acesso a especialistas e times sob demanda em projetos específicos”, explica Soares.
Adoção de tecnologia exige planejamento e definição de prioridades
Além da escassez de profissionais, a transformação digital traz outro desafio para as empresas do agronegócio: garantir que os investimentos em tecnologia estejam alinhados às necessidades reais da operação.
Questões como conectividade no campo, integração entre plataformas, qualidade dos dados, segurança da informação e adequação das ferramentas à rotina das propriedades podem determinar o resultado de um projeto de automação.
Sem planejamento, a adoção de novas soluções pode acrescentar complexidade aos processos e elevar os custos, sem necessariamente proporcionar ganhos de produtividade ou eficiência.
Na avaliação de Soares, a definição do problema que a empresa pretende resolver deve anteceder a escolha da tecnologia e a contratação dos profissionais envolvidos no projeto. “Inteligência artificial virou uma expressão presente em praticamente todas as discussões de negócio, mas nenhuma tecnologia resolve sozinha um problema mal definido. Antes de pensar em IA, cloud ou automação, a empresa precisa saber qual gargalo pretende resolver, quais dados possui e qual resultado espera alcançar. É isso que determina a tecnologia e os profissionais necessários para o projeto”, afirma.
Com a expansão da agricultura digital, a disponibilidade de mão de obra qualificada tende a ganhar importância estratégica para a competitividade do agronegócio. Mais do que incorporar equipamentos e sistemas, o setor terá de avançar na formação, contratação e retenção de profissionais capazes de transformar inovação tecnológica em resultados efetivos para a produção.



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