A reportagem “Da utopia à realidade: dinheiro do crédito de carbono já remunera pecuaristas brasileiros”, publicada na edição 215 da Revista Feed&Food, de março de 2025, conquistou o segundo lugar na categoria Sustainability (Sustentabilidade) do IFAJ Star Prize 2026. Assinado pelo jornalista Ariosto Mesquita, o trabalho teve o resultado anunciado em 19 de setembro, durante o congresso anual da International Federation of Agricultural Journalists (IFAJ), realizado em Osijek, na Croácia.
A reportagem acompanhou casos em que pecuaristas já haviam recebido antecipadamente parte da remuneração vinculada a créditos de carbono que seriam gerados ao longo dos projetos. Em vez de tratar esse mercado apenas como uma possibilidade futura, a apuração encontrou produtores com recursos já depositados e projetos em andamento no campo.
Crédito antecipado no campo
A pauta foi proposta por Ariosto Mesquita após a identificação de produtores brasileiros que já recebiam essas antecipações. O jornalista conta que acompanhava esse mercado e já havia noticiado, em 2024, contratos de crédito de carbono na pecuária. Nos modelos que vinha observando até então, o recebimento dos recursos ocorria anos depois.
Mesquita destaca também a participação da Working Trees, que convidou o jornalista a conhecer casos em Goiás e Tocantins. “Antecipar parte do pagamento ao produtor foi uma grande sacada do pessoal do Vale do Silício, tanto para ajudar na viabilidade financeira dos projetos quanto para fidelizar o pecuarista no processo”, afirma Mesquita.
A Feed&Food reconheceu o potencial jornalístico da proposta, aprovou sua realização e viabilizou a apuração em campo para entender como o modelo funcionava na prática.
Entre os casos apresentados estava o do pecuarista e silvicultor Rodrigo Barros de Azevedo, de Porangatu (GO). Semanas após assinar um contrato relacionado a um projeto silvipastoril de 92 hectares, o produtor recebeu US$ 62 mil como antecipação de parte da remuneração prevista ao longo do projeto.

Na época da apuração, a reportagem também registrou cerca de R$ 3,5 milhões já antecipados a pecuaristas para projetos que somavam 950 hectares no Brasil. Os recursos permitiam aos produtores acessar antecipadamente parte da remuneração vinculada aos créditos de carbono que seriam gerados ao longo dos projetos, contribuindo para financiar a implantação dos sistemas silvipastoris.
Para Mesquita, o relato de Azevedo sintetizou o impacto concreto da pauta. “É forte e revela o ineditismo da história. Por isso trouxe seu depoimento para o ‘lead’ da reportagem. Provoca empatia e aproxima o leitor do fato”, afirma.
Reconhecimento ao jornalismo especializado
Mesquita recebeu a notícia da segunda colocação no Brasil, por meio do grupo de associados da Rede Brasil de Jornalistas Agro (Agrojor). Vera Ondei, presidente da entidade, representava a associação no congresso da IFAJ, na Croácia. “Fui surpreendido”, relata o jornalista. Ao avaliar o significado da premiação, Mesquita destaca o alcance das conquistas brasileiras no exterior e o reconhecimento do trabalho realizado pelo jornalismo especializado no País. “O ineditismo das conquistas brasileiras no exterior reforça o nível de profissionalismo do agrojornalismo brasileiro. Isso respinga positivamente também na atividade produtiva”, diz.
Para o jornalista, a especialização também desempenha papel fundamental na compreensão das questões de sustentabilidade do agronegócio, especialmente diante da complexidade técnica de muitos dos temas tratados pelo setor. “O jornalismo especializado é importante em qualquer segmento, sobretudo naqueles em que há mais especificidade, um linguajar mais técnico e profissional. Cabe ao jornalista ‘traduzir’ estas informações não só para o público agro mas também para a sociedade em geral”, analisa Ariosto Mesquita.
Jornalismo de profundidade exige investimento
Para Diogo Ciasulli, CEO da Feed&Food, a existência de propriedades, contratos e valores efetivamente recebidos foi um dos elementos que elevaram o potencial jornalístico da pauta. “Não estávamos falando apenas de metas, projeções ou promessas. Havia propriedades, contratos, valores depositados e transformações que poderiam ser verificadas no campo”, explica.
Para transformar a proposta em uma reportagem aprofundada, a Feed&Food viabilizou financeiramente os deslocamentos e os honorários do jornalista, além de acompanhar todo o processo editorial. Depois da apuração, a equipe trabalhou na edição, organização do conteúdo, projeto gráfico e publicação.
Ciasulli ressalta que o mérito da identificação da pauta e da apuração é do jornalista, enquanto o papel da Feed&Food foi acreditar na relevância da história e oferecer as condições necessárias para que ela pudesse ser desenvolvida com profundidade. “Para nós, também é importante destacar isso: jornalismo de profundidade exige investimento. Não basta defender boas reportagens no discurso. É necessário oferecer tempo, recursos e espaço para que o jornalista vá a campo, encontre as pessoas e verifique os fatos”, afirma.

Escolha editorial reconhecida
Para a Feed&Food, a segunda colocação no IFAJ Star Prize reforça uma estratégia baseada em produção jornalística original, proximidade com o campo e investimento em apuração. “Para nós, também representa a validação de uma escolha editorial: acreditar em conteúdo original, investir em apuração e abrir espaço para histórias que ajudam o setor a compreender suas próprias transformações”, destaca Ciasulli.
O CEO também relaciona o resultado à capacidade do jornalismo agro brasileiro de levar histórias do setor ao cenário internacional. “Mais do que uma conquista do veículo, enxergamos esse resultado como uma vitória do jornalismo agro brasileiro e da qualidade das histórias que o nosso setor tem para apresentar ao mundo”, avalia.
Segundo Ciasulli, a premiação reforça um modelo de jornalismo que a Feed&Food fortalece há mais de 20 anos. “Em um momento em que a informação circula cada vez mais rápido, acreditamos que a velocidade não pode substituir a apuração. O prêmio mostra que ainda existe muito valor em ir ao local, ouvir diferentes lados, verificar os fatos e contar boas histórias com profundidade”, conclui.




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