Mesa de Mercado · CEPEA
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Geopolítica e inovação redesenham desafios e oportunidades para o agronegócio brasileiro

Especialistas reunidos no Congresso Brasileiro do Agronegócio destacam a necessidade de diversificação de mercados, previsibilidade regulatória e avanço tecnológico para ampliar a competitividade do agro.

O avanço das disputas geopolíticas, a reorganização das relações comerciais e a velocidade das transformações tecnológicas estão criando um novo ambiente para o agronegócio brasileiro. Nesse cenário, o país precisa ampliar sua capacidade de diálogo com diferentes parceiros, diversificar mercados e, ao mesmo tempo, criar condições para acelerar a inovação e garantir maior previsibilidade regulatória.

As avaliações foram apresentadas nesta segunda-feira (10), em São Paulo, durante a edição histórica de 25 anos do Congresso Brasileiro do Agronegócio (CBA), promovido pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), em parceria com a B3.

Durante a mesa-redonda “O Agro na Geopolítica”, o embaixador do Brasil no Reino do Marrocos, Alexandre Parola, destacou que a atual configuração internacional exige do Brasil uma estratégia que vá além do curto prazo.

Segundo ele, a estrutura multilateral criada no pós-guerra, incluindo instituições como a Organização Mundial do Comércio (OMC), perdeu parte da capacidade de refletir a atual distribuição de poder. Ao mesmo tempo, Estados Unidos e China seguem como protagonistas, enquanto Índia e Rússia também ocupam posições relevantes no cenário de disputas e alianças.

“A estrutura multilateral criada no pós-guerra, incluindo instituições como a OMC, perdeu parte de sua capacidade de refletir a atual distribuição de poder. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos continuam sendo uma potência central, enquanto a China mantém sua trajetória de expansão. Índia e Rússia também integram esse complexo quadro de disputas e alianças”, afirmou.

Durante a mesa-redonda “O Agro na Geopolítica”, o embaixador do Brasil no Reino do Marrocos, Alexandre Parola, destacou que a atual configuração internacional exige do Brasil uma estratégia que vá além do curto prazo.

Na avaliação de Parola, o período de relativa “negligência benigna” em relação ao Brasil chegou ao fim. Com a segurança estratégica passando a influenciar cada vez mais as decisões econômicas e comerciais das grandes potências, o país precisa se preparar para um ambiente mais complexo.

“A segurança estratégica passou a influenciar cada vez mais as decisões econômicas e comerciais das grandes potências. Para o Brasil e o agronegócio, essa realidade abre oportunidades, mas também exige adaptação”, disse.

Para o diplomata e especialista em geopolítica Braz Baracuhy, o Brasil tem interesses convergentes com diferentes potências e pode ampliar suas relações comerciais com outras regiões. Para isso, segundo ele, é necessário combinar a capacidade de iniciativa do setor privado com uma política de Estado de longo prazo, especialmente nas áreas de segurança alimentar e energética.

Baracuhy também chamou atenção para a dependência de rotas internacionais estratégicas, como o Estreito de Ormuz, por onde passa parcela significativa do comércio global de energia.

“O centro de gravidade da economia rural está no Estreito de Ormuz. Do ponto de vista geopolítico, isso é assustador, mas minha impressão é de que existem incentivos para a diplomacia”, afirmou.

Inovação depende de ambiente regulatório previsível

Além da geopolítica, a capacidade de inovar e incorporar novas tecnologias foi apontada como fator decisivo para a competitividade do agronegócio brasileiro. No painel “A indústria que revoluciona o Agro”, participantes destacaram que o país reúne escala produtiva, recursos naturais, capacidade empresarial e potencial tecnológico, mas precisa avançar em velocidade de inovação e previsibilidade regulatória.

Para Ana Repezza, presidente da CropLife Brasil, a existência de marcos legais claros e atualizados é fundamental para estimular investimentos em novas tecnologias.

“Marcos legais, proteção de cultivares, inovação e previsibilidade regulatória são fundamentais para estimular investimentos das empresas que desenvolvem novas tecnologias”, afirmou.

A executiva ressaltou ainda as particularidades da agricultura tropical, que convive com elevada pressão de pragas e condições climáticas desafiadoras. Nesse contexto, a disponibilidade de diferentes tecnologias e a adoção do manejo integrado são importantes para preservar a produtividade e a competitividade do setor.

Segundo Ana, processos regulatórios demorados podem retardar a chegada de novas moléculas e soluções ao campo e, consequentemente, alterar o cenário produtivo.

Apesar das críticas recebidas pelo Brasil no ambiente internacional, ela avalia que o país conta com uma estrutura regulatória moderna. O desafio, porém, está em manter os marcos legais atualizados diante da velocidade das inovações.

A previsibilidade também é apontada como essencial para o segmento de biocombustíveis. Gustavo Mariano, vice-presidente da Inpasa, destacou que regras mais estáveis permitem reduzir custos e ampliar a capacidade de planejamento dos investimentos.

“A América Latina precisou se adaptar rapidamente às novas demandas internacionais, enquanto novas regulamentações, inclusive no transporte marítimo, deverão provocar outras mudanças”, afirmou.

Para Mariano, a capacidade de incorporar novas soluções rapidamente será determinante para o desenvolvimento da agroindústria. “A velocidade de adoção de tecnologias para a melhoria dos processos é o caminho para uma agroindústria forte”, disse.

Inteligência artificial exige tecnologia e qualificação

A transformação digital também foi colocada no centro da discussão. Gastón Díaz Pérez, presidente e CEO da Bosch América Latina, defendeu um ambiente regulatório que não crie obstáculos desnecessários à atividade empresarial em um contexto marcado por complexidade, volatilidade econômica, juros elevados e incertezas geopolíticas.

Segundo o executivo, ferramentas digitais já são utilizadas na América Latina, mas o desafio está em transformar o desenvolvimento tecnológico em aplicações eficientes para o setor produtivo.

Nesse processo, a inteligência artificial ganha espaço, mas sua adoção depende também de profissionais preparados para utilizar e interpretar as novas ferramentas.

“Os modelos preditivos baseados em IA precisam estar associados à qualificação profissional, pois sem pessoas qualificadas, não existe o suporte humano necessário para conduzir a inteligência artificial”, afirmou.

As discussões realizadas no CBA reforçam, assim, que a competitividade futura do agronegócio brasileiro dependerá não apenas da capacidade de produzir em escala, mas também de sua habilidade para navegar em um cenário internacional mais fragmentado, acessar novos mercados, incorporar tecnologias e operar sob regras que ofereçam segurança para investimentos de longo prazo.

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