Caroline Mendes, de Chapecó (SC)
Durante palestra ministrada no 14º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite, o pesquisador da Embrapa, Glauco Rodrigues Carvalho, apresentou um panorama detalhado sobre o mercado de lácteos, destacando tendências estruturais, regionais e econômicas que moldam o setor. Segundo ele, o leite brasileiro vive um momento de reorganização produtiva e consolidação, com ganhos de produtividade concentrados em regiões mais tecnificadas e em propriedades de maior escala.

“O leite está mudando de lugar e se consolidando cada vez mais em algumas regiões. Metade da produção nacional vem hoje de apenas 4% do território brasileiro”, destacou Carvalho.
O economista explicou que, embora o país tenha passado por uma década de estagnação na produção entre 2014 e 2023, o cenário atual mostra retomada, impulsionada por eficiência e tecnologia. Dados da Embrapa indicam que o Brasil deve encerrar 2025 com crescimento entre 5% e 6% na produção, com destaque para os estados do Sul, especialmente Santa Catarina, cuja produção cresceu mais de 20% no período recente, mesmo em meio a desafios climáticos e de mercado.
Pequenos produtores e eficiência
Carvalho chamou atenção para a consolidação da produção nas mãos de produtores de maior escala. Entre 2020 e 2025, a participação de fazendas que produzem até 500 litros diários diminuiu em praticamente todos os estados, enquanto cresceu a fatia de produtores acima de 2 mil litros.
No entanto, ele ressaltou que o tamanho da propriedade não determina, por si só, a rentabilidade. “Produtores menores podem ser rentáveis quando têm gestão eficiente, bons índices de produtividade e assistência técnica. O custo faz toda a diferença — não o preço recebido”, afirmou, citando estudos com mais de 400 propriedades.
Expansão geográfica e polos consolidados
O pesquisador destacou que a produção de leite no Brasil está se concentrando em 15 grandes bacias leiteiras, responsáveis por 60% do volume nacional. A principal delas está na Região Sul, que produz cerca de 22 milhões de litros de leite por dia. Outras áreas de destaque incluem o Sudeste e partes do Nordeste, com forte avanço em estados como Sergipe, Pernambuco e Alagoas.
“Onde há densidade produtiva, há também um ecossistema de suporte: veterinários, cooperativas, indústrias e empresas de insumos. É esse ambiente que sustenta o crescimento”, explicou Carvalho.
Pressões externas e consumo interno
No cenário internacional, o pesquisador observou queda nos preços do leite em pó, atualmente próximos de US$ 3.700 por tonelada, reflexo do aumento da produção nos grandes exportadores, como União Europeia, Estados Unidos e Nova Zelândia.
No Brasil, apesar da boa produção, as importações seguem elevadas, pressionando o mercado interno. Em 2024, o país importou em média 170 milhões de litros por mês — volume ainda alto, mesmo com queda frente ao ano anterior.
Carvalho destacou ainda a forte correlação entre o crescimento econômico e o consumo de lácteos. “Quando o PIB cresce, o consumo de leite aumenta. Mas a economia brasileira está desacelerando — e isso deve limitar a expansão do consumo nos próximos meses.”
Expectativas para o setor
Com produção crescente e consumo interno em ritmo mais lento, o pesquisador alertou para o risco de acúmulo de estoques e pressão sobre os preços pagos ao produtor. “A tendência de curto prazo é de estabilidade ou leve queda nos preços, já que a oferta está crescendo mais rápido do que a demanda”, avaliou.
Mesmo assim, Carvalho encerrou a palestra com uma mensagem de otimismo: “Temos desafios, mas também oportunidades. O produtor que busca eficiência, gestão e tecnologia vai seguir crescendo — e é nele que o futuro do leite brasileiro se sustenta.”
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