A escalada da guerra no Oriente Médio acendeu um sinal de alerta na cadeia brasileira de carne bovina e ampliou as preocupações sobre os impactos econômicos no agronegócio. Segundo o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, entre 30% e 40% de toda a exportação nacional de carne passa, de alguma forma, pela região em conflito, o que eleva significativamente o risco para o setor.
Embora apenas cerca de 10% das exportações tenham como destino final países do Oriente Médio, o efeito indireto é mais amplo. Parte das cargas faz escala em portos da região ou depende de empresas ali sediadas para seguir ao Sudeste Asiático e outros mercados. “Entre 30% e 40% de toda a exportação brasileira de carne passa pelo Oriente Médio, de alguma maneira”, afirmou Perosa.
No momento, os novos embarques estão praticamente paralisados. De acordo com o dirigente, não há disponibilidade de contêineres e as companhias marítimas suspenderam bookings para a região. Nos poucos casos em que há oferta, é cobrada uma sobretaxa de até US$ 4 mil por contêiner — a chamada “taxa de guerra” — o que inviabiliza economicamente as operações.
O impacto dependerá da duração da crise. Se o impasse for resolvido em uma semana, os efeitos tendem a ser limitados. Caso se estenda por cinco semanas, pode comprometer até 30% do volume exportado no mês. O Brasil embarca entre 200 mil e 250 mil toneladas mensais de carne bovina.

Sem escoamento externo, o excedente pressiona um mercado interno já saturado, o que pode levar à redução do ritmo de abates e provocar um efeito sistêmico na cadeia produtiva. Diante do cenário, a Abiec pretende formalizar a preocupação junto ao governo federal, defendendo tanto atuação diplomática quanto eventual apoio econômico, especialmente via crédito, para evitar desestruturação do setor caso a crise se prolongue.
O ambiente externo desafiador também integra o conjunto de incertezas para o desempenho do agronegócio em 2026. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) projeta crescimento de 1,22% do Produto Interno Bruto (PIB) da agropecuária neste ano, após a forte alta de 11,7% registrada em 2025. A estimativa é preliminar e deverá ser revisada após a consolidação dos dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
De acordo com o coordenador do Núcleo Econômico da CNA, Renato Conchon, o desempenho esperado reflete uma base de comparação elevada, resultado da supersafra e do bom momento da pecuária no ano passado. Apesar da previsão positiva para a safra atual e do crescimento projetado para quase todos os segmentos pecuários — com exceção da carne bovina, que entra em ciclo baixista — o ritmo tende a ser mais moderado.
Para o PIB nacional, a CNA estima expansão de 1,95% neste ano, abaixo dos 2,3% registrados anteriormente. A desaceleração é atribuída à expectativa de inflação mais alta, incertezas relacionadas ao conflito no Oriente Médio com possíveis reflexos sobre o petróleo e fertilizantes, além da perspectiva de juros elevados até o fim do ano. Com isso, a participação da agropecuária no PIB brasileiro deve recuar de 7,54% para cerca de 6,9%.
Em 2025, o desempenho do agro foi decisivo para o crescimento da economia. A alta de 11,7% do setor superou a projeção inicial de 8,3% e respondeu por 0,8 ponto porcentual do PIB nacional. Se o setor tivesse ficado estável, o crescimento do país não teria alcançado 1,5%, segundo a CNA.
Além de soja e milho, contribuíram positivamente para o resultado as safras de café conilon, laranja e arroz, enquanto o feijão teve impacto negativo. A pecuária, tanto de corte quanto leiteira, também impulsionou o desempenho, sustentada por exportações robustas.
Para 2026, a CNA elenca como fatores de atenção as incertezas climáticas, salvaguardas chinesas sobre a carne bovina, tensões no Oriente Médio com reflexos logísticos e nos preços de insumos, volatilidade cambial, juros elevados, redução do poder de compra das famílias e o ritmo de crescimento do salário mínimo. No curto prazo, a tendência para o primeiro trimestre é positiva, impulsionada pela entrada da soja da safra 2025/26, embora haja preocupação com o excesso de umidade em algumas regiões e seus possíveis efeitos sobre a qualidade da produção.
Sazonalmente, o PIB da agropecuária costuma apresentar desempenho mais forte no primeiro trimestre, com a colheita da safra de verão, desacelerar no segundo e terceiro trimestres e retomar fôlego no fim do ano, com a colheita das culturas de inverno e o aumento do abate pecuário impulsionado pelas festas de fim de ano.
Já a Associação Brasileira de Produção Animal (ABPA), apontou que o setor deve ficar atento com possíveis aumentos de custos para exportação. “Com o fechamento de portos no Oriente Médio, nossa carne exportada, deverá buscar novas rotas para abertura, o que pode encarecer o processo final de exportação”, avalia Ricardo Santin, Presidente da ABPA. (Com informações da ABPA, CNA, ABIEC e Broadcast.)
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