Caroline Mendes, de Piracicaba (SP)
A pecuária norte-americana vive uma transformação silenciosa e profunda. O que antes era considerado resíduo da indústria leiteira — os bezerros machos, sem valor econômico e muitas vezes vendidos a preços irrisórios— está se tornando um dos pilares importantes da produção de carne bovina nos Estados Unidos. Essa mudança foi apresentada em detalhes pelo professor João Costa, da Universidade de Vermont (EUA), em palestra realizada durante encontro da Lallemand Animal Nutrition.
Segundo o pesquisador, esse movimento, chamado Beef on Dairy, já representa quase 20% do gado que entra nos confinamentos norte-americanos. “Em 2014, havia cerca de 50 mil bezerros cruzados. Em 2024, chegamos a 3,2 milhões. E o crescimento não vai parar, porque já existem vacas prenhes para manter esse fluxo nos próximos anos”, destacou.

Da desvalorização à oportunidade de negócios
Durante décadas, os bezerros machos de origem leiteira eram vendidos a preços irrisórios — muitas vezes por 40 ou 50 dólares cada — e passavam por sistemas precários, com alta mortalidade e baixo cuidado sanitário. A percepção pública negativa sobre o destino desses animais chegou a gerar crises de imagem para o setor.
A virada começou em 2018, quando a associação norte-americana de produtores de Angus passou a aceitar animais cruzados nos programas de carne certificada. Esse reconhecimento abriu as portas para contratos formais de fornecimento, com foco em padronização, rastreabilidade e qualidade da carne.
“O que mudou não foi apenas genética ou nutrição, mas a lógica de negócios. Hoje, o bezerro que valia 50 dólares pode ser vendido até por 850 dólares com contrato de 12 meses. Essa previsibilidade reduz o risco do confinador e aumenta a margem do produtor de leite”, explicou Costa.
Contratos e rastreabilidade
O professor destacou que o Beef on Dairy só se consolidou porque foi acompanhado de novos mecanismos de gestão. Entre eles:
- Sêmen especializado para cruzamentos mais homogêneos;
- Certificação de manejo, com exigências de colostragem e padrões mínimos de crescimento;
- Rastreabilidade individual, que acompanha o animal da inseminação até o confinamento.
“Hoje, os contratos especificam tudo: desde ganho de peso mínimo até protocolos de saúde. Isso mudou a mentalidade do produtor de leite, que deixou de ver o bezerro macho como problema e passou a enxergá-lo como ativo estratégico”, destacou.
Desafios sanitários e nutricionais
O crescimento acelerado trouxe novos obstáculos. Dietas mais intensivas, com alta inclusão de amido e longos períodos de confinamento, aumentaram a incidência de abscessos hepáticos, que podem chegar a 60% em alguns lotes.
Por outro lado, a exigência de colostragem adequada elevou os índices de desempenho e reduziu morbidade. “Hoje há até prêmio financeiro de até 50 dólares por bezerros bem colostrados. Isso mostra como fatores de manejo se tornaram determinantes na valorização”, disse o professor.
Impactos ambientais
Outro ponto em debate nos EUA é a pegada de carbono. Se parte das emissões da vaca leiteira for considerada “absorvida” pela produção de leite, o bezerro de corte nascido desse sistema pode chegar ao mercado com emissão zero atribuída, tornando-se um diferencial competitivo em mercados cada vez mais atentos à sustentabilidade.
O alerta para o Brasil
Enquanto os Estados Unidos estruturaram uma cadeia bilionária em torno do Beef on Dairy, a realidade brasileira ainda é de desperdício. Com um rebanho de cerca de 16 milhões de vacas leiteiras, nascem anualmente 7 milhões de bezerros machos sem destino estruturado.
“Esses animais simplesmente somem: ficam na fazenda, vão para vizinhos e outras propriedades não especializadas, são descartados ou até aparecem à beira de estradas. É uma bomba-relógio para o setor, porque em algum momento a sociedade vai cobrar uma solução. E já passou da hora de enxergar esses bezerros como oportunidade de negócio”, alertou Costa.
Segundo ele, o Brasil tem entraves importantes, como menor estabilização do rebanho, índices de fertilidade mais baixos e falta de estrutura organizada para recria e terminação desses animais. Mas também possui vantagens competitivas, como abundância de pastagens, custo de produção mais baixo e uma indústria de carne consolidada e internacionalmente reconhecida.
Para o professor, o desafio brasileiro passa por mudar a mentalidade. É preciso enxergar o bezerro leiteiro não como um problema inevitável, mas como insumo valioso para a cadeia da carne.
“Nos EUA, os produtores de leite se tornaram atores centrais dessa revolução. No Brasil, ainda tratamos o macho leiteiro como descarte. Mas se estruturarmos programas de cruzamento, certificação e integração com a indústria de carne, podemos transformar uma fragilidade em vantagem competitiva”, concluiu.





