Integração entre atividades, eficiência produtiva e aproximação entre ciência e campo conduziram o primeiro dia do 15º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite (SBSBL), na terça-feira (6), em Chapecó (SC). Promovida pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet), a edição tem expectativa de reunir cerca de 1.500 participantes ao longo dos três dias e contempla 15 palestras, quatro painéis técnicos, 92 trabalhos científicos, o 5º Fórum Brasil Sul de Bovinocultura de Corte e a 10ª Milk Fair.
Presidente da comissão científica do SBSBL, Daniel Augusto Barreta explicou à Feed&Food que a diversidade dos sistemas produtivos impede que a programação se concentre em apenas um gargalo. Os quatro painéis foram estruturados para aproximar novas tecnologias das necessidades de produtores e técnicos. Na escolha dos convidados, a organização também buscou profissionais que estão “na fronteira da ciência”, mas capazes de transformar conhecimento científico em informação aplicável no campo.

Integração e futuro da carne abrem os debates
O Fórum de Corte iniciou a programação com Sebastião Brasil Campos Lustosa, que apresentou a integração entre agricultura e pecuária como estratégia para ampliar o aproveitamento da terra e criar diferentes safras ao longo do ano. Ao exemplificar o potencial das rotações, afirmou que uma mesma área pode gerar “uma safra de milho, uma safra de boi e uma safra de soja”. Para Lustosa, lavoura e pecuária deixam de disputar espaço quando são administradas como partes de um mesmo sistema.

Em participação remota, Guilherme Cunha Malafaia, da Embrapa Gado de Corte, projetou uma pecuária brasileira cada vez mais dependente de produtividade, tecnologia, rastreabilidade e agregação de valor. Dados apresentados indicam que a área destinada a pastagens caiu cerca de 11% nas últimas duas décadas, enquanto a produtividade quase dobrou e se aproxima de cinco arrobas por hectare ao ano. Para 2040, o cenário apresentado pelo pesquisador aponta produção superior a 13 milhões de toneladas de carne bovina. “O Brasil já venceu a corrida do volume. A corrida até 2040 é a do padrão”, afirmou.

Luc Delaby, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa para Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente da França (INRAE), completou a manhã mostrando como rebanhos leiteiros também podem gerar animais destinados à produção de carne. Na experiência francesa, o sêmen sexado permite concentrar a reposição nas fêmeas de maior interesse e utilizar genética de corte em parte do rebanho. Animais resultantes do cruzamento de touros Angus com vacas Holandesas e Normandas chegaram próximos de 600 quilos ao abate, indicando uma possibilidade de agregar valor a recursos já disponíveis nas propriedades leiteiras.

Manejo entra na conta da eficiência leiteira
À tarde, Greiciele de Morais abriu o painel Sistemas de Produção com os desafios e potencialidades da silagem de capim. Corte direto e pré-secado exigem cuidados distintos com umidade, fermentação, deterioração e escolha de aditivos. Embora demande mais etapas do que a ensilagem de milho, a alternativa pode diversificar a oferta de forragem e ampliar a segurança alimentar diante de condições climáticas adversas.

Na sequência, Gabriel Menegazzi, professor da Universidad de la República (Udelar), no Uruguai, relacionou manejo das pastagens, produtividade, custos e sustentabilidade. Nos dados apresentados para a realidade uruguaia, a dieta média reúne aproximadamente 50% de pasto consumido diretamente pelos animais, 25% de concentrados e 25% de reservas forrageiras. “O pastejo é comumente subestimado, mas está diretamente ligado ao resultado econômico e à resiliência do sistema”, afirmou.

Delaby retornou à programação para discutir o uso estratégico de concentrado em vacas mantidas a pasto. Resultados do experimento Tripl’XL, conduzido desde 2020 pelo INRAE com aproximadamente 150 vacas Holandesas, Normandas e Jersey, mostram que a resposta à suplementação varia conforme a fase da lactação. No início, houve aumento da produção de leite sem impedir a mobilização das reservas corporais; em fases posteriores, o concentrado contribuiu para a recuperação da condição corporal. Os diferentes esquemas avaliados não provocaram alterações relevantes nos indicadores reprodutivos.
Nucleovet anuncia Formuleite – Edição Sul
Após a programação científica, a abertura oficial celebrou os 15 anos do SBSBL e os 55 anos do Nucleovet. A presidente da entidade, Aletéia Britto da Silveira Balestrin, relacionou a trajetória das iniciativas à capacidade de renovação. “Quinze anos de SBSBL nos mostram que uma ideia pode se transformar em tradição. E 55 anos de Nucleovet nos mostram que uma tradição só permanece viva quando consegue continuar se reinventando”, declarou.

A solenidade também trouxe uma novidade para 2027: o Nucleovet realizará no Sul do Brasil o Formuleite – Edição Sul, em parceria com os professores Marcos Neves Pereira e Trevor DeVries. A abertura ainda incorporou ações sociais: parte do valor arrecadado com as inscrições será destinada ao Programa Verde Vida, que recebeu simbolicamente R$ 10 mil, enquanto o lucro obtido com a venda de produtos da NucleoStore será direcionado às Formigas do Bem.
Tejon encerra o primeiro dia
A programação terminou com José Luiz Tejon Megido e a palestra “Sucesso tem fórmula?”. O professor, jornalista e escritor relacionou sucesso a trabalho, responsabilidade individual, aprendizado permanente e cooperação. “A fórmula do sucesso é muito trabalho e uma coisa muito importante: não colocar a culpa no outro. Sucesso é muita vontade de trabalhar, assumir responsabilidade e, principalmente, admirar as melhores pessoas”, afirmou.

Após a apresentação, os participantes seguiram para o coquetel de abertura da Milk Fair. Nesta quarta-feira (7), o SBSBL concentra os debates nos painéis de Sanidade Animal e Reprodução e Gestão e Qualidade do Leite, com discussões sobre leucose, tripanossomose, eficiência reprodutiva, CCS, equipamentos de ordenha e gestão zootécnica.



Nenhuma discussão ainda. Seja o primeiro a comentar.