O segundo semestre de 2026 deve exigir atenção das cadeias de proteína animal no Brasil, principalmente diante da combinação entre oferta elevada de grãos, mudanças no comércio internacional e risco climático. A avaliação aparece na edição de junho do relatório Agroinfo, divulgado pelo RaboResearch Food and Agribusiness, do Rabobank.
Embora o levantamento traga análises específicas para soja, milho, boi e leite, os movimentos desses mercados também ajudam a indicar tendências para outras cadeias de proteína animal, como aves, suínos, ovos e peixes. Isso porque soja e milho formam a base da alimentação de boa parte dos sistemas produtivos e têm impacto direto sobre custos, margens e competitividade.
Grãos pressionam preços e influenciam custos
Na soja, o Rabobank destaca a confirmação de uma safra recorde no Brasil em 2025/26, estimada em 182 milhões de toneladas, alta de 10 milhões de toneladas em relação ao ciclo anterior. A produção elevada ocorre em um cenário de demanda ainda aquecida, com exportações brasileiras previstas em 113 milhões de toneladas no acumulado do ano e avanço do esmagamento, impulsionado por melhores margens e maior demanda por derivados.
No milho, o RaboResearch elevou em 1 milhão de toneladas sua estimativa para a safra brasileira, projetando produção total de 138 milhões de toneladas. A entrada da safra, o aumento da relação estoque/consumo e as restrições logísticas vêm pressionando os preços do cereal, que registraram queda no último mês.
Apesar da pressão nas cotações, o consumo doméstico de milho deve seguir em crescimento. Segundo o relatório, o setor de proteína animal e a indústria de etanol devem ampliar a demanda ao longo do ciclo, levando o consumo total a cerca de 97 milhões de toneladas, alta de aproximadamente 5% frente ao ano anterior.

Boi pode perder força no terceiro trimestre
Na carne bovina, o relatório aponta que as exportações brasileiras seguiram renovando recordes até maio, impulsionadas principalmente por China e Estados Unidos. Nos cinco primeiros meses do ano, os embarques somaram 1,4 milhão de toneladas e US$ 7,8 bilhões, altas de 15% e 35%, respectivamente, na comparação anual.
Apesar do desempenho positivo, o Rabobank avalia que o possível preenchimento da cota chinesa ainda em junho tende a reduzir os embarques no terceiro trimestre. A China responde por cerca de 45% do volume exportado pelo Brasil, enquanto os Estados Unidos representam aproximadamente 13%. Com isso, o mercado futuro já sinaliza pressão negativa sobre os preços do boi gordo a partir do terceiro trimestre.
Leite tem recuperação moderada, mas demanda preocupa
No leite, o relatório indica desaceleração da produção e estabilização dos preços. A oferta menor tem ajudado a sustentar os valores ao produtor, mas a demanda pode ser afetada no segundo semestre por inflação mais alta, encarecimento dos alimentos e endividamento das famílias.
O Rabobank também aponta que as importações lácteas devem permanecer elevadas no segundo semestre de 2026, sustentadas por preços internacionais estáveis, real relativamente forte e preços domésticos um pouco mais altos em razão da menor oferta.
El Niño adiciona risco ao cenário
Outro ponto de atenção para as cadeias produtivas é o clima. O relatório cita a confirmação de condições para o início do El Niño a partir de julho de 2026, com fortalecimento até o verão do hemisfério sul. O fenômeno pode impactar lavouras, pastagens e regiões produtoras de leite, dependendo da intensidade e da distribuição das chuvas.
Para as proteínas animais, o cenário combina oportunidades e cautela. A oferta robusta de soja e milho pode aliviar parte dos custos de alimentação, mas câmbio, logística, clima, demanda interna e exportações seguem como fatores decisivos para aves, suínos, bovinos, ovos, leite e peixes ao longo do segundo semestre.
Fonte: Rabobank Agroinfo Junho 2026, adaptado pela equipe Feed&Food
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